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Jorge Ben Jor domina blocos de carnaval, indica pesquisa do Ecad

Redação Online

Publicado em 12 de fevereiro de 2026 às 21:27 | Atualizado há 5 meses

Artista criou trilha sonora do orgulho nacional
Artista criou trilha sonora do orgulho nacional

Marcus Vinícius Beck

Alquimista do suingue, o soul-sambista carioca Jorge Ben Jor, 86, domina, pelo país afora, blocos carnavalescos com seu balanço sensual. Ao menos é o que aponta lista divulgada na última semana em pesquisa do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).

No Rio de Janeiro, o sambalanço “País Tropical” impulsiona a anarquia consentida que se instaura nos bairros durante o reinado de Momo. O eu lírico, entre um fusca e o violão, celebra a folia, o futebol e o Rio. “Sou um menino de mentalidade mediana”, entoa o rapaz.

A 435 km dali, via Dutra adentro, os farristas dançam, tê-tetere-tê, ao som do samba-funk “Taj Mahal”. “Foi uma linda história de amor que me contaram e agora vou contar”, recita, em uma ode ao desejo. “Do amor do príncipe Xá-Jehan pela princesa Mumtaz Mahal.”

Segundo o Ecad, as duas canções se revelam entre as dez mais executadas no carnaval. Os cariocas, talvez pela adoração ao Cristo Redentor e ao Flamengo, preferem a faixa do elepê “Jorge Ben”. Já os paulistas regressam à ancestralidade heavy-funk-soul de “África Brasil”.

Poxa, Jorge, e como ficou aquele teu amor? “Eu chorei quando acabou o carnaval, chorei”, lembra. “Pois eu sou sentimental. Amor de carnaval é fantasia. E dura pouco, só dois dias.”

Findado o lado A, “O O Bidu: Silêncio no Brooklin”, de 1967, sai do toca-discos. A agulha repousa em “Samba Esquema Novo”, lançado quatro anos antes. Então Jorge Ben solta o ritmo, dedilhando uma batida torta e harmonias de uma bossa com a levada do rock’n’roll.

Era como se, nessa união estável, João Gilberto queimasse um fumo com Chuck Berry. Ou Little Richard abraçasse Tom Jobim numa madrugada biriteira. A vocalização ressoa tímida, de timbre aveludado e doce, por vezes quase falada, algo que repeliu puristas logo de cara.

Perdoai-os, Jorge, eles não sabiam o que lhe diziam. A despeito do equívoco de que se vira alvo, o artista surgiu originalíssimo em 1963, embora ainda casmurro misturador de bossa nova, samba tradicional e jazz, um amálgama que redundaria em disco e movimento.

Não porque a bossa nova ainda mandava na parada nem porque o samba esquema novo ali proposto tivesse um músico apenas. Mas pelo fato de que, entre “Balança Pema” e “Chove Chuva”, estabeleciam-se as marcas do “Tim Dom Dom”. “E o violão faz tim-dom”, canta.

Mais que nada, Jorge Ben estava afinado, prestes a sentar praça na cavalaria. “Esse samba que é misto de maracatu, é samba de preto velho, samba de pretutu”, entona, antecipando o que viria. “Um samba como esse tão legal, você não vai querer que eu chegue no final?”

Ainda que seguisse para sempre como solitário homem-movimento — para usar expressão do crítico Pedro Alexandre Sanches —, tudo se transformaria em 1967. Foi quando enfureceu a ala militante da MPB por apreciar o iê-iê-iê e miscigenar samba e música afro-americana.

Bamba moderno desembrulhou discos antológicos

Jorge Ben Jor levou balanço brasileiro à guitarra em disco ao vivo

Agora regressa à vitrola “Silêncio no Brooklin”. Na crepitação, Jorge Ben explica “A Jovem Samba”, como que em um diálogo entre o samba esquema novo e os irmãos-camaradas Roberto & Erasmo Carlos. “Eu sou da jovem samba”, anuncia, ladeado pelo The Fevers.

Naqueles dias, o bamba moderno assumiu-se como o músico mais popular, sem esquecer, no entanto, da dupla Roberto & Erasmo e do pilantra-mor Wilson Simonal. Contudo, um episódio político-policial fez Simonal cair em derrocada. Sua pilantragem ficou, porém.

Na virada dos anos 1960 para os 70, Jorge Ben decantou o avanço sonoro produzido pelo parceiro. Reapareceu, de supetão, mais experimental do que nunca. Com o Trio Mocotó, trancou-se em estúdio e, ali, concebeu “Jorge Ben”, de 1969, um de seus melhores discos.

A seção orquestral, show à parte, foi comandada pelo maestro tropicalista Rogério Duprat. Contam-se, ao menos, quatro obras-primas do cancioneiro nacional no repertório: “Take It Easy My Brother Charles”, “Bebete Vãobora”, “Cadê Tereza” e “País Tropical”. 

Entre 1970 e 1971, ele evidenciaria sua “Força Bruta” e, além de tudo, decretaria que o “Negro É Lindo” — versão sutil para o lema “black is beautiful”. Nas palavras de Caetano Veloso, o sambista brasinha inventou um som de identidade forte, inconfundível e gostoso.

Culto e popular, desembrulha uma sequência antológica de discos, todos aptos a estar na cabeceira dos ouvintes: “Ben”, de 1972; “A Tábua de Esmeralda”, de 1974; “Ogum Xangô” (registro de um cavaleiro imaculado improvisando ao lado de Gil); “Solta o Pavão”, de 1975.

Eis que roda no toca-discos o samba-funk de “África Brasil”, de 1976. Tem uma guitarra, riff saltitante, de repente se ouve uma cuíca, uma conga cubana e os metais estilo James Brown. Jorge eletrifica sua arte, plugando-a em “Ponta de Lança Africano” e “Xica da Silva”.

Mesmo que tenha revolucionado a música tantas vezes, Jorge Ben nunca deixou de olhar para o futuro. “Sou um cara para a frente, não gosto de voltar ao passado. Modéstia à parte, tenho coisas novas para mostrar”, disse ao lançar o “Acústico MTV”, em 2002. Salve, Jorge!

Foto de destaque: Jorge Ben Jor/ Instagram


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