Messi, após jornada do herói, comanda Argentina contra Suíça no sábado (11)
Redação Online
Publicado em 10 de julho de 2026 às 20:48 | Atualizado há 36 minutos
Craque lidera Argentina neste sábado (11) contra a Suíça - Foto: AFA/ DIVULGAÇÃO
Marcus Vinícius Beck
Lionel Messi domina a forma. Como Pablo Picasso, ele simplifica a sua arte. Já é quase um quarentão e, talvez por isso, tenha virado adepto do mínimo esforço. Então vem sucessão de toques na bola — só os necessários — para que tudo ganhe um sentido. De repente, finaliza.
O geômetra, outra vez, será a grande arma argentina. A essa altura, é difícil estranhar: Messi vai andar em campo, encostado no círculo central, absorto e alheio à peleja, que, por sinal, se trata das quartas de final da Copa do Mundo. Mas, sem dúvida, achará os traços do gol.
Ou, numa metáfora à la Homero, escreverá a odisseia das redes. Hermanos e suíços jogam neste sábado (11/7), às 22h, em Kansas City, nos EUA. Os companheiros ajudarão Messi, como disse o meia Paredes: “Nós jogamos para que o último jogo dele não chegue nunca.”
Nas oitavas, a alviceleste esteve por um triz. O Egito, liderado por Mohamed Salah, vencia o jogo até o fim do 2º tempo. Parecia apenas questão de o árbitro determinar o fim para que a Argentina saísse da Copa. Mas veio Messi, genial e certeiro. Cedo demais para dizer adeus.
Cruzada na área, a bola roçou a cabeça do zagueiro Cuti Romero. Os faraós, apesar do revés, seguiam à frente: 2 a 1. Poucos minutos depois, lá vem Messi de novo pela direita, driblou um egípcio, deixou o outro para trás, ambos a olhá-lo, e então Lautaro Martínez apareceu.
Quase houve o empate. Aos 38 minutos, numa coreografia plástica, o camisa 10 arriscou um chute na grande área. A bola, um tanto casmurra, beijou as mãos do goleiro Mostafa Shobeir, como se estivesse se desculpando e até mesmo se despedindo por ir para o fundo das redes.

Soco no ar
Messi, na hora, ficou eufórico. Durante a comemoração, correu à bandeirinha de escanteio. Os companheiros chegaram, abraçaram-no. Mão direita fechada, socou o ar. Repetiu o gesto. “Na hora, um único nome me veio à mente: Pelé”, afirmou, extasiado, o cronista Luís Curro.
Em termos plásticos, não há dúvida: muito lindo. Tão emocionante quanto o tango de Carlos Gardel, esse mago das sensações, ou a prosa de Jorge Luís Borges, alicerce da literatura que se produziu na América Latina. Agora os argentinos, num ato sublime, viraram a contenda.
Lionel Messi sentia a mão de Don Diego a lhe tocar. O campeão de 86 e o herói em 2022. Duas ideias de país, de ethos distintos e de crenças opostas. No jornal “La Nación”, a escritora Laura Di Marco resumiu: “hoje queremos ser mais Messi do que Maradona.”
Nascido em 1960, El Pibe de Oro apareceu para redimir a sociedade argentina em meio à ditadura e à Guerra das Malvinas. Venceu, no estádio Azteca, na Cidade do México, o rival — os ingleses. Quando trapaceou e depois driblou todos, Dieguito logrou a sua vingança.
O oprimido, assim, batia o opressor. No intervalo, Maradona teria agitado o vestiário de seu time, segundo a biografia “Maradona: de Diego a D10S”, do jornalista espanhol Guillem Balagué: “Vamos, eles mataram nossos vizinhos, nossos parentes, estes filhos da puta.”
Messi é ídolo sem carisma populista, diz sociólogo

Professor na Universidade de Buenos Aires (UBA), o sociólogo argentino Pablo Alabarces estrutura uma tese segundo a qual o populismo existiria a partir do carisma. Maradona, para ele, se vincula aos hinchas e, por isso, torna-se um herói nacional como Juan e Evita Perón.
Já Messi, diz Alabarces, não possui nenhuma dessas representações. No máximo, ele traçou a tal jornada do herói, desde a ascensão no Barcelona, nos anos 2000, até o fracasso na Copa América, em 2016, com a camisa argentina. Esse episódio, aliás, o fez deixar a alviceleste.
No entanto, nada mais pesa sobre La Pulga, campeão mundial em 2022. Se Maradona é um personagem argentino por excelência, Messi conquistou o que antes lhe faltava e parecia pertencer apenas a Diego: um enredo épico. Lembre-se, ora, do que fez contra os egípcios.
Bom moço, Lionel Messi é um self made man capitalista. Enquanto El Pibe de Oro virara ídolo do Napoli, time do sul italiano, o pupilo brilhou com o azul e o grená. Depois, em fim de carreira, escolheu os Estados Unidos, sem nunca ter disputado uma Libertadores.

Um e outro
Mas Messi é, como assinala o jornalista Federico “El Negro”, da ESPN argentina, “o que gostaríamos de ser. Maradona, por sua vez, é o que somos”. Os títulos têm mudado a sua relação com a sociedade argentina, bem como o levaram a ser um ídolo histórico do futebol.
A Copa de 2026 fez Gabriel Batistuta repensar sua opinião. “Eu vivi o Diego, sonhei com o Diego. Ele sempre foi meu ídolo e sempre achei que o Messi estava abaixo”, disse ao podcast “Futebol Legends Talk”. “Mas o que ele está fazendo agora me deixou cheio de dúvidas.”
Batistuta, o Batigol, continua: “É impressionante. Ele [Messi] tem 38 anos e joga com uma naturalidade que parece ter 20. Tem uma fome de vencer que está me convencendo. Então, não vou escolher nenhum dos dois.” O atacante conviveu com Maradona na Copa de 94.
Diante de si, neste sábado (11/7), Lionel Messi terá o mesmo adversário de 2014: a Suíça. Naquele jogo, disputado na Arena Corinthians, a Argentina despachou os europeus por 1 a 0. O gol, de Ángel Di María, teve passe de um certo Messi. De novo, ele é a esperança.