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Machado de Assis inspira jogo com estética noir; veja trailer

Redação

Publicado em 29 de dezembro de 2025 às 20:38 | Atualizado há 5 meses

Escritor arrebata leitor com prosa humorística e luso-brasileira
Escritor arrebata leitor com prosa humorística e luso-brasileira

Marcus Vinícius Beck

No game “A Investigação Póstuma”, com lançamento marcado para o início do próximo ano, você investiga o assassinato de Brás Cubas. O defunto autor, cujos vermes já roeram as frias carnes de seu cadáver, contrata um detetive a fim de descobrir quem o matou décadas atrás.

Estamos no Rio de Janeiro em 1937. Ao contrário do óbito registrado nas irreverentes “Memórias Póstumas”, no jogo o aristocrata carioca não morreu de pneumonia — tiram-lhe a vida. O narrador galhofeiro prendeu-se a um loop atemporal. Daí, fica indo e voltando.

Produzido pelo estúdio brasileiro Mother Gaia, “A Investigação Póstuma” possui uma versão demo na Steam, válida para Windows 10 ou posteriores, bem como para dispositivos que tenham controles de Xbox — ou DualShock e DualSense. O ator Rodrigo Lombardi dubla o game.

É uma contida amostra, no entanto. Ainda assim, o suficiente para que descubramos que, além de Brás Cubas, a trama compõe-se de dois personagens de “Dom Casmurro”: Bentinho e Capitu, aquela dos olhos de cigana oblíqua e dissimulada. O protagonista do romance “O Alienista”, Dr. Simão Bacamarte, também aparece diante de nossos olhos emplastados.

Eis o machadoverso: o entusiasmo, certos diálogos, as sacadas literárias, estouvadas, tudo isso nos leva a fazer uma coisa apenas — jogar. Minha memória, confesso-lhes, evocaria no instante seguinte a “linda Marcela”, a dama espanhola de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, à qual o autor em óbito achou-se enfeitiçado ao ver seu “corpo esbelto, ondulante”.

Segundo a Mother Gaia, a inspiração estética vem de filmes noir dos anos 1940, como a composição das cenas, o figurino dos personagens, a iluminação e a arquitetura. No que diz respeito à dimensão histórica, numa perspectiva cinematográfica, trata-se de um gênero inspirado nas técnicas de cineastas identificados com as sombras do expressionismo alemão.

“Nos últimos anos, temos dedicado cada detalhe de ‘A Investigação Póstuma’ a um objetivo: criar uma experiência marcante, à altura da genialidade de Machado de Assis”, informa o estúdio, que se dedica ao projeto desde 2014 e, desde então, vê a alta expectativa do público.

De fato, foi uma imersão. Do papel ao digital, a Mother Gaia montou um time extenso. A equipe de profissionais, segundo reportagens, contou com pelo menos 20 integrantes. Todos leram o velho Machadão, releram-no ou recorreram a audiolivros, de maneira que as pontas do enredo se unissem. Afinal, como transportar Machado a outra mídia sem correr riscos?

A intenção, diante de tamanho labor artístico, era jurar fidelidade conceitual ao texto machadiano, ao mesmo tempo em que os gamers seriam atraídos pelo produto digital. Para que a ideia em si funcionasse, as histórias do Bruxo do Cosme Velho se entrelaçariam em um ambiente novo, redundando em uma obra de honesta releitura. Adaptação simples? Não.

“A Investigação Póstuma” conecta personagens do escritor Machado de Assis

Jovens

Morto há 116 anos, o escritor Machado de Assis segue lido pelos jovens (daqui e de fora), estudado na academia e debatido na imprensa. Além disso, é autor exigido para ingresso em dezenas de universidades e, aqui e ali, seduz gringos com sua prosódia luso-carioca.

Cronista, contista e romancista, o escritor inicia-se na publicação livresca a partir das peças teatrais ainda jovem, aos 22 anos, com “Desencantos”, de 1861, em cujo drama retrata a história da viúva Clara de Sousa. A personagem tem de escolher entre dois pretendentes.

Machado foi ainda poeta, tal qual lemos em “Crisálidas”, de 1864, e estabelece na obra equilíbrio entre as formas, os assuntos clássicos e as ideias românticas. Cria uma tensão, tensão muito peculiar, aliás: combina referências antigas, modernas e contemporâneas.

Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, no entanto, o escritor inaugura o realismo na literatura brasileira. Brás Cubas, o defunto autor, narra em primeira pessoa sua vida. O personagem-título desse livro de 1880 é um homem de elite, mas coleciona fracassos.

Ao abrir o livro, o leitor queda-se aturdido: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas.” Na próxima página, porém, Machado o intima: “A obra em si mesma é tudo; se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote, e adeus. Brás Cubas.”

Brás Cubas repassa sua vida. De início, o narrador falecido, com sua pena galhofeira, descreve a própria morte: “Expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns 64 anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de 300 contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos”.

Com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado expandiu as possibilidades da literatura universal. Inquiriu crenças, ilusões e preconceitos, tornando-se um clássico levado ao cinema e ao universo dos games. Por isso, o Bruxo do Cosme Velho mantém-se novo.

Como diz a Mother Gaia, “A Investigação Póstuma” chega em breve, com mistério, humor e “aquele toque machadiano que a gente ama”. O que não deixa de ser interessante, é verdade. Ciente de que a arte é intrínseca ao progresso, Machado volta — e dessa vez nos games.

Fotos: Mother Gaia


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