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‘O Agente Secreto’ chega aos cinemas de olho na temporada de premiações

Redação Online

Publicado em 4 de novembro de 2025 às 22:09 | Atualizado há 9 meses

Wagner Moura interpreta personagem Marcelo em novo filme do cineasta Kleber Mendonça Filho - Foto: Victor Juca
Wagner Moura interpreta personagem Marcelo em novo filme do cineasta Kleber Mendonça Filho - Foto: Victor Juca

Marcus Vinícius Beck

Meio século antes, diante dos arapongas e da insegurança, o aflito Marcelo haveria de reconectar-se com seu filho. Dirige um Fusca amarelo e, ao parar num posto à beira da estrada, avista à frente um corpo — ficou assim nos últimos dias, informa-lhe um funcionário.

Recife tinha então uma atmosfera de suspense e intimidação autoritária. Quase quarentão, especializado em tecnologia, Marcelo volta à capital pernambucana atrás de refúgio, mas a percebe esclerosada demais para abrigá-lo durante sua fuga de um passado misterioso.

É mil novecentos e setenta e sete: a ditadura silenciava. É mil novecentos e setenta e sete: a política corrompia-se. É mil novecentos e setenta e sete: começa “O Agente Secreto”, o aguardado filme de Kleber Mendonça Filho que estreia nesta quinta (6/11) nos cinemas.

São dois tempos narrativos: mil novecentos e setenta e sete e os dias de hoje. No presente, pesquisadores examinam fitas cassetes com conversas dos personagens pretéritos. Todos, ali, querem compreender o paradeiro de Marcelo, que chega a Recife no Carnaval.

Cineasta Kleber Mendonça Filho (à esquerda) se volta à memória brasileira em novo longa-metragem – Foto: Brent Travers

A obra trata, segundo o crítico britânico Peter Bradshaw, da crueldade cotidiana da tirania política. “Com seu tema e perspectiva contemporânea, poderia ser comparado a ‘Ainda Estou Aqui’, de Walter Salles”, disse no “The Guardian”, em maio último, após sessão em Cannes.

“Conforme o filme avançava, me vi comparando-o a ‘O Passageiro’, de [Michelangelo] Antonioni, em sua progressão lenta rumo a um desfecho violento e terrível”, afirmou o jornalista, evocando a produção lançada em 1975 e protagonizada por Jack Nicholson.

Talvez as semelhanças entre “O Agente Secreto” e “O Passageiro” se limitem ao rigor estético-fílmico, tirando do público os apoios que o cinema convencional lhe oferece. Mendonça Filho, como se sabe, é um cinéfilo — basta assistir a “Crítico” e “Retratos Fantasmas”.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o brasileiro aprecia o tema da memória desde “Crítico”, de 2008, em que entrevistou cineastas como Walter Salles, Ruy Guerra, Nelson Pereira dos Santos, Fernando Meirelles e Cláudio Assis.

Mendonça Filho, ademais, manifesta essa mesma inquietude em sua filmografia ficcional. Com “O Som ao Redor”, um dos dez melhores filmes de 2012, segundo lista do jornal norte-americano “The New York Times”, o diretor se volta a um imóvel e fotografias.

Kleber Mendonça Filho diz que um bom filme prende a sua atenção, te diverte, te mantém entretido – Foto: Raphael Stoetzel/ The Hollywood Reporter

Já “Aquarius”, de 2016, é ambientado num apê na Praia de Boa Viagem. As lembranças familiares são postas em risco por moradias verticais, pois assim funciona a especulação imobiliária. Na estreia, o elenco protestou contra o impeachment de Dilma Rousseff.

Do fuzuê em Cannes a Bacurau, contam-se três anos — e a memória seguiu vivaz na tela grande. Se for, vá em paz: os segredos, aqui, permanecem nos baús, guardados em museus. Embora modestos, desvalidos, tratam-se de locais importantes para o povoado do filme.

“Retratos Fantasmas”, por sua vez, recupera os cinemas de rua recifenses. É o filme que permitiu a Mendonça Filho realizar “O Agente Secreto”, em razão de ter exibido o doc na Riviera Francesa e, sobretudo, buscado viabilizar o projeto numa perspectiva financeira.

Para o pernambucano, vencedor da Melhor Direção no último Festival de Cannes, o Brasil tende a esquecer “muita coisa”. “Eu acho que o cinema é um instrumento muito bom: um bom filme prende a sua atenção, te diverte, te mantém entretido”, constatou o diretor.

Wagner Moura, como Marcelo, recebeu prêmio de Melhor Ator no último Festival de Cannes, em maio – Foto: Divulgação

Durante coletiva de imprensa em São Paulo, na terça-feira, 28, Kleber Mendonça Filho aprofundou seu raciocínio: “Também pode carregar uma dose de verdade sobre o lugar onde a gente mora.” Sobre a temporada de premiações, o cineasta adotou um tom equilibrado.

“Hoje a gente tem essa notícia muito boa do Gotham, que é talvez a primeira premiação que acontece em Nova York na temporada de prêmios. O Wagner e o roteiro original indicados. Fico feliz. Gosto muito do roteiro do filme”, disse Mendonça Filho, alegre e divertido.

Marcelo — ou seria Wagner Moura? — é um homem em debandada, ou estaria prestes a debandar. Viúvo, possui um filho pequeno sob os cuidados dos pais de sua falecida esposa. Pela atuação, em maio, Moura foi eleito o Melhor Ator durante a estreia em Cannes.

Sobre o personagem, o crítico britânico Peter Bradshaw escreve no jornal inglês “The Guardian”: “Marcelo não é exatamente um dissidente, nem precisamente um agitador político, nem mesmo um esquerdista, mas agora precisa sair do Brasil com o filho.”


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