2016
Redação DM
Publicado em 6 de janeiro de 2016 às 21:58 | Atualizado há 10 anos
Conheço três pessoas que eram muito esforçadas. Trabalhadoras mesmo. Viviam do serviço braçal, mas tinham gosto no que faziam. Por isso mesmo, faziam com qualidade. Obviamente você já deve ter percebido que isso acabou. Tempos atrás estas pessoas tiveram um parente eleito vereador. Logo em seguida, as três foram agraciadas com o cartão cidadão. Acredito que fora uma mera coincidência, mas achei relevante mencionar o parente. Ocorre que o mercado perdeu excelentes profissionais que, até a eleição do parente (ele de novo), não se enquadravam nas condições previstas para ser merecedor da ajudinha governamental. Procurei qual ministério deveria cuidar destes cartões. Não descobri. Soube que o cadastro era feito na Caixa Econômica Federal; eles também não me ajudaram. Pensei então: quem controla estes cadastros?
Por falar em Caixa Econômica Federal, ontem estive numa agência antes do expediente para sacar 20 reais. A moça me informou que não havia dinheiro nos caixas. Disse eu: são só 20 reais. Ela respondeu: O sr. pode pagar boleto, transferir, mas não sacar. Ok, disse eu meio acabrunhado sem poder pegar 20 dos meus reais. Quando cheguei à porta, ela gritou: “Não adianta ir na outra agência aqui perto, lá também não tem dinheiro.” Primeiro dia útil do ano, pensei, está na hora de fechar as portas de 2016. Um banco do governo sem dinheiro? Ah, só podem ser as pedaladas.
A Controladoria Geral da União examinou um milhão de cadastros do Incra e descobriu 76 mil lotes com irregularidades. Advirto que não foram um milhão de lotes doados, mas cadastros registrados. Eu sou capaz de dizer que há muito mais irregularidades se resolverem fiscalizar “in loco”. O representante do Incra se limitou a dizer que: “É, deve estar certo esta informação porque fora produzida pela CGU.” Insinuou que irão tomar as medidas cabíveis. Sou capaz de dizer que não irão. A menos que entre em cena um terceiro personagem, que pouco tenha a ver com os cadastros, caso do MP ou PF. E olhe lá.
O Ministério das Minas e energia tem no seu organograma uma ouvidoria, um setor de transparência administrativa, de Licitações e comitês e conselhos fiscal, etc. Sem falar na Secretaria de Petróleo e Gás natural que, subordinado ao ministério, também tem uma estrutura invejável na fiscalização. Creio que na Petrobrás não seja diferente. Então como é que o petrolão aconteceu?
Polícia Federal, Procuradoria Geral da República, Ministério Público Federal, Controladoria Geral da União, Comissão de Fiscalização Financeira, Banco Central, Comitê de Política Monetária, etc. Como é que este País tem tanta corrupção?
Na verdade, não precisaríamos de nada disto. Se os brasileiros fossem probos, sérios e retos nas suas atitudes, reduziríamos o número de problemas. Acontece que, historicamente, não somos. Aí, quando surge um problema, cria-se um órgão novo para resolvê-lo. Isto significa novos problemas e menos dinheiro.
Os órgãos criados no Brasil, todos, têm seus cadastros próprios mas não têm analistas. Informação sem análise é arquivo morto. Arquivo morto é lixo. Isto é o que temos. Se não há análise, nossas autoridades podem dizer o que quiserem, e teremos que acreditar. Meus trinta anos de experiência me ensinaram: Não creia em informação que venha de quem deve ser fiscalizado. Será falsa ou será maquiada, o que redunda na mesma coisa.
Criar órgãos fiscalizadores acalma o público, mas não soluciona nada. Então, que neste 2016 você fique mais atento, seja mais participativo e desconfie muito quando uma autoridade disser que está criando um setor, órgão, comissão ou departamento para resolver um problema. Lembre-se que este é um ano eleitoral. Isto conta a seu favor. Eleição é o único dia que você tem para, com um botão, detonar todos que estão te detonando há quatro anos. Vai na fé e tenha mesmo um ano bom.
(Coronel Avelar Lopes de Viveiros, comandante do policiamento ambiental de Goiás)