Brasil

40 Anos de “alucinação”- Parte 2

Redação DM

Publicado em 23 de novembro de 2016 às 00:43 | Atualizado há 10 anos

Apesar de se afirmar preferindo o tango argentino ao blues (Como nossos pais, faixa 3), é exatamente esse gênero escolhido como base das músicas do disco Alucinação. Notadamente se escuta violões e guitarras, que mesclados aos teclados e à percussão formam a aspereza de uma gaita dylaniana e o acordeão com toque nordestino.

O lado “B” chega com o homônimo que dá nome ao disco. Alucinação, 6ª faixa do disco, tem versos que promovem discussão, reflexão e mudança. Alucinação para além de ver coisas irreais; alucinação no sentido de impressões subjetivas, pois elas transgridem as convicções inabaláveis do cotidiano duro e cruel de um jovem retirante em busca da viva vivida.

Seus acordes e tonalidades melancólicos, as críticas duras e certeiras são disparadas contra diversos grupos e/ou esferas sociais: os profetas do otimismo, a violência, a cidade, a solidão e a essência da vida urbana (marcada pela atitude de desinteresse, blasé). Além de ter um arranjo próprio com melodias específicas, essa música homônima ao disco retrata, como mencionado, problemas específicos de uma geração de forma bastante singular, no entanto, utopicamente ele também diz: “Amar e mudar as coisas me interessa mais.”

Suas frustrações e angústias diante das expectativas de sua geração continuam musicadas em Não leve flores (faixa 7). Ao dizer “Não cante vitória muito cedo, não/Nem leve flores para a cova do inimigo,/ que as lágrimas do jovem/ são fortes como um segredo:/ podem fazer renascer um mal antigo”, o cantor-poeta nordestino afirma que ele e seus contemporâneos são retrato de uma época na qual uma corrente de pensamento, de sentimento, de emoção e de revolução era comum. Assim, eram ligados à mesma visão de mundo, que tornava semelhante a temática em algumas canções, livros, poemas, charges em um longo período da história brasileira. Ao interpretar, portanto, o passado e seus males antigos, o compositor alerta para os resquícios desse passado no presente. Nessa mesma letra, o choque entre a experiência (o trabalho e o dinheiro) e a projeção de futuro (o afastamento dos amigos e a esperança de jovens) produziu uma interpretação significativa do presente: “Tudo poderia ter mudado, sim,/ pelo trabalho que fizemos – tu e eu./ Mas o dinheiro é cruel/ e um vento forte levou os amigos/ para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos,/ e nossa esperança de jovens não aconteceu, não, não”.

Inspirada no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto, a faixa 8 é a segunda gravação de À Palo Seco. Uma canção-identidade como uma balada-blues, ela é entendida como uma repetição que mostra a ênfase na ligação com as raízes latinoamericanas. Além disso, a letra da música pode ser vista como uma espécie de poética da obra de Belchior, tendo em vista que menciona de forma metalinguística comentários sobre a criação musical: “Eu quero é que esse canto torto/ Feito faca, corte a carne de vocês.” Belchior explica o porquê de cantar situações tão áridas, críticas e incisivas, que cortam e provocam a consciência.

Em Fotografia 3×4, o cantor cearense aporta-se a Légua Tirana, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, incorporando o sofrimento físico vivenciado por ele na sua trajetória de imigração para o Sul e, tão logo, refere-se à Alegria, alegria, de Caetano Veloso. Recitada em um canto choroso e sofrível, a bela música de viés autobiográfico ressalta que que a existência do nordestino migrado para o sudeste é uma vida de combate perpétuo, não só contra os males abstratos, a miséria ou o aborrecimento, mas também contra os outros homens. Essa canção também se caracteriza por uma enunciação dupla – lírica e narrativa: “O eu-poético narra, a partir de suas lembranças e do jogo de palavras, o desconforto de sua situação de jovem migrante do nordeste brasileiro ao chegar à cidade grande, enunciada como Rio de Janeiro”, diz a pesquisadora Gislaine Silva. Nesse sentido, a letra apresenta em vários aspectos as problemáticas da migração nordeste-sudeste tal qual a discriminação, violência urbana, desigualdade social, etc. Nessa mesma canção, Belchior propõe uma nova maneira de ver o homem nordestino/migrante em relação ao seu processo de inserção na sociedade, diferentemente de Veloso, ao dizer: “Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do Norte/ e vai viver na rua.”

Diante disso tudo, é possível dizer que seu “sumiço” provavelmente não é fruto do acaso e nem tão pouco pode ser analisado sob um prisma simplista. Sabe Belchior que as interpretações históricas das circunstâncias atuais da sociedade e as expectativas de futuro da vida prática são desconstruídas pelo conflito das experiências históricas. Assim, conforme a poética do cantor e compositor, espaços para outros e novos modelos de interpretação, tanto do passado, como do presente, abrem o leque de possibilidades futuras.

Desaparecido de fãs, amigos e familiares, Belchior se encontrou consigo e está concretizando aquilo que musicou em toda sua carreira de artista de mais de 50 anos. A despedida foi feita metaforicamente na música que encerra Alucinação. A country-rock Antes do fim, com forte inspiração de Bob Dylan, é um recado-conselho no qual há uma paráfrase de Grande sertão: veredas. Assim como Riobaldo, o jagunço-narrador-filósofo criado por João Guimarães Rosa, a voz poética em Belchior reflete sobre o perigo que o viver representa, no entanto ambos veem o delírio e a alucinação do existir conquistados apenas por meio da vida encarnada, vivida e real.

Fiquemos aqui deixando a todas e todos aficcionados pela obra do velho e sumido de nós Belchior a seguinte aspiração: “Quero desejar, antes do fim / Pra mim e os meus amigos / Muito amor e tudo o mais / Que fiquem sempre jovens / E tenham as mãos limpas / E aprendam o delírio com coisas reais.”

Notas – agradecimentos:

  1. Agradeço ao cantor Jorge Mello que cedeu gentilmente as fotos aqui apresentadas e toda sua presteza diante de minhas perguntas; agradeço cordialmente as detidas correções linguísticas feitas pelo prof. Willian Junio de Andrade.

 

(João Gabriel da Fonseca, professor da rede particular de ensino e cocriador do Crimideia – vídeoaulas (YouTube). Graduado em História e Filosofia, especialista em História Cultural (UFG) e mestrando em História das Identidades e Fronteiras Interculturais (UFG). Autor dos livros: “A destruição do Leviatã: crítica anarquista ao Estado” (2014); “Escritos sobre a imprensa operária da Primeira República” (2013);“Educação e anarquismo: uma perspectiva libertária (2012)”. E-mail: [email protected])

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