Opinião Pública

A Fonoaudiologia: Uma caminhada no SUS

Redação Online

Publicado em 17 de março de 2026 às 12:57 | Atualizado há 3 meses

Por Patrícia Messias de Oliveira

No compasso do cuidado em saúde, a Fonoaudiologia que exerço não caminha em linha reta: ELA DANÇA. Dança no ritmo dos encontros, no som das vozes que se entrelaçam, nos silêncios que também comunicam. Como em um carnaval de sentidos, minha prática se constrói na travessia cotidiana entre saberes técnicos, afetos e realidades diversas, em consonância com os princípios do SUS.

Ser Fonoaudióloga no SUS é assumir o papel de quem escuta para além da fala. É reconhecer que cada sujeito traz sua própria bateria interna — marcada por histórias, territórios, culturas e vulnerabilidades. Nessa travessia, o cuidado ganha cores quando o usuário deixa de ser espectador e passa a ser protagonista do seu processo de saúde. O encontro, então, deixa de ser procedimento e se transforma em relação.Ser Fonoaudióloga no SUS é aprender a dançar com a realidade.

Às vezes o passo é leve, cheio de descobertas e conquistas. Outras vezes é mais lento, exigindo paciência, escuta ampliada e trabalho coletivo. Nesse movimento, o cuidado se tece com outros profissionais, formando uma roda de saberes onde cada área contribui para que a vida possa se expressar com mais autonomia e dignidade.Minha área de competência se expressa na promoção da comunicação como direito humano fundamental.

Ao atuar na prevenção, na reabilitação e na promoção da saúde, busco alinhar técnica e sensibilidade, compreendendo que a voz, a linguagem, a audição e a deglutição são atravessadas por determinantes sociais, afetivos e institucionais.

No SUS, esse olhar ampliado é essencial: não há cuidado integral sem escuta qualificada, nem gestão sensível sem diálogo.Como em um bloco musical, de ritmo e dança, o trabalho em equipe multiprofissional exige sintonia. Cada profissional toca seu instrumento, mas é na harmonia coletiva que o cuidado acontece.

Minha contribuição como Fonoaudióloga se dá justamente nesse entre — mediando saberes, facilitando a comunicação entre usuários, famílias e equipes, fortalecendo vínculos e humanizando processos. Entre a técnica e o afeto, a ciência e o encontro humano, a Fonoaudiologia segue seu percurso. Não é uma dança perfeita, nem coreografada. É uma dança viva, construída no dia a dia, nos vínculos que se formam e nas transformações que acontecem, muitas vezes de forma silenciosa.

Assim, meu trabalho permeia em reconhecer o outro em sua singularidade, valorizando o cuidado na diversidade dos modos de existir e se comunicar. E o encontro, essência dessa travessia, é o que sustenta minha prática: um compromisso ético, político e humano com a saúde pública, com o SUS e com a construção cotidiana de um cuidado mais justo, inclusivo e sensível às vozes que precisam — e merecem — ser ouvidas.

Como Fonoaudióloga, compreendo que a comunicação é elemento central nessa organização do cuidado e na gestão no SUS, ultrapassando a dimensão técnica, contribuindo para a escuta qualificada, o diálogo interprofissional e a mediação entre usuários, equipes e gestão.

Reconheço como desafio a permanência de processos de gestão ainda verticalizados, que podem limitar a participação dos trabalhadores e usuários. Nesse contexto, a Fonoaudiologia pode atuar como dispositivo de articulação, fortalecendo espaços de diálogo, corresponsabilização e cogestão.

Como potencialidade, destaco minha inserção no trabalho em equipe multiprofissional e na educação permanente, contribuindo para a qualificação do processo de trabalho e para práticas de cuidado mais integradas, humanizadas e alinhadas aos princípios do SUS.Assim, a Fonoaudiologia no SUS segue dançando, , passo a passo, voz a voz, entre ciência e sensibilidade, entre técnica e afeto.

Uma dança que não se faz sozinha, mas em roda, com muitos passos compartilhados, reafirmando o compromisso com o cuidado integral e com a vida, ajudando a devolver sons, sentidos e possibilidades que se expressa na comunicação humana, para que cada pessoa possa, à sua maneira, contar a própria história.

Patrícia Messias de OliveiraFonoaudióloga formada pela PUC Goiás. Especialista em Desenvolvimento Humano e Reabilitação (UFPE) e em Linguística (UFMA). Atua na Maternidade Nascer Cidadão e é especializanda em Saúde e Preceptoria pelo Ministério da Saúde/Hospital Sírio-Libanês (PSUS).

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