Neymar virou o culpado de sempre, mas os fatos contam outra história
Léo Carvalho
Publicado em 6 de julho de 2026 às 11:03 | Atualizado há 1 hora
Erros pontuais de outros jogadores não impediram que o debate pós-jogo voltasse a se concentrar no camisa 10 da Seleção | Foto: Reprodução
Quando o Brasil perde, há um roteiro que parece nunca mudar: basta Neymar aparecer em campo para que parte da discussão termine sobre ele. A eliminação para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 repetiu esse velho hábito.
Mas os fatos não acompanham a narrativa.
Neymar começou a partida no banco por decisão de Carlo Ancelotti. Entrou apenas no segundo tempo, mudou a dinâmica ofensiva da equipe, sofreu a pressão da marcação, converteu o pênalti que teve e ainda protagonizou um duelo psicológico com o goleiro Ørjan Nyland, que admitiu após a partida ter tentado “entrar na cabeça” do brasileiro antes da cobrança. O camisa 10 respondeu da melhor forma possível: fez o gol.
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Mas a grande verdade é que a Argentina montou sua seleção para potencializar Lionel Messi. A França faz o mesmo com Kylian Mbappé. Portugal organizou seu jogo durante anos em torno de Cristiano Ronaldo. O Brasil, ao contrário, levou o maior artilheiro de sua história para a Copa e o transformou em opção para o segundo tempo.
O pênalti desperdiçado que acabou pesando para a eliminação, porém, foi cobrado por Bruno Guimarães. O gol perdido cara a cara com o goleiro foi de Endrick. Outro gol desperdiçado veio em um chute cruzado de Casemiro, quando poderia ter feito o passe ou batido para o gol antes de levar a bola mais ao fundo. Ainda assim, novamente o foco de boa parte do debate público recaiu sobre Neymar.
Enquanto isso, as decisões de Carlo Ancelotti passaram quase despercebidas por muitos comentários. Foi o treinador quem optou por deixar o maior jogador brasileiro da geração no banco em uma partida eliminatória. Foi dele a escolha dos jogadores e da estratégia adotada diante da Noruega. Após o jogo, o próprio italiano justificou a postura cautelosa da equipe e defendeu a escolha de Bruno Guimarães para a cobrança de pênalti.
Os números ajudam a colocar a discussão em perspectiva.

Neymar encerra sua trajetória na Seleção Brasileira como o maior artilheiro da história da equipe, com 80 gols em 130 partidas, além de 58 assistências. Nenhum brasileiro marcou mais vezes pela seleção principal.
Mesmo assim, a cobrança sobre ele parece seguir um padrão diferente daquele aplicado a outros protagonistas da história recente da Seleção. Quando vence, o mérito costuma ser coletivo. Quando perde, Neymar frequentemente ocupa o centro das críticas, independentemente do contexto da partida.
Isso não significa afirmar que sua carreira foi perfeita. Ela foi marcada por lesões, oscilações, decisões extracampo questionadas e expectativas gigantescas. Mas também é impossível ignorar que, durante mais de uma década, foi ele quem decidiu partidas, bateu recordes e assumiu o protagonismo de uma seleção que raramente encontrou outro jogador capaz de exercer o mesmo papel.
A derrota para a Noruega expôs problemas muito maiores do que um único atleta: um projeto esportivo que segue sem identidade, escolhas técnicas contestadas e uma equipe que voltou a decepcionar em um Mundial. A própria repercussão internacional destacou as opções de Ancelotti e o desempenho coletivo brasileiro como alvos centrais das críticas.
Criticar Neymar é legítimo. Transformá-lo, mais uma vez, no único responsável por um fracasso coletivo é ignorar aquilo que aconteceu dentro de campo. Os números permanecem. A história também. E ambas colocam Neymar em um lugar que nenhuma manchete consegue apagar: o maior goleador que a Seleção Brasileira já teve.