A ilusão da salvação pela graça
Redação DM
Publicado em 1 de dezembro de 2015 às 00:13 | Atualizado há 11 anosUm conhecido meu, avesso a qualquer ideia de espiritualidade, espera se esquivar da justiça divina com as mesmas artimanhas que tem utilizado para ludibriar a justiça terrena. Com este objetivo, para que Deus perdoe suas falcatruas e adultérios, imagina em se converter a uma das várias religiões tradicionais que aceitam e pregam a salvação pela graça. Ao entrar na velhice, pensa que bastará se arrepender, pedir perdão a Deus , encomendar algumas orações e pronto: se não for para o céu pega no máximo um purgatório mais suave e transitório. Afinal, Jesus teria morrido na cruz para pagar pelos pecados de todos nós, incluindo os bilhões de criaturas que viveram há dois mil anos e de lá para cá, até os dias de hoje. Quer dizer, o justo paga pelo pecador, até por antecipação, e Deus ingenuamente aceita essa troca com toda a indiferença.
Quanta simploriedade nessa crença!… Até faz lembrar um outro costume, vigente quando Jesus andava na Terra. Naquele tempo, Deus perdoaria os erros humanos através do sacrifício de bois, ovelhas e pombas pelos sacerdotes de Jerusalém. Se o pecado era cabeludo, se a falta fosse grande, a oferenda tinha que ser um animal de grande porte, como um boi, para que Deus se desse por satisfeito. Entretanto, se o pecado fosse de porte médio, um ato de corrupção contra o dinheiro público, por exemplo, aí o sacrifício de um carneiro já resolveria a situação. E se fosse um roubozinho menor, aí o abate de uma pombinha rola era o suficiente para aplacar a suposta ira divina. Todo o questionamento que pudesse ser levantado contra essa incoerência era então proibido e considerado heresia. Os homens estavam impedidos de raciocinar e de expressar a sua desconformidade. A fé era imposta pelo medo, ou crê ou morre.
Entretanto, como Jesus assegurou, “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. (Evangelho de João, 8:32). Libertará de que? Do erro, da ignorância e das vidas sucessivas pois, uma vez resgatadas as nossas faltas e aprendida a lição do perdão e do amor ao próximo, não teremos mais a necessidade de reencarnar no plano material. O filósofo francês Leon Denis, contemporâneo e divulgador das ideias de Kardec, em seu livro “Depois da Morte” nos revela que todos ensinos religiosos estão ligados entre si numa única doutrina. Mas, seu sentido mais profundo não era transmitido ao povo, ao contrário do que se faz hoje na prática espiritualista. Unicamente os sacerdotes tinham acesso às verdades eternas. Ensinavam somente o que lhes convinha para se manterem no poder, reservando aos chamados “iniciados”, futuros sacerdotes, a realidade do mundo espiritual. E se algum deles cometesse indiscrições, pagava com a própria vida.
No filme brasileiro “O Auto da Compadecida”, o ator Lima Duarte representando o papel de um bispo, tem o seguinte diálogo com um cangaceiro, que prestes a matá-lo, pede para ser perdoado. Retruca, então, o religioso: “Para ser perdoado, você primeiro tem que se arrepender e desistir de me matar.” E o cangaceiro, no seu raciocínio simplório, responde: “não faz mal, eu me arrependo depois”. O que aconteceu aqui? Baseado talvez na salvação pela graça, crença ainda muito em voga no nordeste brasileiro, este cangaceiro pensando em enganar a Deus, estava enganando a si mesmo. Cedo ou tarde, nesta ou noutra vida, irá se deparar com a lei universal de causa e efeito que é automática e independe de religiões. Aliás, sobre esse assunto, Jesus deixou bem claro (Mateus, 16:27): “A cada um será dado segundo as suas obras” – e não segundo a sua crença. E o apóstolo Paulo assina embaixo (Gálatas, 6:7): Deus não se deixa escarnecer, pois tudo o que o homem semear, isso também colherá.
(Pedro Fagundes Azevedo, ex-presidente por três gestões da Legião Espírita de Porto Alegre)