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Nu Escuro afina tom de peça que estreia no Setor Pedro Ludovico

Redação Online

Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 21:22 | Atualizado há 5 meses

Cia de Teatro Nu Escuro se baseia em livro clássico publicado pelo escritor Machado de Assis em 1882
Cia de Teatro Nu Escuro se baseia em livro clássico publicado pelo escritor Machado de Assis em 1882

Marcus Vinícius Beck

Na estrada há três décadas, a Cia de Teatro Nu Escuro afina o tom de seu novo espetáculo. O grupo, um dos mais tradicionais no cenário cultural goianiense, estreia “A Casa Verde” nesta sexta-feira (30/1), a partir das 20h, na Oficina Cultural Geppetto (St. Pedro Ludovico).

A peça relê outro trabalho da cia, “O Alienista”, montado em 2006. Inspirada em Machado de Assis e sua novela canônica, a Nu Escuro ajusta os detalhes para levar ao palco uma nova roupagem de um trabalho que percorreu o país e encantou o público por onde passara.

Durante aquela encenação, a plateia questionou-se a respeito da loucura, do poder e do controle social. O texto conta a história do Dr. Simão Bacamarte, “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e da Espanha”, na descrição machadiana.

“O Alienista” saiu em 1882. “Meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática”, diz o narrador.

Montagem volta-se contra gênio solitário, líder carismático e especialista infalível

Agora nos preparativos derradeiros, “A Casa Verde” baseia-se nesse conto. Foi pensada a partir da narrativa desenvolvida pelo Bruxo do Cosme Velho no século 19 para interpelar o mundo pós-moderno, com Bacamarte tentando catalogar e curar a loucura na pacata Itaguaí.

Embora dezenas de grupos teatrais tenham feito “O Alienista”, a montagem da Nu Escuro volta-se contra a figura do gênio solitário, do líder carismático e do especialista infalível. É uma versão que, conectada ao espírito de seu tempo, mostra as construções sociais coletivas.

Quando instada a falar da peça, a diretora Rô Cerqueira liga-a ao contexto sociopolítico. “Em tempos de polarização, fake news e culto à personalidade, ‘A Casa Verde’ nos lembra que não há salvação individual e que toda tentativa de impor uma verdade única sobre o que é normal, saudável ou aceitável carrega em si o germe do autoritarismo”, sublinha.

No que diz respeito ao olhar feminino, o espetáculo se atualizou — D. Evarista, esposa do Dr. Bacamarte, não aparece à margem das decisões. Nem é relegada a papéis domésticos, quase ornamentais, para contrapor o trecho em que a personagem é apresentada ao leitor.

“Mais do que isso, o espetáculo propõe uma crítica ao culto dos salvadores individuais. Se o Dr. Bacamarte encarna o cientista iluminado que, sozinho, pretende curar a sociedade, a montagem questiona essa lógica messiânica tão presente em nossos tempos”, diz a diretora.

Novela oferece ‘enigma semântico’ ao século 21

Nu Escuro escapa da nostalgia ao remontar espetáculo

Referência em estudos machadianos, Ivan Teixeira explicava que “O Alienista” oferece um “enigma semântico para o século 21”. Segundo Teixeira, professor da Escola de Artes e Comunicação (ECA) da USP, a novela ironiza a engrenagem do Estado monárquico.

À Folha de S.Paulo, Teixeira defendia a tese de que a sátira funciona como um espelho no qual “o observador reconhece todas as faces possíveis, exceto a sua própria”. Morto em 2013, o pesquisador dizia: “Sendo alusiva, essa espécie de crítica prefere a denúncia conceitual.”

É fato: não há nostalgia alguma em remontar “O Alienista” após 20 anos. Como reforça a diretora Rô Cerqueira, o projeto revela maturidade artística do grupo cuja meta é revisitar suas próprias criações, de modo a colocá-las em confronto com o presente e suas pautas.

Para Cerqueira, a Cia de Teatro Nu Escuro se estabeleceu como uma das principais referências do teatro goiano, “capaz de manter viva uma pesquisa de longo prazo, de dialogar com diferentes gerações de artistas e ainda de reinventar suas próprias práticas”.

À frente da coxia, “A Casa Verde” condensa artes visuais, performance, vídeo e música, no que se cria diante dos olhos machadianizados uma linguagem artística híbrida. A intenção é retratar a fragmentação e a multiplicidade do que se compreende por contemporâneo.

Cerqueira declara não haver na opção estética adotada pela Nu Escuro algo formal. “É uma escolha política de recusar narrativas lineares e totalizantes, abrindo espaço para leituras plurais e contraditórias”, assinala a diretora, enfatizando o ethos da companhia goianiense.

A plateia será guiada por ambientes da Oficina Cultural Geppetto. “A itinerância não é apenas um recurso cenográfico, mas parte fundamental da proposta: ao transitar pelos espaços, o espectador experimenta na própria pele o deslocamento, a desorientação, a perda de referências — sensações que ecoam a experiência da loucura e do confinamento”, pontua.

Cia de Teatro Nu Escuro estreia “A Casa Verde”

Data: Sexta-feira (30/1)

Horário: 20h

Local: Oficina Cultural Geppetto

Endereço: Rua 1013, Quadra 39, Lote 11, 467 – St. Pedro Ludovico

Entrada franca

Fotos: Layza Vasconcelos


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