Gabriel Nascente: “A poesia me sequestrou”
Redação
Publicado em 19 de abril de 2026 às 16:11 | Atualizado há 2 meses
Gabriel diz que a mente humana está intoxicada pela internet - Foto: Marcus Vinícius Beck
Marcus Vinícius Beck
“Os Gatos” foi o ponto de partida literário para Gabriel Nascente. Lançada há seis décadas, a obra inaugurou a odisseia do poeta-operário pelas estradas sinuosas das letras. Há quem, desde então, o veja como príncipe dos líricos. Erro evidente: trata-se de um artesão do verbo.
Gabriel é plebeu por índole e convicção. Por isso, canta alto as delícias do viver. Inebria-se de lucidez, chapa de razão. Não se cansa. Está em vias de embarcar para o Rio, onde vai lançar suas obras e autografá-las — sim, leitor, o homem anda bem de saúde e com energia.
Entre laudas e livros, o poeta passou uma manhã ensolarada com este repórter. Falou sobre sua fortuna literária. A modernidade o aterroriza. As parafernálias tecnológicas o assustam. Ele batuca suas sílabas assaz poéticas na insubstituível máquina de escrever. Dali sai tudo.
Para o artista, a mente humana está intoxicada pela poluição devastadora da internet. “E poesia não combina, isto é, não troca núpcias com a máquina, muito menos com o robô. Ou, mais ainda, sempre repudiarei essa paspalhice magnética da inteligência artificial”, afirma.
A poesia é a história de sua vida. Por ela, e para ela, Gabriel deu voz aos enigmas da emoção. Agarrado ao pescoço das palavras, ele viajou no tempo, com a mochila dos seus sonhos às costas. Foi camelô dos versos em São Paulo e Buenos Aires nos anos de fogo da ditadura.
Alguns, talvez por insensibilidade, o tomam por doido. Já se acostumou: “Sim, podes dizer, mas de amor à poesia.” Como disse o poeta e jornalista Reynaldo Jardim, editor-fundador deste DMRevista: “Gabriel Nascente é um poeta de verdade. Imanente ou transcendente.”

Pão do espírito
Filho de Tunico Marceneiro, o poeta do Bairro Popular anda feliz por completar sessenta anos de poesia. Apesar disso, acha que ela não lhe pertence, embora seja o pão de seu espírito. “E depois, não fui eu quem escolheu ser poeta. Foi a poesia que me sequestrou, a mando da inteligência do céu que andava desocupada, talvez sem ter o que fazer”, conta.
Desde seu primeiro livro, em 1966, visualiza-se nas palavras nascentianas ecos do bardo Arthur Rimbaud, o enfant terrible da poesia moderna. Já se disse ainda que sua lírica possui o destemor de Maiakovski. Gabriel é um homem-cão, sem a arrogância bacharelesca — não tem diploma. Mas possui um destino: o mundo. Passou por dias sangrentos, de mordaça.
Gabriel, nascido das carnes da palavra, sublinha: “Nunca tive gato.” Ele evoca uma “noite de ruidosa chuva, lá pelo ano de 1964, por aí”, quando então era um rapazola respirando os seus “tenros quatorze anos”. Morava num quartinho de aluguel, nos fundos de um barracão, na Rua 55, Bairro Popular. Em meio aos trovões e à chuva, uma gata pariu no telhado.
O poeta ficou com essa imagem na cabeça. Via manchas líquidas de sangue descerem pela parede. A lâmpada sacudia. Gabriel teve medo, ouvia miados. Mas esse estranho episódio lhe deu uma força inspiradora “terrível”. Apanhou um caderno de aritmética e uma caneta.
Ao estilo kafkiano, doido, começou a escrever. “Sem a menor noção daquilo que estava fazendo com as palavras, em transe de criação poética. Uma aventura psíquica estupenda. Eu suei. Foi diabólica. E o poema ‘Os Gatos’, que dá título ao livro, nasceu com 77 versos.”
‘Os Gatos’ foi ‘jorro brutal’ soprado do inconsciente

“Os Gatos” foi um “jorro brutal”, soprado pelo emotivo inconsciente nascentiano. “Um flamejar — digamos assim — de faíscas poéticas pedindo socorro à escrita, para sobreviver às hecatombes do efêmero”, reflete o poeta. “Se eu fizesse uma garimpagem daqueles versos, para eliminar alguns cascalhos de obscuridade (nociva à lucidez do texto), eu salvaria, com sete pés de orgulho de humildade, mais de oitenta por cento das poesias ali publicadas.”
Com uma imagem surpreendente, o livro começa: “Acordei/ com os olhos fadigados,/ vendo o reflexo do mundo/ no ventre da madrugada.” Ao fim, o arremate: “Minha divina face/ fora da talhada com suas/ desprezíveis unhas (…) meus cabelos secaram/ no sangue do parto.”
No “Jornal de Deboche”, o jornalista Helvécio Cardoso exaltou o acendedor de palavras que se expressa livre na forma e não está nem aí para o que os coleguinhas vão dizer. Este é o Gabriel selvagem, define Helvécio, arruaceiro das letras, baderneiro do parnaso, maloqueiro nos salões literários. “Que eu adoro, admiro e soterro de encômios”, disse o bravo repórter.
Quando estreou, Gabriel já fazia barulho. Por isso, intelectuais, professores e amigos — estes em sua maioria gente humilde do Bairro Popular — foram prestigiá-lo na noite de autógrafo. Aí já viu. O poeta contou mais de 100 dedicatórias escritas naquele 11 de janeiro de 1966.
Dado como precoce por “O Popular”, o lírico lembra-se de um vizinho que ficou empolgado ao encontrá-lo estampado na “Folha de Goyaz”. O homem, papel na mão, gritou: “Olhem aqui, gente, a poesia de Bié publicada neste jornal!”. Foi aquele fuzuê por todo o bairro.

Amigo de prosa
Gabriel Nascente tinha dezesseis anos. Na Escola Técnica Federal, onde estudava, ninguém o entendia. Então, mudaram-no para um consultório psiquiátrico, de forma que o tiro, segundo ele, errou o alvo. “Saí vitorioso da consulta, e até com ajuda financeira no bolso. O médico da psiquê Walter Messi, já falecido, tornou-se meu amigo de prosa”, recorda-se.
Agora, após seis décadas de “Os Gatos”, Gabriel dimensiona a força de sua poesia. “É, pois, o fluir inesgotável de uma paixão estética espiritual”, inquieta-se. Poeta em efervescência, vinte e quatro horas por dia, madruga o amanhecer. Escreve, dia a dia, com “descontrolada paixão de amor aos livros, com fidelidade e esmero, manuseando o aprendizado”.
Não pensem que se trata de poeta de uma faceta. Nem de longe se pode acorrentá-lo nos muros das definições. “Do ponto de vista estético — e longe de encomiar-me —, ‘Os Gatos’ foi-me-sendo-é o fruto da explosão da minha alma, de adolescente, órfão de pai à época.”
Artista do discurso — é um sofista —, lembra que o seu livro de estreia já possuiu edições “esparramadas por aí”, nas quais realizou alguns cortes. No entanto, logo se arrependeu. “Afinal, o cascalho sempre foi a crosta do diamante, não?”, assinala o imortal pela AGL.
A cada texto, Gabriel José Nascente — nome literário Gabriel Nascente — batuca de ouvido atento, depurando as palavras, decantando-as aqui e ali, alisando pronomes, adulando a métrica, compondo versos cerebrais, inusitados, metáforas que nos provocam e nos causam assombros. Suas imagens poéticas, por vezes, engalfinham-se contra as normas burguesas.

Cóleras do destino
Mas, ah, é esse poeta que sabe amansar as cóleras do destino com a feitiçaria de seus versos. Que dá o próximo passo empurrado pelo mistério da criação, tal e qual Van Gogh ao se atolar na luz de suas tintas ou Charles Baudelaire a uivar no auge do capitalismo. Ainda assim, pede desculpas pelas virtudes de seus erros. “Um brinde às almas do futuro”, saúda.
Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, em seu poema a Mário de Sá-Carneiro, dizia: “Ah, se ousares, ousa!” Seguindo-o, Gabriel não vacilou. Ousou. A poesia é elétrica, nos é vital, como se fosse a materialização de um deus, em escala do sobrenatural.
Ao olhar a imensidão do ontem, o poeta sabe que a emoção transcende as fronteiras do efêmero. “A arte é maior que a vida. Deveria ser o contrário, mas o homem morre. E não há como escrever poemas com a farinha de seus ossos, pois a morte trava o sonho. Então, entornemos o cálice sessetenário deste licor de versos”, felicita. E você aí, leitor, aceita?