Internacional

Berlim cancela aula para crianças negras após pressão da extrema direita

Fernando Henrique - Estágio DM

Publicado em 16 de agosto de 2026 às 16:38 | Atualizado há 1 hora

Piscina pública temporária instalada diante do Volksbühne, em Berlim, tornou-se centro de uma polêmica sobre racismo e discriminação | Foto: Reprodução
Piscina pública temporária instalada diante do Volksbühne, em Berlim, tornou-se centro de uma polêmica sobre racismo e discriminação | Foto: Reprodução

Uma piscina pública montada em uma praça árida durante o verão berlinense. Era para ser uma provocação, mas nem o idealizador do projeto, Matthias Lilienthal, imaginou que a coisa poderia se transformar da noite para o dia em palco para a extrema direita alemã.

E, no calor de uma discussão pública sobre racismo, em terreno escorregadio para conservadores e até para parte da imprensa do país. Reservar o local para uma aula de natação apenas com crianças negras seria “racismo reverso”?

O debate consumiu uma Berlim aprisionada por sucessivas ondas de calor e em ritmo pré-eleitoral, na semana passada. A cidade-estado se prepara para eleições em setembro, com prognóstico de vitória de partidos de esquerda, dias depois de a AfD, a sigla populista de extrema direita, segundo as pesquisas, chegar ao poder estadual em Saxônia-Anhalt, fato inédito no pós-guerra.

Piscina pública vira centro da disputa

Piscina montada em frente ao teatro Volksbad em Berlim | Foto: John Macdougall/AFP

No meio de tudo isso, a “Volksbad” (banho público), instalação temporária de 25 m de comprimento, 1,3 m de profundidade e 200 mil litros de água, montada na frente do Volksbühne, um dos teatros mais importantes da cidade, já parecia antes mais do que uma brincadeira diante do calor recorde da temporada.

Lilienthal, novo diretor artístico do teatro, decidiu consumir no projeto cerca de EUR 300 mil (R$ 1,8 milhão), dinheiro de uma montagem teatral de porte, como uma espécie de manifesto.

“Em uma cidade onde a infraestrutura foi sistematicamente desmantelada nas últimas décadas e os espaços públicos são cada vez mais comercializados e controlados, a Volksbad é uma intervenção urbana da nova gestão e um convite de verão à capital”, explica o teatro em seu site.

A provocação está no fato de o Volksbühne ser uma instituição pública, que funciona com recursos públicos, porém com gestão independente. Usar parte de seu orçamento limitado para trazer alívio e diversão à população pode ser discutível, mas não deixa de expor o poder público e sua crescente falta de foco diante das demandas da população.

Provocações de lado, a “Volksbad” existirá por oito semanas de maneira gratuita e mediante reserva. E funcionando como uma das 67 piscinas públicas de Berlim, dona de umas das maiores estruturas do gênero na Europa, com diversas regras de uso.

Os horários da manhã, em geral, são reservados a clubes de natação, que ensinam o esporte. Assim seria na semana passada com uma associação social que combate o racismo, a Eote, ou Each One Teach One (Cada Um Ensina Um), que levaria crianças negras de 6 a 14 anos ao espaço.

Polêmica sobre aula exclusiva para crianças negras

Aludindo à reserva, Aileen Weibeler, vereadora distrital da CDU, partido do primeiro-ministro, Friedrich Merz, fez uma postagem que viralizou nas redes sociais. Reclamava que se sentia discriminada por ser branca e não poder nadar no local.

O assunto chegou rapidamente à boca da alta política alemã: Alice Weidel, colíder da AfD, classificou a situação como apartheid; Stefan Evers, candidato da CDU à Prefeitura de Berlim, afirmou não apoiar “a divisão de pessoas com base na cor da pele”.

Jornais conservadores, como Die Welt e Bild, o tabloide mais popular do país, alargaram ainda mais o debate. Não adiantou muito o diretor artístico lembrar que estava seguindo uma lei antidiscriminação de Berlim.

“Todas as piscinas fecham por meio período para clubes de natação, e é isso que estamos fazendo. E estamos tentando implementar a lei estadual antidiscriminação de forma exemplar, que estipula que espaços especiais devem ser oferecidos a pessoas que sofrem discriminação”, afirmou Lilienthal à imprensa alemã.

A Eote tinha uma reserva de horário, assim como uma associação que apoia moradores de rua e os levaria à piscina e o grupo ativista que defende a liberação da natação no rio Spree, que banha a cidade, uma reivindicação de décadas. Apenas a primeira virou polêmica.

Aula é cancelada após intimidações

A sessão de natação foi cancelada pelo teatro e pela Eteo por receio de atos de hostilidade contra as crianças. A associação foi alvo de intimidações e estuda medidas jurídicas. “Ameaças de violência contra um projeto artístico são tão inaceitáveis quanto ameaças a vozes críticas”, declarou Evers, recuando de sua posição após sofrer críticas de seus adversários eleitorais.

“Não recebemos nenhuma ameaça direta de violência, mas ontem à tarde havia 20 blogueiros de direita filmando do lado de fora do prédio”, declarou Lilienthal, que pediu a presença da polícia no teatro, na sexta-feira (14).

A “Volksbad” acabou ficando fechada por dois dias, fazendo com que críticos mais à esquerda acusassem o diretor artístico de estar cedendo às pressões dos extremistas de direita. Em resposta a eles e a todo mundo, funcionários do teatro colocaram uma grande faixa na lateral da instalação: “Vão se foder”.

Lilienthal afirmou que está trabalhando para retomar a programação original. “Vamos avaliar as opções: quais objeções políticas existem, que proteção podemos oferecer? Mas encontraremos soluções.” (José Henrique Mariante/FOLHAPRESS)


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