A ilha da fantasia
Redação DM
Publicado em 18 de novembro de 2015 às 22:01 | Atualizado há 11 anosAqui onde vivo o agronegócio não produz apenas itens primários de baixo valor agregado a partir dos financiamentos públicos dos “planos safras” do governo federal e de muita mão de obra disponível e barata. Na verdade, a principal cultura que este segmento faz e refaz a seu bel prazer é o juízo da população.
Este juízo comum ou coletivo é feito e refeito a partir de uma dinâmica social e cotidiana que enfileira todo mundo e que por aqui vive. Essa “máquina socioeconômica” envolve todas as instituições, produz e reproduz a si mesmo, reproduzindo e replicando valores, comportamentos, formas de ser e estar, tipos de afeto e sensibilidades específicas.
É uma esplêndida máquina ideológica que vence resistências locais, demove críticos de suas convicções e, em nome de certo ideal de desenvolvimento (?) refunda o urbano/rural, revira sociabilidades, altera unidades e integrações existentes na cidade e tudo para a necessária lógica da proletarização de nossa pauperizada população a fim, é claro, da geração do lucro e do mais-lucro para alguns abonados locais e além-mar.
Quando vejo a muito parasitária oligarquia político-econômica de Itumbiara brindando em favor do incerto empreendimento da cervejaria holandesa e que por enquanto, são apenas intenções midiatizadas, me recordo do bordão do insuperável dramaturgo Antonio Abujamra: “Ai de mim!”
Lastimo porque não há conceito a orientar o que está sendo feito. Não é verdade que o atual padrão de industrialização e que é praticado, sobretudo, em regiões colonizadas ou neocolonizadas do mundo como o Brasil visa o bem-estar social, a qualidade de vida e o resguardo do meio ambiente. A experiência histórica conta em contrário.
Achar que o assalariamento rígido, burocratizado e subjetivamente controlado trará “desenvolvimento” para uma população historicamente massacrada pelo insuspeito e usurário instituto do latifúndio local e predominante; pelo mal-estar de conviver com oligarcas vaidosos, agressivos e que só funcionam na corrupção de valores públicos e sociais; pela deletéria qualidade dos serviços públicos e que são disponibilizados ao populacho e, enfim; pela predação ambiental que se intensifica dia após dia, é de um cinismo sem-fim, de uma alienação e desconhecimento planetário ou coisa do PSDB et caterva.
Quando vi o “exterminador de futuros” Marconi Perillo (PSDB) com a banda político-oligárquica predominante de Itumbiara brindando “intenções”, “desejos” e “sonhos” acerca da gigante cervejeira já identifiquei o combinado político-econômico do poder dominante e essencial para as estrategias eleitorais de Itumbiara, se realizando.
Não tem outra é contar com o ovo no c… da galinha!
E desse movimento vem as extrapolações! Que irá gerar mil, dois mil, três mil e até cinco mil empregos diretos e indiretos. Só queria entender essa metodologia de geração de postos de trabalho ou ocupações. Puro discurso, nada além disso!
Talvez com algum estudo tudo ficasse mais fácil. É que uma empresa globalizada como essa holandesa da cerveja não pode ter como base e horizonte a geração de empregos. Ao contrário, se tal empresa se torna global é exatamente porque articula protecionismo lhe garante força e condição de crescimento; amplos e generosos financiamentos públicos; alta tecnologia e seu respectivo aprimoramento o que implica diretamente na redução dos seus custos o que quer dizer: menos emprego.
Não é que essas pessoas sejam más. Não é isso!
É que há uma determinação econômica planetária que exige competitividade, portanto, redução dos custos de produção para que o preço final do produto caia, seja o mínimo possível para fins de disputa comercial. A macroeconomia dialoga com a microeconomia e no mundo do consumo privado e restrito a lei é: qualidade e preço baixo. É isso que manda e impera!
Até as crianças sabem que são as micro e pequenas empresas que geram empregos no Brasil. Esses empregos acontecem porque os padrões tecnológicos destes micro e pequenos negócios é baixo ou muito baixo, daí, não tem jeito, são necessários mãos e braços humanos para a realização da produção.
Vejam pequenos bares, restaurantes, comércios… Já viram algum robô operando por lá? Já viram uma linha de produção informatizada no “boteco do seu Zé” lá na “Vila Papel”? Já viram algum ciborgue fazendo sanduíche no “pit-dog” da pracinha?
Então… São grandezas inversamente proporcionais. Quanto mais tecnologia, menos empregos; quanto menos tecnologia, mais empregos. Essas “micro e pequenas” empregam gente por metro quadrado. Não casualmente, existe o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para garantir alguma assessoria, apoio e acompanhamento a esses.
Não tenho a menor dúvida! A prospecção desse possível investimento é, até o momento, uma mera estrategia eleitoral, um discurso fácil para que a oligarquia local consiga votos e siga se perpetuando cronicamente no poder municipal. a ideia é dar continuidade ao caos administrativo e que representa o vaidoso José Gomes da Rocha e sua atabalhoada trupe.
Não tenho a menor dúvida de que é do que se trata!
(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)