Livro mostra vinho como divã e personagem além da referência gastronômica
Redação Online
Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 20:39 | Atualizado há 4 meses
Para jornalista, vinho não é apenas gastronomia
Marcus Vinícius Beck
A jornalista e poeta Edna Gomes lança o livro “O Vinho e Eu”, em que transforma o néctar do tempo num espelho da alma. Com sua prosa poética dionisíaca, Edna tece uma narrativa íntima, sofisticada e sensível. A autora escreve diferente de tudo o que se espera.
Para ela, o vinho não é apenas referência gastronômica. É um personagem, confidente, divã, uma presença que dialoga consigo e dialogará com o leitor ao longo de 122 páginas. “Rubo e silencioso, o vinho me encara do fundo da taça. Sei que espera iniciar minha fala”, sublinha.
Não há maneirismos. Como o flâneur Charles Baudelaire (1821-1867), Edna decanta o tempo, a maturidade, o medo, o amor, a solidão, as perdas, os recomeços e a coragem. Tudo isso matura-se na primeira pessoa do singular, com sensibilidade, criticidade e lirismo.
No texto “Dionísio e o Néctar do Tempo”, assinala que o líquido a escorrer da taça carrega a embriaguez sagrada dos deuses, bem como a dos mortais. No primeiro gole, um sussurro e, a partir do segundo, o riso fácil. O terceiro trago, explica, favorece o esquecimento das dores.
“Dionísio não julga nem impõe limites, entrega o vinho e observa o que fazem dele. Para alguns, Dionísio é o deus da libertação; outros têm certeza da sua perdição”, filosofa. “O tempo e o vinho compartilham o segredo de que ambos exigem beber da paciência.”

Profundos prazeres do vinho, quem não os conhece? Para Baudelaire, quem quer que tenha tido um remorso a aplacar, uma lembrança a evocar, uma dor a esquecer, um castelo a construir, “todos enfim já o invocaram, deus misterioso escondido nas fibras da vidreira”.
Tal qual o amor, as descobertas e os encontros, o vinho depura no seu ritmo. Edna salienta: “Aquilo que se apressa perde a beleza da espera. O que se retém demais azeda.” Ensina ainda que o néctar de Dionísio apreciado apartado da entrega esconde seu verdadeiro sabor.
Os capítulos acolhem, provocam, emocionam. É como se a autora convocasse o leitor a derramar-se na taça da vida, para citar um verso do poema “O Vinho e a Alma”. O silêncio lhe fala, o vento nos embala, o vinho me escuta — e “dançamos a melodia da existência”.
Colunista de gastronomia e bebidas neste DM, Edna narra vivências reais. Ao dispensar uma abordagem técnica ou histórica, no entanto, ela flana em calçada esquecida: o vinho como símbolo da transformação. Amadurece. Resiste ao tempo. Degusta o equilíbrio.
O vinho balbucia — balbucia com sua alma, com esta voz dos espíritos: “Quero levar até você um canto fraterno, cheio de alegria, de luz e esperança.” É quando conhecemos as imperfeições, as dores, as quedas, os renascimentos, algo descrito em “O Vinho e Eu”.
Autora afirma que vinho tem linguagem própria

“Simples assim, e não há meio-termo para a sensibilidade da alma”, anota Edna, em “Toca ou Não Toca”. “Existem os que nos atravessam como tempestade, deixando marcas que nunca se apagam. A inigualável Clarice Lispector disse que ‘ou a pessoa toca, ou não toca’.”
Segundo Edna, “O Vinho e Eu” nasce de uma percepção subjetiva: a bebida de Dionísio possui linguagem própria e, portanto, conversa com quem sabe ouvir. Seus aromas, cores, camadas e silêncio carregam parábolas da existência. Assim, perpetuam-se na memória.
A partir desses “diálogos”, a jornalista e poeta guia o leitor por temas universais. Alterna leveza e densidade, ainda que o humor sagaz, a ironia fina, a beleza literária e a estética das palavras dominem o livro. A escritora vê o mundo de frente, sem temê-lo nem remediá-lo.
Na crônica “A Urgência da Saudade”, Edna explica que a lembrança é como o vinho forte. “Chega sem pressa, invade sem avisar.” De início, conta, desliza suave, como “uma doce lembrança”. Então “cresce, aquece, aperta o peito”. A saudade nos faz flutuar até o infinito.
É necessário atinar-se, porém. Em “Vinhos e Pessoas Estragam”, Edna diz que nem todos envelhecem bem. “Ao desrolhar a garrafa de vinho e perceber que está oxidado, carrega gosto de vinagre; somente um único conselho: não beba”, aconselha a sommelière.
Ao retratar a pós-modernidade, a autora observa as relações humanas, o impacto das redes sociais, a diferença entre aparência e essência, temas desafiadores. “Nenhuma safra, por mais premiada, um dia, sobrevive ao tempo se não for bem armazenada”, vaticina.
Com capa assinada pelo artista plástico Erasmo Gama, “O Vinho e Eu” é um convite ao sentir, enxergar a vida com generosidade e brindar o agora. “Ele, [o livro], nasceu porque a vida, com toda a crueza e beleza, merece ser sentida na totalidade.” Assim como o vinho.
Fotos: Divulgação