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‘Zico: O Samurai de Quintino’ revela dramas do eterno camisa 10. Veja trailer

Redação Online

Publicado em 20 de agosto de 2026 às 20:31 | Atualizado há 1 hora

Zico brilhou no Flamengo desde cedo, mas havia dúvida se ele seria jogador de futebol | Foto: Divulgação
Zico brilhou no Flamengo desde cedo, mas havia dúvida se ele seria jogador de futebol | Foto: Divulgação

Marcus Vinícius Beck

Mesmo que muitos anos tenham se passado, Zico lembra daquele dia no estádio Jalisco, em Guadalajara, pela Copa do Mundo de 1986. “Não deveria ir”, revela o brasileiro, aceitando a sua fragilidade física naquelas quartas de final no México. “Eu achava que iria melhorar.”

O camisa dez sofrera uma entrada violenta do defensor Márcio Nunes, do Bangu, em 29 de agosto de 1985, durante um jogo do Campeonato Carioca. Com o joelho machucado, ficara fora dos gramados e acabara prejudicado para a próxima Copa, a de 1986, aquela na qual viria a perder o pênalti. Zico jamais se esqueceu daquela tarde ensolarada de 21 de junho.

Foi uma falha dramática, como constatamos pelo filme “Zico: O Samurai de Quintino”, do cineasta João Wainer, já disponível no Globoplay. O craque flamenguista reconhece que o capítulo enxovalhou a sua biografia, embora se recuse a assumir a culpa — pois, segundo a fita documental, os erros assolam até mesmo os seres dotados de dinâmica física e rítmica.

“Pode não ser um jogador perfeito…” É Jorge Ben Jor na vitrola imaginária deste jornalista, com “Camisa 10 da Gávea”, samba-funk de 1976. O som mental recebe pausa momentânea para os gols, as faltas e as jogadas. Cada toque é um deleite aos apaixonados por esse jogo.

Zico era criativo, essencialmente técnico, mestre da objetividade. Driblava, passava e, claro, finalizava. Na terminologia antiga, atuava como ponta-de-lança e recuava ao meio-campo. Quando recebia a bola, tabelava e colocava o companheiro em boas condições. Anotava gols bonitos, de todas as formas e estilos. Jogava como um dez, do mesmo jeito que o Rei Pelé.

Perfeição

“O Samurai de Quintino” mostra lances perfeitos: de bola parada, driblando um, entortando dois, batendo com o pé esquerdo (sendo Zico destro), de chapa, com o peito do pé. Às vezes, o craque deixava o goleiro sem reação, como que a desmoralizá-lo. Podia controlar o tempo, ajeitando o corpo e esperando para receber a bola. Marcava de cabeça, sem nenhuma firula.

Chega a ser repetitivo: Zico tem a bola dominada, Zico arranca pelo campo, Zico entra na defesa adversária. Zico era um cientista do gol e, como tal, Zico trabalhava até melhorar a sua técnica. Zico diz, no doc, nunca ter perdido um voo. Zico é, sem dúvida, profissional.

Há outra jogada, mais plástica, pelo Kashima Antlers. Zico, conforme o filme, passa da bola, mas tenta recuperá-la se projetando à frente. Na sequência, manda a redonda ao fundo das redes — e esse é, para o craque, o gol mais bonito de sua carreira, uma bela obra nipônica.

A película perfila o ídolo a partir de depoimentos. Personagens próximos a ele, tais como Júnior, Paulo César Carpegiani, Carlos Alberto Parreira e Ronaldo, rebobinam na memória os feitos em campo do flamenguista. O Fenômeno afirma ter no camisa dez da Gávea a sua maior referência futebolística: “de velocidade, de obsessão por gols, de jogar sem firula.”

‘Samurai de Quintino’ atravessa desafios e glórias de Zico

Ídolo brilhou com a camisa rubro-negra em 732 partidas | Foto: Globoplay

Sob o som do violão sincopado de Jorge Ben Jor, a fita desfila entre dribles e gols. A esposa Sandra e os filhos reabrem os baús da família, enquanto o jornalista Mauro Beting, autor da biografia “Zico 70”, explica jogos e momentos decisivos para o Samurai de Quintino. Algo parecido faz o radialista José Carlos Araújo, o “Garotinho”, que narrou partidas do craque.

Zico, no entanto, já havia dito a jornalistas — durante a pré-estreia do doc no Rio, em março — que não ocorreram “só fatos felizes”. Segundo o craque, as dificuldades já eram muitas desde o início. “Havia dúvida, interrogação se eu ia conseguir ser jogador ou não. O filme já começa com isso, né? Que eu era raquítico, que eu era desdentado, que eu era magrinho.”

“Era normal que houvesse no Flamengo uma incerteza em relação a se eu ia ser jogador ou não”, recorda-se, na coletiva de imprensa. Mauro Beting declara, agora em depoimento, que Mário Jorge Lobo Zagallo teria brecado a estreia do jovem prodígio. Só veio a se destacar em 74, segundo Beting, pois Zagallo assumiria a Seleção Brasileira no Mundial daquele ano.

Zico (à direita) é perfilado em depoimentos de amigos do mundo esportivo | Foto: Divulgação

Seleção

Com o time nacional, Zico jogou três Copas do Mundo: 78, na Argentina; 82, na Espanha; e, claro, 86, no México. Nos anos 70, tempos de ditadura e de perseguições, o jogador acabou cortado da Seleção que disputaria os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. A medida, a julgar pelo doc, deveu-se à atuação política do irmão Nando, preso e fichado pelo regime.

A montagem do filme, assinada por André Felipe Silva e João Wainer, salta no tempo, indo e vindo pela carreira do Samurai de Quintino: joga com as cores do Flamengo, veste a camisa da Udinese e, sobretudo, a do Kashima Antlers. Júnior diz que o time rubro-negro enfrentou forte pressão política e lutou contra a violência do Cobreloa na final da Libertadores, em 81.

Segundo o lateral-esquerdo, o ditador Augusto Pinochet apanhou o microfone do Estádio Nacional, em Santiago, e referiu-se ao clube chileno como “pátria de chuteiras”. O clima, em campo, tornou-se hostil. Ao fim da partida, o Flamengo foi derrotado por 1 a 0, mas ganhou a América na terceira partida, no Estádio Centenário, em Montevidéu. Zico fez os dois gols.

“Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer.” Jorge Ben Jor solta a voz na tela. Este jornalista repaginou seu interesse pelo Galinho — e olhe que ele é corinthiano, maloqueiro e sofredor.


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