Desativada 2

Lô Borges emocionou gerações com melodias e harmonias da janela do quarto de dormir

Redação

Publicado em 3 de novembro de 2025 às 19:21 | Atualizado há 7 meses

Lô Borges, cantor e compositor: artista transformou MPB - Foto: Bárbara Dutra
Lô Borges, cantor e compositor: artista transformou MPB - Foto: Bárbara Dutra

Marcus Vinícius Beck

Menino prodígio, o cantor e compositor Lô Borges, morto às 20h50 do último domingo, 2, em Belo Horizonte (MG), aos 73 anos, emocionou gerações com suas melodias e harmonias. Olhava o mundo da janela do quarto de dormir. Via uma igreja, um sinal de glória.

Lô estava internado em um hospital da capital mineira. No dia 17 de outubro, deu entrada na rede Unimed para tratar uma intoxicação medicamentosa. Chegou a ser intubado e, em seguida, foi submetido a uma traqueostomia. Morreu após falência múltipla dos órgãos.

Sexto de onze irmãos da família Borges, Lô apaixonou-se pela sofisticação harmônica dos Beatles. Não satisfeito, trouxe-a ao contexto musical mineiro e, precoce, montou os primeiros acordes no violão assim que ouvira a síncope bossanovista de um tal João Gilberto.

Aos dez anos, conheceu Beto Guedes no centro de BH. Beto vinha descendo a rua em cima de uma patinete branca, adesivada, estilosa, construída na oficina em que seu pai trabalhava. Impressionado, sensibilizado, Lô o parou e, então, começaram a papear ali mesmo.

Lô Borges dizia que música o fez se aproximar do cantor Milton Nascimento – Foto: Lô Borges/ Acervo Pessoal/ Facebook

De repente, eram amigos. “O destino colocou a gente frente a frente, através da patinete por que me interessei; e conversa vai, conversa vem, falei com ele que na minha casa as pessoas trabalhavam com música, gostavam de música, se ouvia muita música”, lembrava Lô.

Com Yé Borges, Márcio Aquino e Beto Guedes, Lô montou o grupo The Beavers para recriar clássicos de John Lennon e Paul McCartney, referenciados em “Para Lennon e McCartney”, de Fernando Brant, Lô e Márcio Borges. “Sou do mundo, sou Minas Gerais”, diz a letra.

Gravada no disco de 1970, a música tornou-se popular na voz de Milton Nascimento. “O Bituca foi uma coisa muito incrível”, afirmava Lô, cuja mãe lhe pediu para comprar leite. Como qualquer criança de dez anos, dispensava o elevador. Preferia descer pelo corrimão.

“Ia descendo de curtição, só que nesse dia que ela me pediu pra comprar leite, eu estava descendo e comecei a escutar um som de violão na escadaria do prédio”, recordava-se Lô Borges, que tirava onda e, ao mesmo tempo, ouvia a música crescendo lá embaixo. 

A melodia foi ficando cada vez mais envolvente. Quando chegou ao quarto andar, viu que não era imaginação — era Milton tocando violão e fazendo seus falsetes cristalinos. “Eu costumo dizer com o próprio Bituca que quem nos apresentou foi a música”, declarava Lô.

Clube da Esquina se junta ao ex-presidente Juscelino Kubitschek em Diamantina (MG) – Juvenal Pereira/Arquivo pessoal

Sabendo-se diante de um talento musical, Milton convenceu a matriarca dos Borges a deixar que o filho adolescente se mudasse para o Rio de Janeiro. Jovem, com menos de 20 anos, participou de oito das vinte e uma faixas gravadas no LP “Clube da Esquina”, de 1972.

No disco, quatro canções eternizaram-se: “Tudo que Você Podia Ser” (Márcio Borges e Lô Borges), “O Trem Azul” (Lô Borges e Ronaldo Bastos), “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo” (Márcio Borges e Lô Borges) e “Paisagem na Janela” (Lô Borges e Fernando Brant).

Além do amor por Beatles e João Gilberto, descortina-se nessas canções o apreço à nouvelle vague — sobretudo ao cinema-poesia de François Truffaut. O diretor francês criou uma filmografia estruturada em liberdade, amor e sonhos. Ninguém é insensível a Truffaut.

Como o cineasta, Lô Borges encontrava beleza nos mesmos assuntos. Clube da Esquina, bem-recebido entre críticos e público, o fez gravar o “disco do tênis”, cuja capa, fotografada por Cafi, trazia o surrado par de Adidas do artista. Em termos sonoros, era uma alquimia.

“Não tinha nenhum ‘Trem Azul’. Tinha música de 30 segundos, outras de 5 minutos. Fazia o que vinha na cabeça. E o que vinha era muita loucura. Fazia a melodia pela manhã, à tarde o Marcinho colocava a letra e à noite eu gravava”, afirmou o músico, em 2021, ao Estadão.

Ali, havia uma fina mistura de pop, música popular brasileira, rock e jazz, mas sentia-se uma porção saborosa de psicodelia — eram tempos do sonho hippie, da lisergia e do baseado. Lô, no entanto, ressurgiria apenas em 1978, no disco “Clube da Esquina 2”.

Dessa vez, não seria coprotagonista, como fora em 1972. Ainda assim, assinou com o irmão Márcio Borges a canção “Ruas da Cidade”: “A cidade plantou no coração / Tantos nomes de quem morreu.” Lô, sem ceder a pressões industriais, respeitava seu ritmo criativo.

Em 1979, inventou sua “A Via Láctea”, compondo com Beto Guedes e Márcio Borges, caso de “Equatorial”, e com Telo Borges, na faixa “Vento de Maio”. Nos anos 1980, maturando canções e ideias, seguiram-se dois discos: “Nuvem Cigana” (1982) e “Sonho Real” (1984).

Lô publicou na década seguinte apenas um álbum, “Meu Filme” (1996), embora Tom Jobim tenha regravado “Trem Azul” (1994), em versão com letra em inglês que emocionou o mineiro. A partir de 2019, revelou-se um artista de alta produtividade: sete álbuns em sete anos.

“Céu de Giz”, seu último disco, saiu em agosto deste ano. O parceiro letrista é Zeca Baleiro, que se disse em “êxtase” quando Lô o convidou para fazerem um álbum. Em 2022, o cantor e compositor revisitou sua obra em concerto com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.

“Desde o chamado do Bituca para gravar o ‘Clube da Esquina’, esse é o convite que mais me emocionou. Nunca toquei com tantos músicos, os arranjos são maduros e com profundo conhecimento da minha obra”, declarou Lô, na ocasião, ao jornal O Estado de Minas.

Salomão Borges Filho será velado nesta terça-feira, 4, no Palácio das Artes, em BH. Como diz Milton Nascimento em sua página no Instagram, Lô deixa um vazio e uma saudade enormes. “O Brasil perde um de seus artistas mais geniais, inventivos e únicos”, escreve Bituca.


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