Doc ‘Da Lata’ recupera imagens inéditas de obra-prima de Fernanda Abreu
Redação Online
Publicado em 24 de julho de 2026 às 18:40 | Atualizado há 37 minutos
Cantora e compositora se aprofundou no samba-funk nos anos 1990 - Fotos: Mateus Rubim
Marcus Vinícius Beck
Pela manhã, antes do escândalo dançante, estava sem saber o que fazer. Como a Copa do Mundo acabara havia doze horas, achei-me na ressaca. Um mês e nove dias vendo jogos, ótimos e ruins, e ouvindo Fernanda Abreu. Será que eu conseguiria fazer jus à garota sangue bom e ao seu veneno da lata, ao novo som na praça e ao batuque-samba-funk? Fico a pensar.
Arranjei a solução. Antes do filme, escrevi umas tolices, como essas que você acabou de ler. Deveria jogá-las no lixo, mas sei que recuarei. Desintegro e atualizo. Quero o suingue.
“Da Lata” tem início. Com vasto material inédito captado em vídeo S-VHS, o documentário é dirigido pelo videomaker carioca Paulo Severo. As imagens mostram as sessões para criar o clássico álbum homônimo, lançado pela cantora, compositora e bailarina Fernanda Abreu.
A garota sangue bom volta no tempo: “O que eu escutava de música na minha adolescência era música negra internacional, samba, bossa nova e música brasileira.” Sua paixão é o som black. Como uma aquarela, ela adora soul, funk velha-guarda, rap, hip hop e funk carioca.
Entidade urbana, Fernanda é o que há. A Blitz, colorida e sensual, explodiu nos anos 1980. No entanto, tudo acabou. Foi cada um para o seu canto. Que estilo seguir? O antropólogo Hermano Vianna pesquisava os bailes periféricos e levou a ex-backing vocal até eles.
Era um momento de transição. Ia-se da música analógica à computadorizada. Havia muita dúvida, cautela. Fernanda não queria repetir a ex-banda, fórmula fácil e esgotada. Queria se descobrir e, assim, se abrir ao novo. Nesta época, conheceu a bateria eletrônica Boss DR-220.

Novos sons
A diva começou a explorar as perspectivas sonoras da drum machine. Se lhe faltava noção, sobrava-lhe garra. Fez, pouco tempo depois, a canção “Kamikazes do Amor”, do LP “SLA Radical Dance Disco Club”, de 1990. O artista Fausto Fawcett analisou o long play dançante, delícia corporal — e ainda diziam, vejam só, que soltar o quadril e gritar era coisa menor.
Mil novecentos e noventa e cinco, sete e meia da manhã: é assim que Fernanda inicia o CD “Da Lata”, dissecado no filme. Com roteiro assinado por ela e Severo, a película percorre festivais mundo afora, realçando a simbiose entre o pop e o samba-funk, o R&B e o rock.
Sabendo-se plural, a artista carioca está quente no paraíso do espírito excitado pela festa dos sentidos animados pelo sol, tal qual a “Garota Sangue Bom”, personificada e expandida no registro fonográfico. Fernanda lembra que, mesmo hoje, ainda a apresentam dessa forma.
Muitos falam no filme — desde o fotógrafo do álbum, Walter Carvalho, até a figurinista do show, Cláudia Koepe. A coreógrafa Debora Colker enfatiza a faceta dançarina de Fernanda. Tudo isso confere ao longa-metragem um viés polifônico, por serem pessoas próximas.
O poeta marginal Chacal, autor da letra-editorial “A Lata”, explica: “Fiz já com uma ideia de funk. São frases curtas e tal […] Tinha aquela coisa do funk da época, da geolocalização”.
Doc disseca disco que mostrou país do suingue

É o bonde, é o trem. Na tela, ressoa a lata no fundo da madrugada, silêncio da calada. “De repente, foi chutada na batucada. O som seco dessa lata era um funk lá na Lapa”, canta Fernanda, papo reto, avisando que o pior já passou. Quase uma utopia de Darcy Ribeiro.
Sagaz nas ideias e na atitude, a compositora meteu bronca. De “SLA Radical Dance Disco Club”, de 90, a “SLA 2 Be Sample”, de 92, ela aprimorou a sua linguagem. Com “Da Lata”, de 95, aprofundou-se no samba-funk e, mais do que nunca, reafirmou sua carioquice.
Durante o filme, Fernanda sublinha: “Tem três tópicos que eu queria apresentar ao público em relação à lata. 1) O material lata. 2) A gíria ‘da lata’, da melhor qualidade. Tinha essa história. 3) ‘Na lata’, que era dizer ‘aqui não tem subterfúgios, aqui não tem enganação’.”
Ou seja, é a cara do Brasil. Mas, como é barata, usam-na também com propósito percussivo. Carrega luxos e lixos. Talvez carregue maconha, maconha tailandesa, fortíssima, vinte e duas toneladas de fumo despejado no mar e encontrado nas praias do Rio, em setembro de 1987.

Beleza e caos
Meu ouvido, antes indisposto, despertou. É que assisto ao doc “Da Lata”, testemunhando imagens de Fernanda Abreu e sua turma nos estúdios Nas Nuvens e Discover, no Rio de Janeiro, e a mixagem no Studio Soul II Soul, em Londres. Dá gosto ver essas inteligências.
Diante dos meus olhos, o filme avança. Esqueço a Copa, esqueço a ressaca. Começa, na tela, o clipe de “Rio 40” — letra afiada do artista Fausto Fawcett, diagnóstico do que é viver no purgatório da beleza e do caos, com o som do “contrabando militar da novidade cultural”.
“Existia, pra mim, que era uma garota branca, de classe média, uma cultura muito potente sendo feita na periferia, nos morros, que era o funk”, revela Fernanda, durante o filme.
Membro do Soul II Soul, o tecladista Will Mowat assina a produção de “Da Lata” junto com Liminha. Ele descobriu o som de Fernanda quando veio ao Brasil pela primeira vez, em 93. Na ocasião, foi a uma loja de discos e comprou uma coleção de LPs, entre os quais “SLA 2 Be Sample”. O suingue abreuriano o encantou. Então, mandou um fax à gravadora EMI.
“Eles responderam dizendo o quanto a Fernanda gostava do Soul II Soul e que estavam começando a pensar no seu próximo disco”, diz Will. O músico, inclusive, relembra no doc momentos de tensão entre ele e Liminha no estúdio. Para o produtor, a cantora é uma especialista em R&B. “O funk já estava em mim. Quando a ouvi, pensei: ‘posso fazer isso’.”
Ao fim do doc “Da Lata”, o antropólogo Hermano Vianna lembra daquele tempo. Define-o como “uma época muito interessante”: “Você vê a produção deste disco — Londres e tudo o mais. Foi uma época que não existe mais na indústria fonográfica: bancar essas ideias todas, e achá-las comerciais.” Embora na ressaca, estou tomado pelo escândalo sexy-dançante.