Impunidades no Flamengo: quando a Justiça brasileira ‘faz afagos’ ao clube
Léo Carvalho
Publicado em 17 de novembro de 2025 às 10:30 | Atualizado há 8 meses
Em vídeos que viralizaram, Hugo Bravo critica a multa aplicada a Bruno Henrique e Neto questiona a presença de Rodrigo Aiache, vice-presidente do STJD | Foto: Reprodução/Band/Roberto Corrêa
Nos últimos meses, duas decisões envolvendo o Flamengo voltaram a colocar o clube no centro de um debate sensível no país: até que ponto grandes instituições esportivas recebem tratamento diferenciado quando enfrentam acusações graves? A absolvição dos réus no incêndio do Ninho do Urubu, que em 2019 matou dez jovens atletas, e o desfecho do processo esportivo envolvendo o atacante Bruno Henrique intensificaram críticas sobre possíveis “afagos” da Justiça brasileira ao clube.
Mais de seis anos após o incêndio que atingiu os alojamentos improvisados da base rubro-negra, a Justiça Criminal do Rio de Janeiro absolveu todos os acusados. A decisão, fundamentada na falta de provas consideradas suficientes para responsabilização penal individualizada, gerou indignação entre familiares das vítimas, que denunciaram sensação de impunidade e desrespeito à memória dos adolescentes mortos.
Na prática, a sentença sustenta que não houve comprovação de dolo ou negligência direta por parte dos réus que justificasse condenações. Organizações de familiares e especialistas em segurança de estruturas esportivas, no entanto, argumentam que o caso expôs falhas graves de gestão e de prevenção que deveriam ter resultado em responsabilização mais rígida.
O Ministério Público do Rio de Janeiro recorreu, afirmando que a absolvição enfraquece o papel pedagógico da Justiça e desestimula mudanças estruturais necessárias para evitar novas tragédias em centros de treinamento pelo país.
Caso Bruno Henrique
Enquanto a repercussão do incêndio ainda ecoava, outro episódio manteve o Flamengo sob holofotes: o julgamento do atacante Bruno Henrique por envolvimento em uma trama de apostas esportivas relacionadas a cartões aplicados em partida oficial.
A Procuradoria Desportiva acusava o jogador de ter utilizado informação privilegiada para favorecer familiares em apostas. Após julgamentos em instâncias diferentes, Bruno Henrique acabou absolvido da acusação de manipulação de resultado e recebeu apenas uma multa administrativa no valor de R$ 100 mil, sem suspensão. A decisão não cabe recurso e o caso do atacante do Flamengo está encerrado no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).
A decisão, embora tecnicamente amparada pela interpretação do tribunal, provocou questionamentos entre dirigentes esportivos, imprensa desportiva, analistas de integridade e parte da opinião pública, que esperavam punição mais dura diante da gravidade das suspeitas.
Para críticos, o resultado reforça a percepção de que condutas antiéticas no esporte ainda encontram respostas insuficientes, especialmente quando envolvem atletas de grande relevância.
Um possível padrão?
A proximidade temporal entre os dois casos e o impacto social das decisões ajudaram a consolidar um debate mais amplo: há um padrão de decisões benevolentes quando o Flamengo é alvo de processos graves?
Juristas apontam que o tamanho da instituição, sua influência histórica e a estrutura jurídica robusta podem contribuir para um cenário em que responsabilizações se tornem mais complexas, prolongadas ou brandas. Não se trata, segundo esses especialistas, de afirmar favorecimento intencional, mas de reconhecer que o peso social e econômico de um clube desse porte interfere direta ou indiretamente na dinâmica de processos.
Presidente do Vila Nova
Hugo Jorge Bravo, presidente do Vila Nova e autor da denúncia que originou a Operação Penalidade Máxima, criticou a decisão do STJD e classificou a multa aplicada como insuficiente diante da gravidade das suspeitas que recaíam sobre o atacante. Segundo ele, o desfecho do caso transmite uma mensagem equivocada ao futebol brasileiro ao tratar com brandura situações que ameaçam a integridade esportiva.
“É um atleta de envergadura, punido com multa de R$ 100 mil, valor insignificante pro salário mensal dele. Há uma desproporção e uma incoerência entre as punições. A gente vê outro atleta, em uma divisão inferior (Série B), como a nossa, ser punido, de forma correta, com uma punição mais severa”, disse Bravo em uma publicação nas redes sociais.
O presidente do Vila Nova ainda acrescentou: “Quando se trata de certo ou errado, nós não podemos torcer, não podemos ter cor de camisa, não podemos ter condição social. A punição ficou muito branda. Para falar a verdade, não teve punição.”
Craque Neto
O julgamento do caso Bruno Henrique tornou-se ainda mais controverso após uma polêmica envolvendo Rodrigo Aiache, presidente da OAB no Acre e vice-presidente do STJD. Nas redes sociais, torcedores do Palmeiras passaram a questionar a imparcialidade do dirigente depois que vieram à tona imagens dele na arquibancada, em meio à torcida do Flamengo, durante a final da Libertadores de 2019, no Peru.
O caso repercutiu nacionalmente e chegou ao programa “Os Donos da Bola”, da TV Bandeirantes. Ao comentar o episódio, o apresentador e ídolo corintiano Neto demonstrou indignação. Durante a transmissão, exibiu as fotos de Aiache vestindo as cores rubro-negras e levantou dúvidas sobre a isenção do dirigente em julgamentos que envolvem o Flamengo.
“Como é que ele pode julgar, é justo isso? Como é que um cara que vai pra Libertadores, que é flamenguista, pode ser vice-presidente do STJD? Como é que pode isso?”, questionou Neto em tom crítico.
Hugo Bravo critica a multa aplicada a Bruno Henrique e denuncia a desproporção das punições no futebol | Vídeo: Rede Social/Instagram/Arquivo Pessoal