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França se achou após virar chacota na Copa do Mundo da África do Sul

Redação Online

Publicado em 30 de junho de 2026 às 21:55 | Atualizado há 60 minutos

Cena do doc "A Grave da Seleção Francesa" - Foto: Netflix/ Divulgação
Cena do doc "A Grave da Seleção Francesa" - Foto: Netflix/ Divulgação

Marcus Vinícius Beck

Era o subterrâneo, o suplício ludopédico. A seleção francesa, favorita ao título mundial na América do Norte, já passou por uma temporada no inferno. Daquela vez, se os azuis se lembram bem, os ânimos no vestiário se exaltaram. Foi a vergonha, a reprovação: o erro.

Isso é a vida. Ou, a julgar pelo doc “Le Bus, les Bleus en grève”, nomeado no Brasil como “A Greve da Seleção da França” (Netflix), é a autópsia do caos. O lateral-esquerdo Patrice Evra, capitão, e o técnico Raymond Domenech, autoritário, apresentaram suas versões dos fatos.

Tão logo começa o filme, fica explícito: eles não se gostam. Os documentaristas Christophe Astruc e Jérôme Frite obtêm o diário de Domenech, no qual o ex-técnico reserva palavras nada amistosas aos ex-comandados: “Às vezes, tenho acessos de ódio contra esses idiotas.”

Não fica nisso. Sobre o meio-campista Yoann Gourcuff, o treinador aposentado estigmatiza: “Que idiota! Levemente autista para começar, e idiota para completar.” Palavras agressivas que revelam a toxicidade em torno do time, eliminado da Copa de 2010 na primeira fase.

Por 1 hora e 20 minutos, Astruc e Frite expõem abalos sísmicos. Um deles, intitulado “Le fiasco de l’Euro 2008”, causou uma série de rachaduras. Ao ser eliminado da competição europeia, Domenech declarou à emissora francesa “M6”: “Só tenho um projeto, casar com Estelle.”

Pedido aceito, o técnico viu que as coisas não melhoraram. A França, um arremedo de time, se arrastou nos meses seguintes. Só asseguraria a classificação para o Mundial da África do Sul na repescagem contra a Irlanda, no Stade de France. E teve, digamos, uma “ajudinha”.

Time francês foi eliminado na primeira fase do Mundial – Foto: FIFA/ Divulgação

Mão na bola

Lá vem Thierry Henry, atacante, classudo, posicionado na área. Prorrogação. Recebe a bola cruzada, meio desajeitado, meio desengonçado. Arruma-a. Põe a mão nela. Agora sim. Faz o passe para o zagueiro Gallas, que desvia. Gol legal, segundo o juiz sueco Martin Hansson.

Anos antes, em 2006, Henry fizera o Brasil chorar. Até hoje, como escreve o craque Tostão, ninguém entendeu o que fazia o lateral-esquerdo Roberto Carlos abaixado, mão no cadarço da chuteira, enquanto a bola flutuava. O craque francês, livre, empurrou-a para as redes.

Zidane, apesar de Domenech, deu show. No livro “Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos”, publicado pela Companhia das Letras em 2016, Tostão diz: “No time da França, a distância entre o jogador mais recuado e o mais adiantado era pequena.” Zizou brilhava nesse espaço.

Agora corta, por favor. Estamos em Knysna, África do Sul, 2010: eis à frente Evra, o capitão. Assumiu a função após o zagueiro William Gallas — lembra-se dele? — reivindicá-la. “Se ele é o capitão, então eu sou o general”, tiraniza o treinador, no doc “Le Bus, les Bleus en grève”.

Evra, então, recua: “Eu só pensava em Gallas, que poderia achar que eu o sacaneava.” Isso exacerbou ainda mais as animosidades, conforme o lateral reconheceu em uma entrevista ao respeitado “Le Figaro”: “Falávamos mais dos problemas do dia a dia do que de futebol.”

Doc mostra revolta de jogadores contra federação

Para o jornalista Eric Michel, do “Le Parisien”, Raymond Domenech alienou seu elenco. Os jogadores deixaram de respeitá-lo. E ele, em vez de atenuar os conflitos, os ridicularizava. O time estreou mal, muito mal, zero a zero contra o Uruguai. E ficou barato, se pensar bem.

“Leonino egocêntrico” — nas palavras astrológicas de Domenech —, Henry era reserva. Não importa se era campeão do mundo (1998) ou vice (2006). O treinador, mesmo que precisasse vencer a todo custo, não deixaria os signos. De novo, o craque teria de se aguentar no banco.

“Tudo mudou no intervalo do segundo jogo contra o México (1 a 2)”, recorda-se Michel. “Isso foi seguido pela infame e sensacionalista manchete da primeira página do ‘L’Équipe’, no sábado.” O título? “Vai se foder, seu filha da puta imundo”. Assim mesmo, ipsis litteris.

Evra, no doc “A Greve da Seleção da França” (Netflix), declara que o atacante Nicolas Anelka nunca xingou Domenech: “Tivemos então 15 minutos para nos recuperarmos. Por 10 minutos, houve silêncio total, nenhuma palavra. E então o treinador atacou o Nico.”

Capa do jornal francês L´Equipe correu o mundo com expressão de baixo calão – Foto: Divulgação

Sensacionalismo

Possesso, o lateral amassa o jornal, jogando-o por cima do ombro. Domenech, por sua vez, se recusa a olhar para o “L’Équipe”. “Arruinou a minha vida”, disse, indicando não ter havido o insulto tal como publicado. “Anelka disse: ‘Você que administre esse seu time de merda’.”

Tarde demais, a sociedade estava chocada. Haveria consequência. Anelka aceitou um pedido de desculpas aos jogadores e à comissão técnica, mas não à imprensa. Ora, como poderia se desculpar por algo que não dissera? A Federação Francesa de Futebol (FFF) não voltou atrás.

À frente da FFF, Jean-Pierre Escalettes deu as declarações por “verdadeiras” no principal telejornal da França. Os jogadores, insatisfeitos com o corte de Anelka, rebelaram-se em um motim. Ninguém treinou, o preparador físico Robert Duverne se irritou. Discutiu com Evra.

De ruim a péssimo, foi rápido. A ministra dos Esportes, Roselyne Bachelot, envolveu-se. Enviaram-na à África do Sul, onde discursou e comoveu os jogadores. Mas, logo depois, chamou-os de “escória” na Assembleia Nacional. O presidente era o conservador Sarkozy. 

Se aquele time de 2010 estava fadado ao fiasco (perdeu para a África do Sul por 2 a 1 na terceira rodada), les Bleus, sob o comando de Didier Deschamps, encantam o mundo com seu futebol. Jogam hoje, às 18h, contra a Suécia. Assista a “A Greve da Seleção da França”.

Seleção francesa fracassou na Copa de 2010, ainda que favorita – Foto: FIFA/ Divulgação

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