Opinião Pública

Sombras contemporâneas

Redação DM

Publicado em 1 de novembro de 2022 às 15:43 | Atualizado há 2 anos

Uma inquietação que tem instigado a inteligência humana é a tentativa de compreender como muitos podem votar em Jair Bolsonaro ao cargo máximo do Poder Executivo da República do Brasil.  Os que se filiam ao conjunto valorativo ocidental fundado na igualdade e na liberdade, centrados no uso da razão, evidentemente consideram inadmissível tal escolha política. Longe de tentar responder à tão complexa questão, farei alguns apontamentos levando em conta certas impressões.

Preliminarmente, penso na diminuta capacidade cognitiva da maioria dos humanos. Eis-me fazendo um recorte a partir do texto de Platão — A alegoria da caverna — e, em interpretação livre, relacionando a capacidade cognitiva com base na possibilidade do indivíduo de enxergar para além das sombras, de ver o todo, de ver o mundo real fora da caverna. Nesse sentido, o humano médio é bastante incapaz e pouco importa se ele é médico, engenheiro, porteiro, professor, pedreiro ou advogado: todos estão unidos na mesma incapacidade, salvo exceções.

Para começar a tecer os apontamentos a partir da indagação — como alguém pode votar em Bolsonaro para a presidência da República? —, faço outra: qual Bolsonaro? Isso porque vivemos um momento em que as representações do mundo são fortemente construídas no espaço virtual que é segmentado e com poucas conexões com a vida real fora dele. O Bolsonaro real, com sua história política e tudo que a cerca, o que ele realmente representa, é algo que nem sequer tangencia os diversos Bolsonaros que são criados pelos organizadores da campanha política bolsonarista. No mundo ficcional, que é tecido como se o real fosse, os algoritmos ordenam os diversos Bolsonaros de acordo com o perfil de cada indivíduo e grupo social: e as milícias digitais encarregam-se de disponibilizá-los nos seus devidos segmentos.

Em outras palavras, se dinheiro e negócios estão entre as variáveis mais importantes de sua vida e você tem perfil empreendedor e pouca empatia social, o banquete servido no seu mundo virtual será a Guedolândia, país imaginário em que vive Paulo Guedes, lugar em que a economia vai bem melhor que a dos países desenvolvidos. Será servido um Brasil cuja economia está bombando e, ao mesmo tempo, claro, as mensagens enviadas em suas redes negarão ou omitirão que, quando Lula presidiu o País, a economia crescia muito mais. Entretanto, se você é evangélica e é movida pela pauta dos costumes, pouco compreendendo qual é a função do presidente da República, nas suas mídias circularão um Bolsonaro paladino da moral cristã, conservador, fervoroso combatente da prática do aborto, da linguagem neutra, da ideologia de gênero. Logicamente que o adversário, o ex-presidente Lula, aparecerá como o idealizador da mamadeira de piroca nas escolas, como alguém que irá criar banheiros unissex, legalizará a prática do aborto e fechará as igrejas evangélicas. Evidentemente que, nesses grupos, as milícias digitais e os robôs não dispararão nada, refutando todas aquelas mentiras. E ainda: se você está com ideia única e pensa que a corrupção é o problema do País, aí haverá uma enxurrada de mensagens a alardearem que o Lula é ladrão. Claro que nesses grupos não adiantaria falar que ele foi inocentado, porquanto as milícias digitais irão desautorizar a mais alta Corte do País.  Tampouco adiantaria argumentar que o esquema de corrupção que foi comprovado teve a participação central do Partido Progressista, forte aliado do Presidente Jair Bolsonaro, e do Partido Liberal, partido atual do Presidente da República.

Enfim, os grupos são vários e os Bolsonaros apresentados digitalmente, também. Nenhum deles corresponde ao Bolsonaro do mundo real, porém é este mundo imaginário que faz os bolsonaristas — cada um com o seu próprio Bolsonaro — cerrarem fileiras com tanta veemência em apoio ao seu popular líder. A ficção construída no universo digital é a nova caverna e nela cabe mais gente que Platão poderia imaginar.

 


		Sombras contemporâneas

Fonte: Reprodução


 

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