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Guardiã da cultura popular

Redação DM

Publicado em 19 de março de 2018 às 22:41 | Atualizado há 1 ano

Fogaréu, Cavalhadas, Folia de Reis. Sem dúvidas, é a cultu­ra popular a maior inspiração da artista plástica mineira, que está há 40 anos em Goiás, Helena Vas­concelos. Para ela, o patrimônio imaterial é mais que um tema, é a sua causa. Por isso, na exposição “Minha História”, que será aberta hoje, às 20 horas, no Teatro Sesi, ela reforça este elo com as tradi­ções, com a simplicidade colorida de seu naif, estilo de arte conside­rado ingênuo, com o qual tem ga­nhado salões de arte Brasil afora. Este ano, por exemplo, vai partici­par de exposições na Paraíba, Es­pírito Santo e em Brasília.

“Minha História” fica em cartaz no espaço durante um mês com 20 telas, a maioria inédita e produzida recentemente. Nessas obras mais novas, Helena mantém a caracte­rística de pintar tramas, em que os desenhos aparecem fragmen­tados, como em um colcha de re­talhos. E aparece costurado, ainda com mais ênfase, os folguedos, fes­tas populares, religiosas e folclóri­cas, bem como os hábitos e costu­mes desta terra.

Na mais recente compilação, como novidade, a artista apre­senta pela primeira vez traba­lhos inspirados na Contradança, festa realizada no interior goia­no, e com mais ênfase em Santa Cruz de Goiás. Sua série novíssi­ma “Natividades” também será exposta pela primeira vez.

Porém, não é apenas na arte que Helena se aproxima da cultu­ra popular. Estes festejos sempre andaram ao lado da vida da artis­ta e, consequentemente, migraram para sua pintura. Quando chegou em Goiás, em 1976, logo notou que estava em casa, já que achou as tra­dições daqui muito parecidas com a de sua terra natal, Uberaba (MG).

“Olha, sempre valorizei nos­sas raízes e preocupava-me mui­to, quando professora, com o desconhecimento dos alunos das nossas festas e tradições. Formada em História, me senti na obrigação de difundir a Arte Popular Brasileira, através de pesquisas para que essas raízes ficassem firmes”, conta a artista.

Sendo assim, quando começou a pintar, na década de 1990, não de­morou a perceber que já possuía no sangue um dos temas mais co­loridos e diversos que poderia ter: a cultura popular, claro. Em 2004 ela já havia escolhido o mote, que foi incentivado pelo artista M.Caval­canti. “Com um grupo de amigas fazíamos oficina e fomos partici­par do IV Concurso Arte Criativi­dade do Sesi-GO”, recorda a artista.

Foi aí que a arte conquistou mais espaço em sua vida. Pois o talento foi incentivado após duas de suas obras saírem premiadas, “Fogaréu” e “O Chafariz de Cau­da”. “A obra sobre o chafariz da ci­dade de Goiás, que hoje chama Chafariz da Boa Morte, foi selecio­nada como o melhor conjunto de obra no IV Sesi Criatividade. Foi um momento muito importante, pois ali senti abrirem portas novas para meu trabalho”, recorda.

EM ATIVIDADE

Depois disso, Helena Vasconce­los realmente decolou. Hoje é um dos nomes atuantes da arte goiana. É membro da Associação Goiana dos Artistas Visuais (Agav), e cola­bora com o projeto de humaniza­ção hospitalar, que leva exposições e oficinas ao Hospital Alberto Ras­si (HGG). “Este projeto, supervisio­nado e mantido pelo Idtech, é uma verdadeira catarse para artistas e pacientes. Agora, dia 9 de abril, vou ministrar uma oficina para pacien­tes com a Parkinson”, diz animada.

Em sua arte tenta alavancar tan­to a cultura popular como o naif – também conhecido como arte pri­mitiva –, uma vertente artística, que para Helena conta com poucas ini­ciativas. Por isso, ano passado aju­dou a tornar real a 1ª Exposição Naif no Centro-Oeste (Enanco).

Já este ano promete levar além do naif a força das tradições popu­lares locais para outras localida­des do Brasil. Juntamente com os artistas goianos Salves e Lina Cru­vinel, foi selecionada para parti­cipar da Bienal das Artes do Sesc Brasília, que vai acontecer em ju­lho deste ano.

“Foi uma surpresa muito gran­de. Fiquei muito feliz, pois trata-se de um importantíssimo salão de artes. Nunca imaginei… Fiz a ins­crição na última hora e foram 900 inscritos em vários seguimentos”, celebra a artista, que em 2018 ex­põe ainda em Vitória (ES) e Guara­bira (PB), onde participa em maio do Fian – Festival Internacional de Arte Naif. “Estou muito contente pela arte naif estar ganhando no­vos espaços”, completa.

TRADIÇÃO MAIS INCLUSIVA

Agora, se a cultura popular dentro de sua arte é mais que um tema, e sim uma luta, podemos dizer que está quase ganha. Após mais de 15 anos difundindo fes­tejos regionais, a artista já avista um cenário mais fértil e inclusivo em meio às tradições.

Ela nota, por exemplo, uma preocupação crescente dos pro­fessores em levar o patrimônio imaterial de Goiás às novas ge­rações. “Sou sempre chamada às escolas para ministrar oficinas e falar sobre nossas tradições”, diz Helena, que também conta estar percebendo maior participação das mulheres e das crianças em festas que antes só homens adul­tos participavam.

“Veja você, o Catira era dançado só por homens, hoje temos grupos femininos. Nos Ternos de Congo encontramos terno só de mulhe­res, como As Mariarte em Catalão, que é belíssimo…. Na Folia de Reis, as mulheres deixaram de ser só co­zinheiras e também saem nos giro de folia, recebem a bandeira e gi­ram com ela ao lado do Imperador. Então, vejo a continuidade e sinto que precisamos divulgar sempre”, convoca a pintora.

 

EXPOSIÇÃO: MINHA HISTÓRIA – HELENA VASCONCELOS

Dia: Hoje, às 20 horas

Onde: Teatro Sesi (Av. João Leite nº 1.013, Setor Santa Genoveva)

Informações: (62) 3269-0800

Ingressos: Doação de 2 kg de alimentos ou um livro literário

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