Copa do Mundo: Seleção Brasileira terá de fintar a história contra a Noruega
Redação Online
Publicado em 5 de julho de 2026 às 09:23 | Atualizado há 1 hora
‘Mister’: tranquilidade é arma brasileira contra vikings - Foto: Rafael Ribeiro/ CBF
Marcus Vinícius Beck
Olha o sambão, aqui é o país do futebol. No som, ressoa a voz aveludada e quente do cantor Wilson Simonal. O rei da pilantragem lançou essa canção quatro dias após o tricampeonato mundial, em 25 de junho de 1970. “O Brasil está vazio na tarde de domingo, né?”, vocaliza.
“Aqui é o País do Futebol” entoa notas e tons, síncopes e variações. Neste domingo (5/7), a partir das 17h, o país inteiro veste o manto amarelo, alguns preferem o azul. Todos torcem pelo escrete em contenda dura, duríssima, contra a Noruega, pelas oitavas de final da Copa.
Tempo de sonhar, de renovar paixões futebolísticas, de regressar aos velhos teipes e reveses; de reler livros, de rever filmes, de reinterpretar jogos pretéritos. Como aquela pane coletiva que deu em um 2 a 1 para a Noruega, em 1998, na fase de grupos do Mundial da França.
Taí a comunhão: o nosso senso coletivo resiste, mesmo que os fracassados — com a devida vênia a Gilberto Gil — sempre hão de pintar por aí. Só o mestre tropicalista para atenuar a tensão inevitável do encontro com o destino. Peleja difícil à frente, meu amigo, vai vendo.
Será o quinto jogo do escrete no Mundial. Além de furar a defesa nórdica, a Seleção terá de fintar a história. Desde o pentacampeonato, disputado na Coreia do Sul e no Japão, em 2002, o Brasil se foi na segunda partida do mata-mata — morremos e nem sempre renascemos.
O quinto jogo, meu velho, o quinto jogo. Em 2006, na Alemanha, Zinedine Zidane e Thierry Henry nos levaram a arrumar as malas mais cedo: 1 a 0 para eles. Na África do Sul, em 2010, os vilões eram Sneijder e Robben, talvez Felipe Melo, o agressivo volante: 2 a 1 pra Holanda.
Quando deixou pra lá essa sina e chegou à semifinal, em 2014, o Brasil entrou na roda alemã diante de sua torcida. Era a tragédia dos 7 a 1. O Mineirão, em Belo Horizonte (MG), se calou ante o inesperado placar, uma goleada aplicada à seleção de maior prestígio do mundo.

‘Galhofa cósmica’
Estávamos na semi, humilhados. O escritor Luis Fernando Verissimo, na fina ironia, disse: “O 7 a 1 foi um desastre, um vexame, um escândalo.” Ainda assim, tudo dentro dos limites. Era cruel, reconhecia Verissimo, mas era um score já visto, inclusive na história das Copas.
Mas se os alemães fizessem mais três gols, só mais três, aí haveria uma “galhofa cósmica”. Para o cronista, “a única reação possível a um 10 x 1 seria uma grande gargalhada, que nos salvaria do desespero terminal”. “Nada mais teria sentido no mundo”, escreveu Verissimo.
O quinto jogo, meu velho, o quinto jogo. Na Rússia, em 2018, De Bruyne mandou o Brasil embora: 2 a 1 Bélgica. Em 2022, no Catar, a Croácia de Luka Modric impôs um sofrimento ruidoso, com direito a prorrogação e penalidades máximas — 4 a 2 pra eles na marca da cal.
Repare: estamos no quinto jogo. A Seleção Brasileira, agora comandada pelo italiano Carlo Ancelotti, terá pelo seu caminho o artilheiro Erling Haaland. Ancelotti levanta a sobrancelha e pensa que, outra vez, enfrentará o atacante norueguês. Sabe das dificuldades, do perigo.
Enfim, o time canarinho terá duas funções a desempenhar: driblar o tal retrospecto e parar Haaland. Para isso, a equipe ganhará a experiência de Ancelotti, a quem o delantero viking não é desconhecido. O técnico já o encarou quando no Napoli e depois pelo Real Madrid.
Embora católico, Ancelotti diz não rezar no sufoco
O quinto jogo, meu velho, o quinto jogo. Embora católico, Carletto não reza na peleja difícil. Ele acha que Deus — esse ser onipresente e onisciente, símbolo máximo do cristianismo — possui outros problemas nos quais pensar. Ao menos foi o que disse à “Folha de S. Paulo”.
Ancelotti, quase um iluminista das questões ludopédicas, se encantou pelo jogo brasileiro cedo. Aos 11 anos, em 1970, o italiano foi arrebatado pelo futebol-poesia de Pelé, Jairzinho, Tostão e Rivellino. Nos anos 1980, já defendendo a Roma, conviveu com Falcão e Cerezo.
Foi neste período que o atual técnico da Seleção criou relações com os brasileiros. “Nos divertimos juntos, porque a personalidade dos jogadores brasileiros era diferente. Eles eram mais alegres, simpáticos. Então, você pode se divertir muito com eles”, salientou à FIFA.
Meio-campista habilidoso — ou regista, em italiano —, Carletto integrou a comissão técnica da Azzurra na Copa de 1994. A equipe, liderada pelo craque Roberto Baggio, chegou à final, em Pasadena, na Califórnia. Após duas horas, a partida contra o Brasil terminou sem gols.

Mente e pé
Carlo Ancelotti, naquele 17 de julho de 94, aprendeu algo: “O futebol se joga tanto com a mente quanto com os pés. Foi uma lição importante que levei comigo para minha carreira de técnico.” A Seleção venceu nos pênaltis. Baggio e Franco Baresi isolaram suas cobranças.
O quinto jogo, meu velho, o quinto jogo. Agora vem à cabeça aquele Milan de Ancelotti. Não arriscava nem encantava. Rivaldo sem espaço, lembra? O técnico pirou ao ver Kaká jogar, achando-o igual a Michel Platini. Depois, em 2007, o brasileiro seria o melhor do mundo.
Há outras declarações elucidativas. Na autobiografia “O Sonho: Quebrando Recorde de Vitórias na Champions League” (Planeta), o “mister” reafirma: “Tentarei ganhar a Copa do Mundo dando tudo de mim.” Sempre calmo, sereno, como ressaltam seus comandados.
“No intervalo, ele nos deu confiança, disse que marcaríamos um gol e que iríamos virar o jogo. Não importava quando o gol sairia. Sentimos a calma dele. Isso nos tranquilizou”, disse Gabriel Martinelli, herói contra o Japão, após o jogo. Que assim seja neste domingo.
E lembre-se, meu velho: o quinto jogo, vamos pro quinto jogo. Mas, como canta Wilson Simonal, rei da pilantragem, aqui é o país do futebol: “Brasil é só futebol.” Torçamos.