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Filosofia, vinho e amigos

Redação DM

Publicado em 21 de junho de 2018 às 00:54 | Atualizado há 8 anos

Desembarquei domingo passado na residência de amigos queridos para al­moçar. Sabe aquelas surpresas inesperadas? Uma tarde cheia de delícias, conversa boa e inteligen­te. Foi servido o humus (pasta de grão de bico); falafel (bolinho de grão de bico); shawarma (mini sanduíche de carneiro com pão pita, vegetais e pastas); o mara­vilhoso suco de romã servido na entrada quando cheguei. Balcão repleto de queijos, pães e vinhos. Aliás, os pães de Israel são um es­petáculo à parte! Foram feitos pe­los anfitriões e assados na hora. Entre um prato e outro, filosofa­mos sobre a filosofia, além de fa­larmos sobre os nossos relaciona­mentos e experiências de hoje em dia, bem como a superficialidade das amizades contemporâneas, fundamentando nossa reflexão nas teorias do polonês Zygmunt Bauman. Criador do conceito de “modernidade líquida” Segundo ele: “Tudo é mais fácil na vida vir­tual, mas perdemos a arte das re­lações sociais e da amizade.”

Adorei a proposta de compar­tilhar experiências e vivências. O ambiente era lindo, numa resi­dência em frente para o lago e que deixou isso tudo muito propício. Um espaço gastronômico na cozi­nha bem elaborada dos anfitriões Claudio e Lu Maida, cinco pes­soas sentadas, diante de um belo balcão em volta do fogão. A pick­-up rolava música de um extremo bom gosto. Conheci gente nova, interagi com pessoas e visões de mundo diferentes da minha e saí de lá filosoficamente conectada com aquelas pessoas.

Um seleto grupo de amigos que expôs opiniões, falamos so­bre tudo e que ouve a todos. Tudo isso apreciando bons vinhos, al­guns levados por nós próprios, e uma boa gastronomia inspirada na comida de Israel. Falar sobre filosofia é fácil, embora comple­xo. Um universo a ser descoberto. Degustar vinho? Mais fácil ainda! É gostoso. Mas fazer tudo isso pela primeira vez com amigos e com a proibição de ligar o celular foi de­safiador. Porque dá um peso, uma responsabilidade.

Estava com grande expectati­va também para o que viria de­pois: uma degustação de vinhos de Israel. Conduzido pelo amigo Roberto, que nasceu no país Ju­deu. Vamos ao show: Petit Castel, uma tremenda indicação do meu amigo Alberto Costa que consegui comprar em São Paulo e levei para degustarmos. É feito por um visio­nário, Eli Banzaken, que mostrou ao país (e ao mundo) o potencial vinícola das colinas de Jerusalém. Uma bela dica!

Depois de muitas comilanças da gastronomia de Israel, voltei para casa com agenda recheada com uma dezena de rótulos bacanas. Melhor, devidamente degustados. Praticamente uma descoberta por várias horas de conversa e muitas risadas. Pesquisando sobre os vi­nhedos de Israel, fiquei surpresa em saber que o País, vem produ­zindo bons vinhos, afinal, tem ter­roir mediterrânico e lá pelos idos 1882 ninguém menos do que o ba­rão Edmond Rothschild (o do Châ­teau Lafite, localizou?) fundou a vi­nícola Carmel, firme e forte até hoje. E desmembrada em duas, com vi­nhedos em Haifa e nas proximida­des de Jerusalém.

Mas o setor deslanchou de fato não faz muito tempo. O sal­to de qualidade se deu na déca­da de 70, quando estudos mos­traram, por exemplo, o potencial para produção de vinhas na re­gião do Golã. Dez anos depois, lá estava a Heights Winery colocan­do no mercado a primeira leva de vinhos bacanas do país.

No domingo do jogo da nos­sa seleção brasileira, lá estava eu sem motivação nenhuma para as­sisti-lo. Ver o jogador Neymar, com aquele cabelo estilo miojo, não me seduziu em nada. O clima estava tão alegre e fraterno que o evento acendeu uma chama maior: rea­lizar outros encontros, do mesmo tipo, com diferentes temas.

O enredo da conversa foi: de onde surge o amor? O que trans­forma um sentimento de simpa­tia numa paixão avassaladora? O que acontece com quem é presa de tal fenômeno? E qual o papel do ciúme? Partindo de tais ques­tionamentos e de sua própria his­tória pessoal. Me lembrei do livro de Stendhal (1783-1842), Do Amor, que escreveu em 1820. Do amor, a um só tempo uma fisiologia da pai­xão e uma confissão íntima. Ai sur­giu a discussão sobre a definição de amor. O detalhe é que todos es­tavam ligeiramente embriagados, e falar de amor, é realmente hoje inusitado. Precisa se despir de suas emoções e ter coragem para que se amplifique em questões sobre as incertezas e vicissitudes tão hu­manas, a imaginação e a fragilida­de de nossas convicções.

Voltando para os vinhos de Is­rael, hoje, são 300 vinícolas ativas (muitas delas “butiques”), que se es­palham pelas colinas de Jerusalém, Golã, Judeia, Galiléa, Deserto de Ne­gev, de onde, aliás, sai outro vinho adorável, o Yatir, cujas vinhas de ca­bernet sauvignon, sauvignon blanc e viognier crescem em um sítio ar­queológico de 3 mil anos.

Minha primeira incursão foi o sauvignon blanc da Tishbi, produ­zidos em Monte Carmel, pioneira em produção moderna e egressa dos tempos do Barão de Rothschild. Hoje, a vinícola está nas mãos da quarta geração da familia Tishbi. Gostoso, fresco, foi o segundo vi­nho, admirando as luzes que esta­va iluminando o lago.

Só para fechar: Já reparou como nossos problemas parecem sumir quando temos boas companhias ao nosso lado? É um sentido de estar, de ser, de existir e resistir, enquanto não sei nada sobre minha existência vou aproveitando as boas compa­nhias, suportando as ruins e viven­do um dia após o outro, olhar para trás, só para lembrar do que valeu, e lembrar para onde não devo vol­tar. As pessoas boas nos inspiram, as pessoas positivas nos aliviam, as pessoas sábias nos direcionam. A vida é bem mais interessante quan­do gastamos o nosso tempo ao lado de pessoas inteligentes, educadas e que nos compreendem. As relações são melhores quando a conversa é instrutiva e há entendimento entre as ideias. Que venham mais encon­tros assim…e sempre regado de boa garrafa de vinho.

 

CAÇAROLAS E VINHOS

Israel é considerado por mui­tos o berço da produção de vi­nhos. No entanto, com a difusão do islamismo na região, e suas consequentes medidas restriti­vas, os vinhedos foram destruí­dos. Foi com a volta dos judeus à Terra Santa, no século XIX, que as vinhas voltaram a ser plantadas, mas a revolução qualitativa dos vinhos israelenses somente ocor­reu na década de 80, com o plan­tio de variedades nobres de uvas em locais mais frescos.

Hoje, apenas 15% da produção é voltada a vinhos feitos exclusiva­mente para cerimônias religiosas e os melhores produtores conseguem talhar vinhos de qualidade bastan­te elevada. Nas colinas da Judéia, re­gião que apresenta clima mediterrâ­neo mais ameno em consequência das colinas e solo com a presença de calcário, Domaine du Castel, o me­lhor produtor do país, dá origem a vinhos ricos e cheios de persona­lidade, com um acento regional e classe mundial.

A história da vinicultura parece estar intimamente ligada à região de Israel, onde estudos arqueoló­gicos encontraram utensílios anti­gos usados para fabricação de vi­nho, provando a existência de uma grande atividade vinícola no país séculos atrás.

 

A COLUNA PRAZERES À MESA INDICA DOIS VINHOS MARAVILHOSOS DE ISRAEL:

 

PETIT CASTEL 2009 – DOMAINE DU CASTEL

Elaborado nos moldes dos “deuxième vins” dos grandes châ­teaux de Bordeaux, o Petit Castel é “bastante estiloso” para Jamie Goode, e “impecavelmente equi­librado e cheio de sabor” nas pa­lavras de Robert Parker, que lhe concedeu 91 pontos na safra 2009 Este vinho recebeu 90 pontos pelo critico de vinhos Robert Parker .

C BLANC DU CASTEL 2010

O Blanc du Castel é um suntuoso Chardonnay, com notável finesse. Fermentado e maturado em barricas de carvalho, mereceu a excelen­te nota 1720 de Jancis Robin­son, que destacou seu bou­quet bastante impressionante e seu ótimo frescor.


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