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‘Rita Lee, Uma Autobiografia Musical’ estreia no Madre Esperança

Redação

Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 20:30 | Atualizado há 4 meses

Mel Lisboa como Rita Lee: atuação rendeu prêmio Shell à atriz
Mel Lisboa como Rita Lee: atuação rendeu prêmio Shell à atriz

Marcus Vinícius Beck

Rita Lee está viva. Entre cabelo e batom vermelhos, ela segura seus óculos arredondados. Os dedos indicador e polegar pegam-no. Deixa os demais suspensos. Arrisca careta. Símbolo da paz destacado na camisa preta. Gente feliz, rindo, com seus versos. Agora só falta você.

Quase acabaram-se os ingressos: “Uma Autobiografia Musical” estreia no Madre Esperança Garrido. A peça, estrelada pela atriz Mel Lisboa, será encenada nesta quinta (5/1), às 20h, e sexta-feira (6/1), às 17h e 20h. Ainda existem (poucos) bilhetes para a 1ª sessão de sexta.

O espetáculo reconstrói momentos centrais da vida e da carreira da artista. Com roteiro e pesquisa de Guilherme Samora, costura episódios pessoais, embates com a censura e hits num show teatral. Mel ganhou o Prêmio Shell de melhor atriz por sua atuação como Rita.

Para garantir a sonorização, os músicos instalam-se em um platô acima dos atores. “Rita Lee, Uma Autobiografia Musical” segue as memórias publicadas pela cantora e compositora. Os causos saltam das páginas para o palco, sob a direção de Marcio Macena e Débora Dubois.

A peça nasceu quando a atriz gravara uma versão em audiolivro das memórias de Rita. Em leitura cativante, a cantora lembra de sua infância e do início na música. Fala do primeiro disco voador avistado ao último porre, bem como os anos de Mutantes e Tutti Frutti.

Mel está convicta de que a história de Rita precisa ser contada e recontada. “Sua existência transformou toda uma geração. E continua a conquistar fãs cada vez mais jovens. Rita não é ‘somente’ a roqueira maior”, diz a atriz, abençoada pela própria cantora, que a viu em cena.

Elogio

Lá pelas tantas, já nas páginas finais de sua autobiografia, de 2016, Rita elogiou Mel Lisboa ao dizer que a interpretava em “Rita Lee Mora ao Lado” melhor do que ela mesma. “Só que bem mais bonita”, anotou. Era modéstia, pois a roqueira tinha talento, coragem e beleza.

A peça, produzida em 2014, inspirava-se no livro homônimo do escritor e músico Henrique Bartsch. Fã-viúvo dos Mutantes, Henrique passou a dar valor à carreira solo de Rita. Veio de sua imaginação uma biografia-ficção misturando fatos reais com o mundo de sua fantasia.

“Recebi uma cópia, adorei e dei meu aval”, disse Rita, morta em maio de 2023, aos 75 anos. Para ela, os delírios de Bart foram mais próximos daquilo que se entende por real do que as “masturbações literárias” de outro “pretensioso autor que melhor faria ficar calado.”

No palco, Mel Lisboa era um encanto. Surgia em cena cheia de graça, como se quisesse que o público lhe dissesse “meu bem, você me dá água na boca”. Interpretava uma importante compositora popular brasileira sem esconder a pretensão de homenageá-la à frente da coxia.

Rita foi única. Era uma estrela solitária do desbunde, estandarte do prazer, deusa de todos os verões, até os da alma, como descreveu o jornalista Nirlando Beirão. Possuía uma voz fina, alva, tal qual uma boa moça — só que fã de John Lennon, Mick Jagger e David Bowie.

Tudo na paulistana nascida em 31 de dezembro de 1947 representava transgressão: o cabelo cor de fogo, as maçãs do rosto imponente, o humor feminista, as tiradas sarcásticas. Tinha ascendência americana e italiana — o sobrenome vem de “Lee Jones”, da família paterna.

Atriz narra peça em primeira pessoa do singular

Sintonizado na contracultura, o poeta Paulo Leminski enlouqueceu quando ouviu Rita Lee. Leminski registrou sua atração em um poema: “Tudo/ que/ li/ me/ irrita/quando/ouço/ rita/ lee.” Da psicodelia dos Mutantes ao rock stoniano do Tutti Frutti, Rita virou fruto proibido.

Na música “Miss Brasil Dois Mil”, do disco “Babilônia”, de 1978, a cantora previu o século 21: “Um corpo de veludo, as pernas de cetim/ A boca de cereja e os dentes de marfim/ Um beijo envenenado, onde já se viu?/ Miss Brasil 2000.” Seria moda sair nua em revista, dizia.

Rita, todavia, não se fez rogada. “Suspenderam os jardins da Babilônia/ E eu pra não ficar por baixo/ Resolvi botar as asas pra fora, porque/ Quem não chora dali, não mama daqui, diz o ditado”, falava a roqueira em “Jardins da Babilônia, também lançada no disco de 78. 

Além disso, lembra Mel, a artista compôs, cantou e popularizou o sexo em uma perspectiva feminina. “[Falou] em uma época em que isso era inimaginável. Ousou dizer o que queria e se tornou a artista mais censurada pela ditadura militar. Na época, foi presa grávida.” 

É como se Rita criasse a trilha sonora vitalícia do pós-transa. Ah, meu bem, você me dá água na boca. Vestindo fantasias, tirando a roupa. Molhada de suor de tanto a gente se beijar. “Mania de Você”, do primeiro disco com Roberto de Carvalho, de 1979, é um clássico. 

“[Após a prisão, Rita Lee] deu a volta por cima e conquistou uma legião de ‘ovelhas negras’. Tornou-se a mulher que mais vendeu discos no país e a grande poeta da música popular brasileira”, afirma Mel, cujo papel a colocou entre os maiores nomes do teatro nacional. 

Em “Uma Autobiografia Musical”, a atriz narra na primeira pessoa do singular. Como no livro, o arco temporal percorre oito décadas, desde os anos da infância na Vila Mariana até a aposentadoria dos palcos, em 2012. Mas o ritmo, se comparado às memórias, é desacelerado.

Certos personagens foram suprimidos e episódios, condensados. Ao que parece, no entanto, Mel Lisboa entende que os fãs vão ao teatro desejando uma homenagem à altura de Rita Lee. Os ensaios foram assistidos por Roberto de Carvalho, que consentiu com o que ali vira. 

UMA AUTOBIOGRAFIA MUSICAL

Quando: quinta (5/2) e sexta-feira (6/2)

Onde: Madre Esperança Garrido

Endereço: Av. Contorno, 241 – St. Central

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Fotos: Priscila Prade


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