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Giovana Madalosso expõe as fraturas do Brasil em romance aclamado

Redação Online

Publicado em 18 de setembro de 2026 às 20:56 | Atualizado há 2 horas

Escritora curitibana ultrapassa as fronteiras do Brasil com sua ficção | Foto: Nuno Papp
Escritora curitibana ultrapassa as fronteiras do Brasil com sua ficção | Foto: Nuno Papp

Marcus Vinícius Beck

“Boa música”, eu disse. O motorista do app subiu o som e comentou que, naquele horário, só rolava Beatles naquela rádio. Coisas tipo “Let It Be” — que, aliás, me fez pensar no livro “Abacaxi”, do escritor Reinaldo Moraes: há uma música deles pra cada momento da vida.

Escutei a balada. When I find myself in times of trouble. O pensamento mudou o percurso reflexivo e sobreveio o lampejo. Piano lindo. Quando regressei à realidade, três ou quatro minutos depois, a memória reviveu a crônica “Sete Vezes Let It Be”, da escritora Giovana Madalosso. “Teacher McCartney me chamando para repetir com ele as orações”, escreve.

Jornalista pela UFPR, a bem-humorada Madalosso cresceu numa comunidade tradicional e conservadora de italianos. A curitibana estreou com a coletânea de contos “A Teta Racional”, de 2016. No mesmo ano, ela publicou o romance “Tudo Pode Ser Roubado”, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Sua última obra, “Batida Só”, saiu em 2025. Só livro bom.

Eu segurava o romance “Suíte Tóquio”, que adquirira em uma livraria na Avenida Goiás. A obra, segundo a editora Todavia, colocou pra girar a vida de duas mulheres que parecem em busca de ternura, redenção e sexo — ou qualquer coisa que possa tirá-las de onde estão. O livro foi incluído na lista dos 100 melhores títulos de 2025 pelo jornal The New York Times.

Na publicação estadunidense, a crítica Alexandra Jacobs diz que “Suíte Tóquio” retratou as divisões de classe na sociedade brasileira. Apresentemos as coisas dessa forma: a mãe, uma executiva de televisão, trabalha tanto que não consegue sequer observar a própria filha, aos cuidados da babá — incapaz, pela cansativa e interminável rotina laboral, de engravidar.

Giovana Madalosso: escritora curitibana se destaca na literatura brasileira | Foto: Renato Parada

Dissequemos

O filósofo Byung-Chul Han, autor de “Sociedade do Cansaço”, ajuda-nos a dissecar a trama. Para o sul-coreano, o intenso trabalho na pós-modernidade gerou depressivos e angustiados. Chul Han vê o excesso de desempenho agudizando-se numa autoexploração, mais eficiente, ele reflete, porque se manifesta justamente de “mãos dadas com o sentimento de liberdade”.

Olhei pra quarta capa. A babá, a julgar pelo romance, planejou cada passo do sequestro: a rota, a autorização de viagem, os suprimentos. Ao imaginá-la saindo com a menina Cora, o leitor desconfia de que estão em vias de desaparecer. Já pai e mãe vivem a crise conjugal, na qual o amor balança. Relação bonita e difícil, essa. Unem-se pra achar a filha desaparecida.

Mordo os lábios. Não resisto e folheio a obra, concentrando-me na epígrafe: “Todo amor é um sacrifício.” A frase é da pena do escritor holandês Arnon Grunberg, autor de contos, ensaios, peças teatrais, roteiros e artigos. Foi elogiado quando lançara o romance “Tirza”.

Conforme lemos, Maju está raptando a criança. Procura afastar esse pensamento, mas é acometida por ele enquanto desce pelo elevador: “São coisas que fazemos todos os dias, descer, cumprimentar o Chico, sair pelo portão, andar pisando só nas pedras pretas ou brancas da calçada, mas hoje é diferente mesmo que eu não esteja fazendo nada diferente.”

Reconhecimento: autora se tornou voz obrigatória no romance urbano contemporâneo | Foto: Renato Parada

No romance, Madalosso narra conflitos e desejos familiares

A babá acredita que o exército branco a encarava: “Foi coisa da dona Fernanda, inventar esse nome, exército branco. E até que ela está certa, somos mesmo um exército, ainda mais a essa hora da manhã, quando todas vêm pra praça com seus uniformes brancos carregando bebês ou crianças, e então batem papo empurrando carrinhos e balanços com bebês ou crianças.”

Ao chegar à Rua 74, no Centro, o carro freia. Sinal fechado. O celular vibra no bolso, mas o ignoro. Elton John, com o seu piano lírico, entoa “Skyline Pigeon”. “Turn me loose from your hands. Let me fly to distant lands”, canta o músico, entrelaçando acordes e versos.

O carro arranca, virando pra direita e pegando a Rua 72. Seguimos em direção ao Parque Mutirama, enquanto o artista inglês vocaliza metáforas aviárias pra tratar de liberdade.

Abaixo a cabeça e volto à “Suíte Tóquio”. Fernanda fala no romance. De classe média, ela descreve a crise em seu casamento com Cacá. Mais adiante, sufocada e entediada, sente-se atraída por Yara, cineasta, sexualmente livre e de ideias alternativas. Tomam ayahuasca e a executiva alcança a dimensão da subjetividade, pensando em si própria e também na filha.

Tem uma tensão orgástica entre as duas. A toda-poderosa da TV, leio, coloca-se de pé. Então Yara beija-a, depois caminha pelo pescoço, em um desejo que transborda. Línguas roçando. Paraísos orais. Repetem o ato após a experiência psicodélico-religiosa de Fernanda. Detalhe: era iniciante nisso. Giovana Madalosso é, por isso, o que há de melhor em nossa literatura.

Narradoras

Com 205 páginas, “Suíte Tóquio” possui dois tempos narrativos: o presente quando a voz é Maju, essa mulher do interior paranaense, trabalhadora e sem conseguir dedicar-se a Lauro, de quem, aliás, foi namorada. Já Fernanda, a mãe que não nasceu para ser mãe, como ela nos diz, fica no âmbito da memória: evoca o caso extraconjugal, o amor tórrido no capitalismo.

Como constatou a crítica Helen Beltrame-Linné, Maju — ao contrário da mãe-executiva — optou pela menina Cora. “Quando é capaz de diferenciar o choro de birra da criança do choro de verdade, fica claro que o espaço materno rejeitado por Fernanda foi preenchido por ela”, disse, em 2020, na “Quatro Cinco Um”. “É uma lagarta que quer virar borboleta-mãe.”

O motorista estaciona ao lado da portaria. E eu, em minha leitura incerta, cheguei ao trecho no qual Fernanda informa a respeito da Suíte Tóquio, nome “chique” que escolheu para o “casulo” onde mora a babá. É um livro cujo mérito é narrar essa falha social típica do Brasil, mas que, por isso, nos leva a pensar. Leia este e todos os outros de Giovana Madalosso.

SUÍTE TÓQUIO

Autora: Giovana Madalosso

Gênero: Romance

Editora: Todavia

Páginas: 205

Preço: R$ 89,00


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