Brasil

A era dos diletantes

Redação DM

Publicado em 24 de março de 2016 às 00:26 | Atualizado há 10 anos

“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma.”
Joseph Pulitzer

O termo diletante vem do latim delectare, ou seja, deliciar-se com. Então eu, particularmente, tenho me deliciado com o que vem ocorrendo no Brasil nos últimos meses, ou desde a vitória da então presidente Dilma para o seu segundo mandato. Vou falar uma coisa que pode parecer absurda para a maioria das pessoas no Brasil, eu estou adorando essa crise. Eu estou me deliciando com o povo nas ruas. Sejam aqueles que defendem a Dilma e o PT, ou mesmo aqueles que execram-na.
Mas enganam-se aqueles que pensam que a crise, tenho restrições a essa palavra porque este sintagma virou a muleta para aquele que finge estar aleijado, serve para justificar o aumento do tomate, a queda da bolsa, o não reajuste salarial dos professores em Anápolis, bem como a derrota do Corinthians para o Cerro Portenho, o tropeção do Seu João na rua e a eliminação de um BBB…
Lula ministro, Lula ex-ministro. Juiz midiático, novo superstar, queridinho das elites, do mainstream. Dilma, perdida em meio ao furacão de instabilidade política que tomou conta desse país. Eduardo Cunha, manobrando na Câmara Federal para não ser cassado. Renan, com milhares de processo nas costas, se fingindo de morto. Governador Marconi Perillo, fazendo pirotecnia na segurança pública em Goiás e querendo privatizar tudo que vê pela frente. Prefeito João Gomes, parcelando o aumento salarial dos professores… Tenho me deliciado com tudo isso. Por quê? Porque tudo isso trouxe o debate, a discussão para vida das pessoas.
O brasileiro tem se interessado cada vez mais por política. É o assunto da moda. Não tem novela, jogo de futebol, BBB, religião e etc. O assunto de qualquer rodinha no trabalho, na universidade, na resenha do futebol é a crise política.
Mas mesmo diante de toda essa efervescência, essa agitação… as análises são rasas. O conceito formulado por Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, para caracterizar a atualidade, modernidade líquida, mudou a forma com que nos relacionamos com o texto, oral ou escrito. Pois, sem dúvida nenhuma, a primeira vítima dessa fugacidade da vida e da tirania do momento, do instantâneo, do agora é a linguagem, que passou a ser atenuada, empobrecida, vulgarizada e esvaziada dos significados de que seria portadora, enquanto os “intelectuais”, os cavaleiros errantes das palavras significativas e de seus significados, são suas baixas colaterais. Em resumo, carecemos de boas análises acerca do delicado momento. Falta profundidade frástica na linguagem escrita e falada nos meios de comunicação.
O mass media, na sua maioria, tem cumprido papel sórdido no sentido de, ao invés de propor análises construtivas para o momento, colocar gasolina na fogueira.
Existem países, regiões, que tem passado por conflitos e crises seríssimas, mas isso não passa por nossa imprensa. Há pouco tempo, uma pesquisa mostrava que a maior preocupação do ser humano com relação ao futuro era com a instabilidade econômica mundial. Em 2º, o terrorismo, e em 3º questão ambiental.
Na América Latina, há uma preocupação com a questão ambiental, mas não há com a instabilidade econômica mundial. Nós não temos notícias reais da crise na Europa, EUA, China e isso cria (ou é criada pela imprensa brasileira) uma crise fora de contexto. A crise brasileira é descontextualizada. Não seria papel da imprensa dar contexto para esse debate?
E nessa história os mass media criam seus heróis e elege seus vilões. Então as pessoas colocam os “heróis” no Olimpo, e atira os vilões aos leões. Recentemente um aluno escreveu numa prova: Dilma desgraçada você tem que morrer. Detalhe, ele tem 12 anos. E enquanto isso, todas as manchetes nos jornais são do tipo: A crise… Ou Apesar da crise. Então, a palavra crise está o tempo todo.
A imprensa, quando não localiza um problema maior, além de um problema cognitivo, intelectual grave dessas pessoas que ocupam os mass media, perde também a oportunidade de discutir o maior problema: nós temos uma presidente eleita, democraticamente, no meio de mandato. Que não consegue governar. Podemos debater quem esse governo representa e o que ele representa. Mas tem um fato, tem um país que tem que caminhar, que precisa caminhar.
Esse caminhar passa no modelo atual, por um diálogo com o governo. Contudo, ao invés de dialogar com o governo o que as pessoas querem fazer? Retirar o poder delegado a esse governo. E o que é pior, de maneira totalmente atropelada e golpista. Um golpe nas próprias regras que o establishment político criou.
Qualquer palavra, qualquer tentativa do governo para estabelecer um mínimo de diálogo, é peremptoriamente renegada. O governo é o vilão e não merece nem sequer ser ouvido. Na prática, eles, da oposição, estão mais interessados no poder do que no bem do país.
O governo Dilma/Lula tem erros, mas também tem acertos como qualquer outro governo. As pessoas negam os ganhos reais nas suas vidas, porque se disserem que houveram ganhos, estariam falando que o governo é ou foi um bom governo. É um debate sectário, partidário, simplório. E quem perde e vem perdendo é o Brasil.
Somos melhores que isso. Somos melhores que o PT, o PSDB, o juiz Moro, o Eduardo Cunha e outros e outras que só querem poder.
E a mídia, espera-se que essa faça um papel republicano. A crítica boa de verdade é uma construção de alternativas, o ensaio de um pensamento ou de uma ação a partir do lugar da lógica ou outra forma de conhecer ou pensar. O canibalismo verbal e mental, ou a mútua aniquilação moral, significa apenas uma coisa: a rejeição da livre discussão e sua asfixia antes mesmo de ela começar. E isso só interessa às pessoas que são inimigas do país.

(Edergênio Vieira é poeta e educador na Rede Municipal de Ensino de Anápolis. @edergenio)


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