Feijoada, vinho e samba
Redação DM
Publicado em 22 de março de 2018 às 01:19 | Atualizado há 1 ano
Outro dia, numa feijoada bastante animada na casa de amigos no Rio de Janeiro, um convidado ficou surpreso ao ver o prato nacional brasileiro acompanhado de vinho francês. Num ímpeto patriótico, argumentou que o prato nada tinha a ver com a bebida de Baco, ele então se lançou em profundas dissertações sobre as origens do cozido brasileiro.
HISTÓRIA
A feijoada é o cartão-postal da culinária do Brasil. Esta receita tem suas origens na relação entre o senhor de engenho, muitas vezes um colonizador português, e os escravos africanos. Enquanto as melhores partes do porco iam para a casa grande, a senzala comia o que era desprezado (pé, orelha etc). Somou-se a isso o feijão preto de origem americana, e as influências de pratos portugueses da Estremadura, das Beiras e de Trás-os-Montes e Alto Douro, que misturam feijão (não o preto) à linguiças, orelha e pé de porco, além de outros pratos europeus como o cassoulet (França), o cozido madrileño (Espanha) e a “casserola” milanesa (Itália).
Hoje a nossa feijoada é um cozido de feijão preto e carnes (carne seca, lombo, costela, pé, orelha, rabo, paio, linguiça e língua de boi), temperado com pimenta vermelha, cebola, alho, azeite, louro e geralmente servida com arroz branco, fatias de laranja, couve, farofa e molho de pimenta.
Muita gente defende que a nossa feijoada somente possa ser servida com uma cerveja bem gelada ou a tradicional caipirinha. Essas harmonizações se sustentam mais pelo costume, do que pelo equilíbrio dos sabores. Quando eu falo que a feijoada não harmoniza com estas bebidas, as pessoas acham estranho e exagerado, mas este prato combina, sim, com vinho. O gás da cerveja torna a digestão do prato ainda mais difícil.
Para que o casamento seja perfeito, o vinho certo deve ser escolhido. A feijoada é um prato que oferece alto nível de sabor, aroma, sal, gordura e com um toque de amargor do feijão preto e picância da pimenta. Requer vinhos encorpados, com taninos, para aguentar o peso do prato.
SEMELHANÇA OU CONTRASTE
Quando se trata de harmonização, duas regras simples devem ser seguidas: ou se harmoniza por semelhança ou por contraste. O prato e vinho têm que estar no mesmo nível, ou seja, um prato delicado requer um vinho delicado. Um prato pesado requer um vinho encorpado.
O ideal é você separar os elementos principais do prato e tentar equilibrá-los com os do vinho. No caso da feijoada, temos dois elementos principais: a gordura e o sal, presente principalmente nas carnes defumadas. Também é interessante observar a textura. A feijoada é um prato viscoso, denso, que requer um vinho de textura similar.
O primeiro elemento a procurar no vinho, então, é o tanino. Para não ser esmagado pela feijoada, o vinho precisa da força e da estrutura dos taninos. Esqueça os vinhos brancos, espumantes e tintos leves, como os tintos da Bourgogne, da região do vale do Loire ou da região do Beujolais, por exemplo.
GORDURA
O outro elemento é a gordura. Ora, nesse caso, a associação deve ser por contraste. O vinho deve ter tensão, frescor, acidez elevada, para “quebrar” a gordura da feijoada. O cerco vai, então, se fechando. Eu afirmo que a feijoada pede vinhos rústicos e também com uma certa acidez. Um bom Malbec da Argentina ou um Cabernet Sauvignon chileno bem jovem seriam ideais para acompanhar.
Recentemente fiz um teste desses. Imaginem só a cena: uma goiana convidada para uma feijoada no Rio de Janeiro chega à casa do anfitrião trazendo… vinho! Passada a fase da desconfiança, depois de abrirmos a primeira garrafa, partimos para a mesa com um vinho chileno reserva Cabernet Sauvignon – já nas taças. Um vinho que acompanhou muito bem o prato, deixando a cervejinha esquecida na geladeira.
VINHOS
Era um sábado, dia nacional da feijoada. Felizmente, uma das mais gratas qualidades da nossa terra é a hospitalidade e, evidentemente, a comida. Fiquei muito feliz em ver o preparo cuidadoso de uma calorosa feijoada, com seus acompanhamentos tradicionais: couve refogada + molho apimentado + farofa + arroz + laranja. A corpulência da feijoada, com sua explosiva base proteica de feijão e carnes gordas, acrescida de temperos e aromas defumados, me provocou mais dúvidas do que certezas de ter um palpite assertivo.
E, finalmente, para combinar com as características físicas e organolépticas da feijoada, eu pensei em vinhos com estrutura suficiente para se sustentarem diante do prato e com boa acidez, para ajuste da gordura e limpeza das papilas gustativas. Para mim, o vinho que mais funcionou foi o Tannat Bouza 2012.
Procurei encontrar vinhos que tenham tanino e acidez. Na França, essas duas características estão presentes principalmente nos vinhos da região de Madiran, no sudoeste francês, ao sul de Bordeaux. São crus feitos com maioria da uva tannat, que tem acidez bastante elevada e taninos presentes. Não é à toa que nessa região o tradicional cassoulet, cozido feito com feijão branco e carne de porco, se harmoniza com os vinhos tintos do sudoeste.
Uma segunda opção, mais ousada, seriam os vinhos do norte do Rhône, feito com 100% da uva Syrah. São vinhos menos tânicos, mas que conservam frescor e acidez, com nuances de especiarias, que podem harmonizar bem com as notas defumadas e o lado “apimentado” do prato. Nesse caso, o ideal é privilegiar os produtores que trabalham de maneira mais tradicional, com menos extração e mais frescor.
O que é bom em nosso país, é que carregamos nos pés o frevo que de vez em quando samba. Na tela aquarela do Brasil tem carnaval, feijoada, que quase sempre é prévia. Sou a sommeliere que musicaliza a beleza da vida. Aqui tem feijoada, vinho, samba e amor no coração.
CAÇAROLA DA SEMANA
JACAREÍ PASTÉIS ESPECIAIS
Esta pastelaria fica numa pequena galeria no Setor Sul. Tem pastéis de vários sabores, inclusive os de sabores típicos do Cerrado como guariroba entre outros. Preços ótimos e pastéis sempre quentinhos. O meu preferido é de frango com creme de palmito e suco de abacaxi com hortelã. Vale dar uma espiada.
PASTELARIA DO MEU

Localizada no tradicional Mercado Popular da 74, a Pastelaria do Meu serve o melhor pastel de Goiânia, a preço bem acessível. O local me remete ao passado, antigo mercado do bairro popular, parece que a pastelaria ficou parada no tempo, e o sabor também. Preservou o verdadeiro pastel de mercado, com vários recheios maravilhosos e com muita fartura. Para quem é vegetariano tem muitas opções. Eu sempre que vou peço o pastel de guariroba e palmito, é muito bom. Não deixe de experimentar também o biscoito frito, que só de estar aqui escrevendo me deu água na boca, peça o delicioso café feito na hora para acompanhar.
EMPÓRIO DO PASTEL
Lugar interessante, uma música legal e atendentes atenciosos. A decepção ficou por conta do pastel mesmo. Recheio frio, muito frio mesmo, em alguns pontos estava gelado. Eles fizeram uma comparação em seu cardápio com os famosos pastéis de feira, que seriam superiores. Nem de perto! Resultado, 26 reais por um pastel frio que demorou 35 minutos contados no relógio. Definitivamente não recomendo a visita.
NOSSA PASTELARIA
O pastel é o que dá nome ao local, mas o disco de carne sempre vai me chamar atenção. O estacionamento realmente é um problema, mas vale dar uma parada, com a seta ligada, se você estiver com alguém de passageiro para poder pagar, comprar e levar o disco para comer em casa.
Obs.: Fazer o disco de carne em uma versão mais saudável, por exemplo, assado, seria provar o Paraíso Sem Culpa e mais vezes na semana!!
E mais: poderiam colocar um freezer com o disco de carne congelado para vender! É maravilhoso! Endereço: Avenida Vereador Germino Alves- Vila Nova.
CHICA DOIDA

O governador Marconi Perillo e o prefeito de Quirinópolis, Gilmar Alves, recebem convidados para o lançamento do 4º Festival Gastronômico Chica Doida na terça-feira, 27/3, às 17h, durante happy hour no Palácio das Esmeraldas. A Chica Doida, o prato mais famoso de Quirinópolis, uma delícia a base de milho verde, é a estrela principal do Festival Gastronômico que está sendo retomado pela prefeitura municipal da cidade, depois de cinco anos. O festival em sua 4ª edição vai acontecer nos dias 25, 26 e 27 de maio no Parque de Exposições de Quirinópolis com uma programação recheada de novidades.