Rússia faz maior exercício nuclear desde o fim da Guerra Fria
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 19 de maio de 2026 às 10:47 | Atualizado há 2 meses
Exercício militar da Rússia reúne milhares de soldados e armamentos estratégicos em meio à guerra na Ucrânia | Foto: Contributor/Getty Images
A Rússia anunciou nesta terça-feira (19) o maior exercício de simulação de guerra nuclear desde o fim da Guerra Fria, em 1991. Por três dias, as forças estratégicas de Vladimir Putin irão treinar mobilização e combate “sob ameaça de agressão”, informou o Ministério da Defesa russo.
A operação mobiliza 64 mil militares e cerca de 7.800 equipamentos bélicos, incluindo mais de 200 lançadores de mísseis, 140 aeronaves, 73 navios e 13 submarinos. Pelo tamanho da estrutura, o exercício é apontado como o maior já realizado pela Rússia no período pós-soviético.
A ação reforça a estratégia recorrente de Putin de usar o arsenal nuclear como instrumento de pressão geopolítica desde o início da invasão da Ucrânia, em 2022. Na ocasião, o presidente russo advertiu os países da Otan, aliança militar liderada pelos Estados Unidos, a não entrarem diretamente no conflito.
Embora o discurso nuclear tenha retardado o envio de armamentos ocidentais mais avançados para Kiev, o apoio militar à Ucrânia acabou sendo ampliado ao longo dos últimos anos. Ainda assim, o temor de uma escalada para uma possível Terceira Guerra Mundial continua afastando uma participação direta da Otan na guerra.
Conflito na Ucrânia aumenta tensão
O anúncio ocorre em um momento de pressão para Moscou no campo de batalha. Apesar de vitórias pontuais, as forças russas não conseguiram alcançar o avanço decisivo prometido pelo Kremlin para este ano.
Nos últimos dias, Rússia e Ucrânia realizaram alguns dos ataques aéreos mais intensos desde o começo da guerra. Nesta terça-feira, quatro pessoas morreram no norte da Ucrânia. Já no fim de semana, Moscou também registrou ataques diretos em seu território.
O cenário internacional também mudou após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concentrar esforços na crise do Oriente Médio. A medida acabou favorecendo economicamente a Rússia, principalmente após a flexibilização de restrições sobre a venda de petróleo russo.
Com isso, a receita de Moscou com exportações de petróleo dobrou em abril em comparação ao período anterior à guerra. Em resposta, Kiev intensificou ataques contra a infraestrutura energética russa, enquanto as negociações diplomáticas seguem sem avanços.
Putin busca fortalecer posição diante da China
Nesta terça-feira, Putin chegou a Pequim para um encontro com o presidente chinês Xi Jinping, poucos dias após a visita de Trump ao país asiático. Desde o início da guerra na Ucrânia, Rússia e China aprofundaram a cooperação econômica e militar.
Mesmo com a parceria, Moscou tenta demonstrar independência estratégica diante da superioridade econômica chinesa. O Kremlin aposta no poder nuclear para reforçar sua influência dentro da aliança.
Entre os temas discutidos entre os líderes está o projeto do gasoduto Força da Sibéria 2, considerado estratégico para ampliar o fornecimento de gás russo à China.
Europa reage às manobras russas
Os exercícios militares também geraram reações imediatas na Europa. Ucrânia, Polônia e países bálticos criticaram as manobras, especialmente pela inclusão de simulações com armas nucleares posicionadas em Belarus, aliado de Moscou e vizinho da Otan.
Em 2023, a Rússia instalou ogivas nucleares táticas em território belarusso. Neste ano, Moscou também deslocou para o país o míssil Orechnik, capaz de atingir alvos em diferentes regiões da Europa.
Especialistas ocidentais ainda analisam o alcance real do exercício militar, que supera o Grom, treinamento realizado em 2019 e considerado até então o maior exercício nuclear russo desde o fim da União Soviética.
Na época, o Grom reuniu 12 mil militares, 15 navios, cinco submarinos e 105 aeronaves, além de cerca de 200 lançadores de mísseis.
Nova corrida nuclear preocupa potências
Nos próximos dias, a Rússia deverá realizar lançamentos de mísseis intercontinentais e de cruzeiro a partir de bases terrestres e embarcações militares. Segundo o Ministério da Defesa russo, o objetivo é “dissuadir potenciais adversários e testar o nível de prontidão” das forças estratégicas.
O treinamento acontece ao mesmo tempo em que os Estados Unidos realizam um teste programado do míssil nuclear Minuteman-3, lançado da Califórnia. Apesar da coincidência, os dois eventos não têm relação direta.
Na semana passada, Putin também anunciou o sucesso do teste do míssil nuclear pesado Sarmat, apontado pela Rússia como uma das armas nucleares mais poderosas do mundo.
O atual cenário internacional aumenta a preocupação com uma nova corrida armamentista. Em fevereiro, Donald Trump deixou expirar o último tratado de controle de armas nucleares entre Estados Unidos e Rússia, alegando que o acordo estava ultrapassado e não incluía a China.
Atualmente, Pequim possui cerca de 600 ogivas nucleares, número inferior às mais de 5 mil mantidas por russos e americanos.
A guerra envolvendo o Irã também ampliou os alertas internacionais sobre proliferação nuclear, diante do temor de que novos países passem a buscar armas atômicas como forma de proteção militar. (Igor Gielow/FOLHAPRESS)