Desativada 2

Marília Mendonça reaparece em single de sotaque pop

Redação Online

Publicado em 26 de outubro de 2025 às 18:41 | Atualizado há 9 meses

Velha e boa sofrência: Marília Dias Mendonça canta sobre amor por homem que deseja outra mulher - Foto: @mariliamendoncacantora/ Instagram
Velha e boa sofrência: Marília Dias Mendonça canta sobre amor por homem que deseja outra mulher - Foto: @mariliamendoncacantora/ Instagram

Marcus Vinícius Beck

Diva da sofrência, a cantora Marília Mendonça reaparece nas plataformas digitais com “Segundo Amor da Sua Vida”. A música marca o início do projeto “Manuscritos da Rainha”, que deve lançar, durante os próximos meses, composições inéditas deixadas pela cantora.

A equipe da goiana diz que a gravação preserva aquele vozeirão encorpado e pungente, sem interferência de inteligência artificial. Além disso, o arranjo distancia Marília da sonoridade sertaneja, aproximando-a do pop — tanto que, notemos, há ali um solo de guitarra meloso.

Como um chiclete dançando na boca, o refrão gruda nos ouvidos: é difícil esquecê-lo. O sujeito poético vocaliza o desamor, esse cão dos diabos, de modo a lamuriar-se. “Que azar o meu e que sorte a dela / Eu amando você, você amando ela”, canta a artista, enigmática.

“Segundo Amor da Sua Vida” foi gravada em 2018. A princípio, seria destinada a outro intérprete. Com o lançamento, preserva-se a memória da artista e, sobretudo, alimenta-se a expectativa acerca de novos trabalhos — são, ao todo, duas centenas de canções inéditas.

Trata-se de parceria com o compositor Juliano Tchula, rearranjada após a morte da cantora, em novembro de 2021, aos 26 anos, num acidente aéreo em Minas Gerais. Marília, rainha femineja, ulula dissabores da vida e, ao mesmo tempo, sopra versos da esperança amorosa.

“Tenta lá”, canta, “se não der certo, me avisa”. O amor acaba — tudo certo, é do jogo —, mas sempre vem outra dose. E você aí, abrigado na ressaca sentimental, haverá de dizer: “Posso ser o segundo, o terceiro, o quarto amor da sua vida.” Ora, só não convém desistir dele.

Acredite, a espera valerá: só te restará calar-se, uma vez consumado o sonho. Lembrará dos desamores, do desassossego, do desespero. Lembrará das vezes em que a classe operária foi ao paraíso. Irá regozijar-se na mais-valia da paixão. Realizou-se algo assim com este cronista.

No som, ressoa a voz intocável de Marília. “Não se diminua pra caber num coração / Que só tem espaço debaixo do tapete / Você não tem culpa se ela não enxerga / Um palmo à frente do nariz / Mas qualquer coisa, eu tô aqui / Na verdade, eu sempre estive”, entoa a cantora.

O eu poético, vejamos, se conformou com o fato de ser “segundo amor”, já que o homem desejado quer a outra. Resta-lhe, então, a mera choradeira: “Só tô deixando você viver livre / Mas, mesmo assim, não quero ver você sofrer / Se ela não quiser, já tem quem vai querer.”

Marília Mendonça se destacou na música brasileira ao fazer sofrência empoderada – Foto: Facebook/ Reprodução

Há quem diga que essa letra destoa no universo mariliano. Até faz sentido, pensando bem. A cantora, como eu e você sabemos, destacou-se na música popular ao deslocar a sofrência (território discursivo da macharada) para empoderar as mulheres. Não é algo acidental.

Pelo contrário, Marília reina absoluta no cancioneiro patropi deste século 21. Esteve, não à toa, nas páginas do respeitado “New York Times”, em texto assinado pelas jornalistas Vimal Patel e Flávia Milhorance no qual a tratam como “cantora pop” e “ícone do country”.

“Sua legião de fãs encontrou poder nas letras de suas canções, que imploravam às mulheres que recusassem relacionamentos abusivos e contavam histórias de personagens imperfeitos”, analisam Vimal e Flávia, dissecando o lirismo feminista da obra mariliana.

Isto é, lá fora já se sabe do óbvio: Marília Dias Mendonça é, na verdade, cronista do desamor feminino. Suas músicas, em termos harmônicos, flertam com o rock, por influência da mãe, e namoram o pagode, por parte do pai. Quatro anos após sua morte, ela mantém-se ouvida.

Só no Spotify, plataforma de áudio mais acessada pelo público, a goiana acumula 12 milhões de ouvintes mensais. No top cinco, dois hits do início da carreira: “Infiel” e “Como Faz Com Ela”. Ambos saíram no 1º álbum da artista, “Marília Mendonça (Ao Vivo)”, de 2016.

Nadando contra a corrente, aderiu ao movimento #EleNão, em 2018, após desafio proposto por Daniela Mercury. Marília declarou, na ocasião, que sua família foi ameaçada. “Tudo o que foi construído com amor e carinho foi apagado na mente de algumas pessoas”, disse.

Quando foi publicado o podcast “Marília — O Outro Lado da Sofrência”, em junho deste ano, a jornalista musical Carol Prado, responsável pelo projeto, explicou que a sertaneja mudou o mercado para sempre. “Colocou a mulher realmente no centro da narrativa.”


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