Brasil

A estrela guia para Goiás

Redação DM

Publicado em 28 de dezembro de 2015 às 23:35 | Atualizado há 11 anos

A história da família de seu Odilon Estrela remonta à Espanha. Os seus bisavós como bons judeus resolveram aportar em terras novas. O primeiro alvo: Rio de Janeiro. Depois, Minas Gerais. Mas, o destino estava marcado: Goiás. No Século 18, seus avós paterno e materno enfrentaram o longo e árduo percurso em carros de boi para o povoado do Vai-Vem, posteriormente Entre Rios e finalmente Ipameri.

Não demorou muito para perceberam o acerto da viagem de novos bandeirantes. O rebanho começava a ocupar espaço. O sertão do São Marcos apresentava aos seus olhos como estratégica posição geográfica. Era o Triângulo Mineiro que se desmembrou da província de Goiás em 1815. A abundância de pastagens naturais e de recursos hídricos constituía chamativos fortes à criação a baixo custo.

Fincados no lugar e criando suas ramificações políticas com o Império, logo componentes da família viam o brilho de suas estrelas. O patriarca Emídio José Carneiro foi nomeado pelo imperador D. Pedro II major comandante da 3ª Seção do Batalhão da Infantaria da Guarda Nacional da Comarca do Rio Paranaíba. Esta criação ocorreu em 1831 para defender o Império.

Odilon Estrela era filho de José Benevenuto e de Maria Silveira Estrela. Estudou em colégios católicos, em Araguari, Minas Gerais, depois da conversão ao cristianismo. Este procedimento para a época concedia maior segurança ao bem-estar geral das pessoas. Como, por exemplo, certo preconceito. Sem, contudo, renegar as origens judaicas. Ao contrário, preservando a religiosidade e alguns dos costumes culturais.

Nesse meio tempo, pelo seu laborar a família já dispunha de várias propriedades rurais. Nestas condições, pode dispor dos primeiros ensinamentos com a lida no campo. Seu irmão mais velho José fazia laços de couros e de tanto ver aquela prática culminou por aprender também o novo ofício.

Do casamento com dona Maria, funcionária do Departamento de Engenharia da Estrada de Ferro na década de 40, educadora e autodidata em língua francesa, o resultado foi uma prole numerosa de nove filhos.

No seu dia a dia era um lutador. De Ipameri, em Goiás, para Araçatuba, São Paulo, comandava comitivas. Boiadas de dois mil animais eram tocadas em lombo de burro. E, finalmente, entregues a Modesto Pires, o Quinzinho. Conheceu no caminho Geraldo Gratão, gerando uma amizade admirável. Matas e rios eram transpostos. Seu Odilon se lembra do nome de alguns desses peões: Raimundo Baiano, Adolfo, Sebastião Gueroba, Chico Morais, contador de gado; Zequinha, cozinheiro.

Em sua história, ele relembra também as viagens de Ipameri para a Bahia, quando conduzia tropa de até 150 burros. Há uma passagem, até certo ponto cômica, nesse caminho passando por Planaltina, hoje Entorno do Distrito Federal. Oito peões da tropa avistaram vários pés de cagaita, frutas nativas do Cerrado, e não se contiveram. Foram com toda voracidade aos frutos e a consequência sofreram uma diarreia imediata. Resultado: a comitiva interrompeu a viagem, improvisando um acampamento.

A construção de Brasília em pleno Planalto Central constituiu em um novo capítulo na história desse sertanejo e a abertura de mercado para o “velho boiadeiro”. Cerca de 300 bois eram entregues em  média aos marchands duas a três vezes ao mês.

Em Ipameri, sua cidade natal, tornou-se competidor imbatível nas pistas do parque de exposições ao lado de grandes laçadores como Francisco Rosa, Orlando Cardoso, Roberto Estrela, entre outros. Sagrou-se campeão também em outras cidades: Formosa, Araguari, Uberlândia e Uberaba, em Minas Gerais. Ele lembra como se fosse agora. Em 1970, no Estádio Olímpico de Goiânia, venceu o 1º Campeonato Nacional de Rodeio e Laço. Os aplausos de pé num estádio lotado o emocionam como se fosse hoje.

Atualmente, seu Odilon, aos 94 anos completados no último dia 18, e dona Maria optaram pela aposentadoria e moram em Goiânia. Os oito filhos se distribuem por Ipameri, Cuiabá e Goiânia. Da vida de boiadeiro ficou apenas a saudade. Ah, ele ainda mantém acesa a chama a condição de artesão. Fabrica laços de couro para doma. Quando vai à fazenda pratica a monta para o passeio. E olhando fixo para o horizonte rememora a vida de boiadeiro que representou um dia. Quanta lição de um homem, exemplo de integridade para a família e os amigos.

Neste mundo contemporâneo, as carretas de mil transpõem os milhares de quilômetros, que percorreu no passado em lombo de burro, transportam os bois em pé com mais conforto. Ou a carne bovina em caminhões frigoríficos.

 

(Wandell Seixas, jornalista voltado para o agro, bacharel em Direito e Economia pela PUC-Goiás, assessor de imprensa da Emater-Goiás e autor do livro O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste)

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