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Entrevista: Pianista Antonio Adolfo revive carreira e fala sobre novo disco

Redação Online

Publicado em 28 de julho de 2026 às 20:35 | Atualizado há 54 minutos

Antonio Adolfo supera fronteiras com sua obra | Foto: Alexandre Moreira
Antonio Adolfo supera fronteiras com sua obra | Foto: Alexandre Moreira

Marcus Vinícius Beck

Nas minhas audições diárias, para fortalecer as sensações e o espírito, um disco, como um balaio, me piruetou. Fico a matutar que não apenas se escuta o som: ele se lança e se encaixa. O músico Antonio Adolfo, 79, criou uma obra-prima ao piano, fartura de jazz e suingue.

Entre nuances e silêncios, me acho eufórico. No disco “Balaios”, a herança estética se revela pelas tradições africanas, europeias e indígenas — é onde, aliás, se origina a grande música do mundo. Adolfo busca inspiração nesse legado cultural, combinando ritmos e harmonias.

Sua visão artística, jazzística e livre, supera fronteiras. Vai de Cole Porter a Wayne Shorter. O pianista olha para o passado, mas não esquece o futuro. Nove faixas criam a autobiografia das ideias, memórias e melodias. O disco, já no streaming, levou meses para ser fecundado.

Adolfo formou, em “Balaios”, um afinado noneto, composto por André Dantas (percussão), Danilo Sinna (saxofone alto), Jessé Sadoc (trompete e flugelhorn), Jorge Helder (baixo), Lula Galvão (violão e guitarra), Marcelo Martins (saxofone tenor e flauta), Rafael Barata (bateria e percussão) e Rafael Rocha (trombone). Leo Gandelman e Thom Rotella são convidados.

“Os balaios carregam bens, mercadorias, frutas, várias coisas”, diz Adolfo ao DM. Segundo ele, é uma tradição marcante no Nordeste brasileiro e também em outros lugares do País. “Isso tem origem na África. E nós temos uma grande influência africana na nossa cultura.”

Capa do disco ‘Balaios’, do compositor e pianista Antonio Adolfo | Foto: Divulgação

Identidade

Sob a ótica antropológica, a cestaria é uma expressão de identidade. Os balaios são feitos de fibras naturais, como cipó e palha. Simbolizam o trabalho, a resiliência, a ancestralidade e, sobretudo, a abundância. Um disco, em certo sentido, também se aproxima desses signos.

“Nele, um músico reúne o que cultivou ao longo do tempo. Cada peça é cuidadosamente colocada dentro, moldada não só pelo momento em que nasceu, mas transportada para o presente com um significado renovado”, explica o pianista, em evolução há seis décadas.

Inicia-se “3D Blues”, samba-jazz com baião e suingue. Essa composição revela o talento de Adolfo em fundir os ritmos brasileiros e estadunidenses. É para reiniciá-la e ouvi-la de novo.

O samba-jazz é, para o jornalista e pesquisador Ruy Castro, a “contribuição definitiva do Brasil ao repertório universal nos anos 60 e que nós próprios, como sempre, abandonamos”. Ainda bem que Adolfo se recusa a esquecer, esse esporte no qual fazemos inveja por aí.

Na sequência, a bossa nova “Claudia” pinta um retrato sonoro de Copacabana e seus encantos. O arranjo, jovial e relaxado, ganha as notas elétricas de Thom Rotella. Antonio Adolfo debutou no musical “Pobre Menina Rica”, nos anos 1960, com Vinicius de Moraes e Carlos Lyra. Era uma toada moderna, sem escândalo, sem adorno, mas inesquecível.

Antonio Adolfo revisa parceria luxuosa com Tibério Gaspar

Artista afirma que todas as parcerias com Tibério foram marcantes | Foto: Alexandre Moreira

Foi em 1963, 1964, por aí. “No Beco das Garrafas tocava Leny Andrade e Raul de Souza, que na época era o Raulzinho, e eu com Trio 3D, que era o trio que foi batizado inclusive pelo Carlinhos Lira durante a temporada no Teatro de Bolso, que foi um grande sucesso”, lembra Adolfo, por WhatsApp, referindo-se àquele momento da carreira como “muito marcante”.

“San Expedito” foi inspirada em “quase acidentes” automobilísticos. O pianista e sua família passavam próximos ao povoado de Santo Expedito, na Via Dutra, em direção ao Rio. A faixa seguinte, “Sambalaio”, traz um groove samba funkeado enquanto faz uma referência sutil à metáfora central do álbum: o balaio. Depois disso, o músico executa “Love Will Come”.

Escrita em 1980, a composição nasceu como mensagem de paz e esperança. É também uma celebração à produção musical independente. Adolfo tornou-se pioneiro nesse ofício com o LP “Feito em Casa”, de 1977, hoje relíquia entre os fãs. Saiu logo após “Tim Maia Racional”.

“Para você ter uma ideia, hoje 98% da produção fonográfica é autoproduzida, é produção independente”, revela o músico ao DM. “Então, ficou um momento muito marcante em que eu pude me liberar de não ter que fazer uma música num estilo ou noutro, entendeu?”.

Se “Love Will Come” possui arranjo ao estilo quadrilha junina, “My Chant” entoa a valsa jazzy. Foi a última canção de Adolfo e Tibério Gaspar, morto em fevereiro de 2017, aos 73 anos. Para o pianista carioca, todas as suas criações junto do parceiro foram marcantes, porque acabaram gravadas, tocaram no rádio e, principalmente, pararam em novelas.

Adolfo fala sobre parceria com Tibério Gaspar | Foto: Alexandre Moreira

Regravações

Outra parceria com Gaspar surge em “Balaios”. Lançada em 1968, a balada “Visão” exibe uma abundante trajetória de regravações, desde Taiguara a Agostinho dos Santos. O gaitista Toots Thielemans chegou a tocá-la com Elis Regina no LP “Aquarela do Brasil”, de 1969.

Há mais uma com Tibério Gaspar: “Journey To The Interior”. Adolfo conta que essa faixa foi finalista do II Festival Internacional da Canção, em 67. Segundo ele, é um baião e apresenta sequências harmônicas diferentes das tradicionais do estilo. Os solos, explica, incluem o de flauta, feito por Marcelo Martins, bem como o de trompete, pelo virtuoso Jessé Sadoc.

“Balaios” chega ao fim em “Zah Toom Toom”. O título, conforme Antonio Adolfo, traduz o som de baixo do samba-funk, estilo popular nas periferias do Rio e de São Paulo. Por cima da levada funkeada, explica o músico, rola samba que se encaixa e forma groove dançante.

Assim é a música de Adolfo: brasileira. Do grupo A Brazuca (inspirado no Brasil 66 de Sergio Mendes) ao autoexílio nos anos 1970 (encontrou-se, nos lindos campos da Europa, com os desterrados Gilberto Gil e Caetano Veloso), o pianista é autor do livro “Harmonia e Estilos para Teclado”, no qual apresenta teorias e exercícios para blues, rock, samba e jazz.

Sei o que faço aqui: aprecio os sons e improviso. É a água viva, a vida em fúria, as notas diante da plateia e do ouvinte, com acordes a me carregar e a me empurrar ao êxtase.


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