Escada rolante consertada e tensão diplomática marcam Assembleia Geral da ONU
Heloysa Camilo - Estágio DM
Publicado em 21 de setembro de 2026 às 10:15 | Atualizado há 33 minutos
A 81ª Assembleia Geral da ONU reúne líderes mundiais em Nova York em meio a guerras e tensões diplomáticas | Foto: REUTERS
A famosa escada rolante da sede das Nações Unidas, em Nova York, está novamente pronta para receber os líderes mundiais. O equipamento ganhou atenção internacional no ano passado, quando apresentou um problema enquanto Donald Trump se dirigia ao salão da Assembleia Geral. O episódio levou o presidente americano a acusar a organização de sabotagem.
Às vésperas da nova Semana de Alto Nível, o secretário-geral da ONU, António Guterres, garantiu que foram tomadas medidas adicionais para evitar novos problemas no equipamento. A declaração foi feita na última coletiva de imprensa antes do início dos principais debates da Assembleia.
Mais do que uma curiosidade envolvendo o acesso ao plenário, a escada se tornou uma lembrança de uma edição marcada por atritos entre Trump e a organização. Agora, a ONU volta a concentrar centenas de chefes de Estado, de governo e diplomatas em um cenário internacional ainda mais complexo.
A 81ª sessão tem como tema “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”. O debate geral ocorre de 22 a 28 de setembro e coloca no centro das discussões assuntos como guerras, mudanças climáticas, desigualdade, governança digital e inteligência artificial.
Trump, Lula e encontros nos bastidores
Além dos discursos oficiais, a Assembleia Geral funciona como um dos principais pontos de encontro da diplomacia internacional. A concentração de autoridades em Nova York abre espaço para reuniões bilaterais, negociações e conversas informais que podem ocorrer paralelamente ao calendário oficial.
Donald Trump terá uma participação de destaque na programação. O presidente americano deve se reunir com líderes do Golfo para discutir questões relacionadas ao Oriente Médio, enquanto outros encontros diplomáticos devem movimentar os bastidores da semana.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também está entre os principais nomes da programação. Como manda a tradição, o Brasil será o primeiro país a discursar no Debate Geral, seguido pelos Estados Unidos. A prática é mantida desde 1955 e coloca o presidente brasileiro em posição de destaque logo na abertura dos pronunciamentos.
A programação também deve incluir reuniões relacionadas às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, além de conversas sobre a situação entre israelenses e palestinos.
Ausências chamam atenção
A lista de participantes também evidencia algumas das divisões da atual diplomacia internacional.
Quase 130 chefes de Estado e de governo devem participar presencialmente da Semana de Alto Nível. Ao mesmo tempo, alguns dos principais atores internacionais estarão ausentes. O presidente chinês Xi Jinping, por exemplo, não deverá participar presencialmente da Assembleia, enquanto a China será representada por outro alto funcionário. A Rússia também não terá Vladimir Putin em Nova York.
A ausência dos líderes de duas das principais potências mundiais alimenta discussões sobre o espaço ocupado pela ONU na diplomacia contemporânea, especialmente em um momento em que grandes decisões também são negociadas diretamente entre governos.
Guterres afirmou que gostaria de contar com a presença de Xi, mas disse não ver motivo para questionar o compromisso chinês com o multilateralismo e com uma ordem internacional que tenha a ONU como centro.
Conflitos dominam agenda
As guerras em diferentes regiões do mundo estarão entre os assuntos mais sensíveis da Assembleia. Ucrânia, Oriente Médio, Irã e outros conflitos devem aparecer nos discursos dos líderes e nas reuniões paralelas.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky também tem encontros previstos durante sua passagem por Nova York. A presença de representantes russos e ucranianos na mesma semana cria mais uma oportunidade para contatos diplomáticos, ainda que as divergências entre os dois lados permaneçam profundas.
A questão palestina também terá espaço importante. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, está previsto para discursar, mas deverá participar por videoconferência após não conseguir autorização para entrar nos Estados Unidos. A situação aumenta a tensão em torno da participação palestina na Assembleia.
Também está prevista a presença de uma delegação iraniana, incluindo a possibilidade de participação do presidente Masoud Pezeshkian. O contexto ganha peso adicional diante do envolvimento direto de Estados Unidos e Irã em confrontos recentes.
Inteligência artificial ganha protagonismo
Se as guerras continuam no centro da agenda internacional, a inteligência artificial aparece como um dos temas que devem definir o futuro da organização.
Guterres tem defendido a criação de mecanismos internacionais para lidar com os riscos e as oportunidades associados à tecnologia. A programação da Semana de Alto Nível inclui debates sobre governança digital e IA, enquanto o Conselho de Segurança também terá uma reunião dedicada ao assunto.
A ONU vem tentando ampliar sua atuação na discussão sobre o desenvolvimento responsável da tecnologia, especialmente diante de preocupações relacionadas a desinformação, segurança, desigualdade de acesso e uso militar.
A própria presidência da 81ª Assembleia colocou a inteligência artificial entre seus pilares de atuação, ao lado de temas como paz, desenvolvimento sustentável, reforma do sistema multilateral e governança global.
Última Assembleia de Guterres
A edição de 2026 também tem um significado especial para António Guterres. O português está nos meses finais de seu mandato como secretário-geral da ONU, cargo que ocupa há uma década.
A sucessão de Guterres deverá ser um dos assuntos políticos acompanhados de perto durante a Assembleia. O processo ocorre em um momento em que a organização discute como modernizar sua estrutura e recuperar capacidade de atuação diante de conflitos e crises simultâneas.
O secretário-geral também pretende deixar sua marca na discussão sobre inteligência artificial. Em declarações recentes, Guterres voltou a defender a necessidade de cooperação internacional para estabelecer parâmetros de segurança e governança para a tecnologia.
ONU enfrenta desafio financeiro
Outro problema que acompanha a Assembleia é a situação financeira da organização.
A ONU atravessa um período de restrições orçamentárias e dificuldades para receber integralmente as contribuições dos países-membros. Os Estados Unidos, principal financiador individual da organização, fizeram recentemente um pagamento de centenas de milhões de dólares, mas ainda existem valores pendentes.
A questão financeira se soma às discussões sobre uma possível reforma da instituição. O debate envolve desde a estrutura do Conselho de Segurança até a necessidade de tornar a ONU mais eficiente diante de novos desafios internacionais.
Uma semana decisiva para a diplomacia
Com quase 130 chefes de Estado e de governo previstos, a Semana de Alto Nível transforma Nova York novamente no principal ponto de encontro da diplomacia internacional.
Em meio às guerras, à disputa entre grandes potências, à crise de confiança nas instituições multilaterais e ao avanço acelerado da inteligência artificial, a Assembleia Geral terá de conciliar posições muito diferentes.
O próprio tema escolhido para a 81ª sessão resume o desafio: restaurar a confiança e administrar as transformações para que a organização continue sendo um espaço capaz de reunir países que, em muitos casos, estão em lados opostos das principais crises mundiais.
