Brasil

A bênção do abrigo é a maldição do albergado

Redação DM

Publicado em 26 de dezembro de 2017 às 23:49 | Atualizado há 9 anos

“Ô Josué, eu nunca vi tamanha des­graça, quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça.” (Chico Science)

Com foco na implementação das po­líticas habitacionais de interesse social, direito humano “administrado” pelos governos, a Agência ONU-Habitat traça estratégia para disseminar, entre gesto­res e cidadãos, campanhas e mensagens relacionadas ao tema do Dia Mundial do Habitat. Compare-se à cidade: “Qual se­ria a sua idade se você não soubesse quan­tos anos você tem?” (Confúcio). Se inda­gar a mente é papel do filósofo, questionar a cidade é dever do cidadão que trabalha mais de cinco meses para pagar impostos, em sua grande maioria, citadinos.

De acordo com Raquel Rolnik, mes­tre em História e Arquitetura, “por mais de duas décadas”, relatórios e documen­tos das políticas públicas (ONU-Habitat e agências multilaterais) têm enfatizado a tese de que estes deveriam se retirar do setor de habitação e “facilitar para o mer­cado”. Essa experiência europeia no pós­-guerra – com foco na moradia em larga escala a preços módicos – aparece como proposta de solução habitacional no mer­cado privado”. O plano vem sendo des­montado, desde os anos 1970, e retrata a mazela social da habitação exposta em mais de 66% das urbes mundo afora, rea­lidade de filhos que moram em condições piores que a dos pais. Histórica, a notícia faz lembrar o cacique Seatle, ao comentar sobre a habitação planetária: “Ensinará você aos seus filhos o que nós ensinamos aos nossos filhos, que a Terra é nossa mãe? O que acon­tece à Terra, acontece aos filhos da Terra. Isso nós sabemos. A Terra não pertence ao homem. O homem pertence à Terra. Todas as coisas estão ligadas, como o sangue, que nos une a todos” (século XIX). O fato se deu em 1854, quando o governo americano quis “comprar” terras indígenas.

A necessidade humana do aconchego no lar alimenta a raiz da luta pela posse da Terra, e, após 17 décadas, a expressão so­cial ligada à moradia ainda assusta países como Inglaterra, Estados Unidos e outros, com moradias precárias, situações de coa­bitação, preços proibitivos, especialmente os jovens num mundo capitalista onde as políticas públicas praticamente inexistem. O mundo financeiro-especulativo respira o colapso hipotecário de 2008, quando a bên­ção do abrigo virou a maldição do alberga­do. A moradia foi tema central da agenda eleitoral nas eleições municipais de 2015, quando números socioeconômicos retra­tam, na Espanha, 2,5% do estoque de mo­radias destinadas ao aluguel social; na Áus­tria, alcança 24%; e França, com 20%. A manchete denuncia uma “sociedade mo­derna que produziu, e ainda o faz, uma ato­mização da existência e a anonimidade ge­ral de todas as pessoas” (Leonardo Boff).

Tramada e articulada, a crise respinga nos bancos, gira seu lucro, os salva, já no auge da crise, com dinheiro público. Agora estão sendo cobrados a disponibilizar os imóveis obtidos com hipotecas executa­das, aumentando a oferta de moradia so­cial com algum controle no valor cobra­do. A massa de trabalhadores – situados e sitiados na base da pirâmide social – urge alguma mobilização que não retire, ainda mais, de seu bolso parco e da dignidade manchada pela nódoa da inanição. A pau­ta sugere discussão sobre a Terra, codifica a ética dos homens, atravessa a moral tor­nada óleo da maquinaria do lucro capita­lista, incita a revolução, remonta à fala em cena do filme O Grande Ditador, na qual o personagem Carlitos conclama: Soldados! Não vos entregueis a esses homens vio­lentos que vos desprezam e escravizam, arregimentam as vossas vidas, ditam os vossos atos, ideias e sentimentos! Que vos fazem marchar ao mesmo passo, e sub­metem a uma alimentação racionada, os tratam como um gado humano e utilizam como carne para canhão! (Charles Spen­cer Chaplin, 1899-1977).

No Brasil, o tom das políticas sociais, em geral, e da política habitacional, em parti­cular, denota um Estado neoliberal a “cair fora” da arena da inclusão social, “deixan­do” o mercado a dar conta das demandas. O resultado deste paradigma retrata a re­gressão provocada no campo da moradia, expressão socioeconômica, óbvia, tanto quanto a necessidade urgente de políticas habitacionais de interesse social. Estas, na realidade, só funcionam com investimen­tos diretos, gasto público, gestão capaz de influir na abrangência da ética, questionar a administração das organizações e suas relações com a sociedade, bebendo da res­ponsabilidade social, da ética na adminis­tração das organizações, consciente quanto às responsabilidades sociais de interesse da coletividade sobrecarregada na exacerba­ção dos impostos. Herança da Antiguidade clássica, a responsabilidade social, nos dias modernos, trata de uma ética essencial­mente voltada para as relações entre pesso­as, sem saber que a ética é uma questão de qualidade das relações humanas e indica­dor do estágio de desenvolvimento social.

Abrigos derradeiros, os cemitérios, de acordo com a urbanista Raquel Rolnik, “contam muito como as sociedades nas­cem, desenvolvem, entendem e tratam a morte. Até meados do século 19 as pessoas da elite eram enterradas dentro ou no pá­tio das igrejas, mais perto dos santos, anjos. O espaço sagrado era passagem para o rei­no dos céus, com exceção para as pessoas escravizadas ou enforcadas, enterradas no eito da liberdade eterna no céu – a Terra – do­tado, às vezes, de uma capelinha”. À época já se discutia o tema, sobretudo em função das questões de higiene, com forte oposição por parte da Igreja, que tinha nessa ativida­de uma fonte de recursos, também, pessoas cujas relações culturais com a morte e a reli­gião eram mais arraigadas e fortes.

Antes que a morte nos caia, sorrateira, leve e breve, há que refletir sobre “o me­lhor conceito que o pregador leva ao púl­pito, qual cuidais que é? É o conceito que de sua vida têm os ouvintes. Antigamente convertia-se o mundo: hoje, por que não se converte ninguém? Porque hoje se pre­ga palavras e pensamentos; antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obras são tiros sem balas; atroam, mas não ferem” (Sermão da Sexagési­ma–1655). Entre a vida e a morte, o ser hu­mano pensa e deseja um tempo soprado a dignidade, ao abrigo da inclusão, capaz de incitar a massa a manifestar-se agora, ou, calar-se para todo o sempre!

E o pulso, ainda pulsa!

(Antônio Lopes, escritor, filósofo, professor universitário, mestre em Serviço Social e dou­torando em Ciências da Religião/PUC-Goiás, mestrando em Direitos Humanos/UFG)

 


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