A mente do eleitor pró-Bolsonaro e do anti-Bolsonaro. Uma análise psiquiátrica
Redação DM
Publicado em 11 de agosto de 2018 às 21:50 | Atualizado há 8 anos
Como derrotar o Bolsonaro utilizando-se de suas próprias fraquezas ?
1) O publicitário Lúcio Caramori redigiu e viralizou algumas dicas interessantes, inteligentes, para derrotar Bolsonaro: 1– Evite atacá-lo como racista, homofóbico, violento, pois isso faz parte de uma “certa cultura ocidental disseminada” anti-esquerdista. Evite usar a “truculência dos bolsonaristas”, “você não irá convencê-los”, use de candura e razão para convencer os indecisos, os anti-violência; esses podem ser conquistados. 2– Incitar as mulheres a combatê-lo : falar, por exemplo, que ele não “se revolta pelas mulheres ganharem menos que os homens”, “disse que fraquejou quando teve filha mulher”. 3– Falar que ele é ineficiente mesmo na agenda que ele prega a eficiência, p.ex., nunca fez nada pela segurança do Rio.
2) Vou tentar ajudar o Caramori e estabelecer estratégias para a “derrota Bolsonarista”. Vamos analisar a mente esquerdista que poderia votar em Marina ou Ciro, e depois analizar a mente “centrista”, que poderia votar em Alckmin, e, finalmente, a mente “empresarial”, ou semi-anarquistacapitalista que poderia votar em Amoedo.
Os “esquerdistasdemocratistas” (tipo “eleitor da Hillary”) têm um problema, tendem a não ser tão proativos quanto os “direitistasTrump”. Por que eu falo de “esquerdistasdemocratastipo Hillary”? É porque aquele “esquerdista típico”, socialista, comunista, petista, este morreu no Brasil. A experiência LulaDilmaChavesCastroURSS destruiu a crença no comunismo na mente do brasileiro. Mas esta crença se travestiu de outro modo : humanidade, direitos humanos, direitos femininos, direitos animais, coitadismo, luta contra a “autoridade”, contra o “pai”, “luta contra o patrão”, “contra o militar”, contra o médico, contra Deus, contra o “professor rígido e autoritário”, contra a “disciplina”, contra as várias “modalidades de normalização” (sexual, intelectual, moral, religiosa, etc).
Esta nova esquerda não vai muito com Ciro Gomes, porque ele é a antítese desta nova esquerda : é autoritário, grosso, truculento. Ela, esta “nova esquerda”, como os hippies, quer “paz e amor”, quer desarmamento. Ciro está fora, portanto. Aí surge a Marina, esta terá força. Agregará a parcela mais escolarizada de LulaPTSocialistas, agregará esta “esquerda-Hillary-Hippie-ecológica-pacifista-feminina”, agregará grande parte dos “altos funcionários públicos”, inclusive universitários, judiciários, pois estes justificam o Estado como “local onde eles, com seus contra-cheques-de-ouro, defendem os oprimidoscoitados contra os autoritários-empresários-patriarcais”. Dirão que Bolsonaro representa estes últimos, e que, por isso, têm de lutar contra ele. Tendem a gostar mais dos “estatizantesesquerdistas” (“tipo Marina”) do que dos “estatizantesdireitistas” (“tipo Bolsonaro”) porque os primeiros tendem a valorizar mais o funcionário público (“também um oprimido do capitalismo”) e os segundos tenderiam a valorizar mais os empresários-efetores-do-Capital, no conhecido “Capitalismo de Estado” – ou seja, dinheiro do BNDES para os “Campeões Nacionais”, coisa que, no entanto, tanto os militares quanto os Lulistas fizeram .
3) O problema desta “nova-esquerda-feminista” é que ela já experimentou uma “mulher esquerdista oprimida” no poder – Dilma – e não deu certo. Portanto, há um “recall” feminino negativo neste quesito. Esta nova-esquerda também é mais “deixa-disso”, mais “passiva”, mais “não vou ficar mexendo com isso não”, do que a “antiga-esquerda-dos-stalinistastrotskystas-tipo-José-Dirceu”. Esta última esquerda é mais ativa e virulenta, mas, como dissemos acima, está em baixa. A “nova esquerda à la Marina”, vai menos às urnas; os “direitistas-à-la-Bolsonaro”, por serem mais “durões”, “truculentos”, “cabeças-duras-e-opinativos”, lutam mais, são mais ativos, desistem menos, vão mais às urnas, convencem mais suas companheiras do que o contrário. Mesmo os “pobres do nordeste” preferem a “moral da família” à “moral do deus-Lula”.
4) Os “alquimistas estão chegando” ? “Estão chegando os alquimistas” ? (música do “Jorge Ben”) . Não acho que os Alckmistas estão chegando, ele representa uma “velha política” da qual o povo está cansado, cansado de mentiras, de “esconder o ouro”, “fala mansa”, “fala raciocinada demais”, pouca sinceridade, “só mentiras”, “só escondendo”, “só lugares comuns”. A classe média não aceita mais esta fórmula : “políticos-representando-o-poder-econômico-contra-o-povão-no-poder”. A classe média, mesmo sabendo que, sem estes “políticos representantes do poder econômico”, os Governos cairiam na mão dos “stalinistastrotskystaschavistascastristasmaoistas”, não os aceita mais, são falsos demais, usam demais de suas empresas para roubar o Estado, auferem bens pessoais demais para “proteger a classe média do comunismo”. A vertente ética da classe média cresceu mais do que seu comodismo, o comodismo de ter um bom emprego público e ter alguém que os proteja da ameaça popular. Esta vertente ética repugna, portanto, o velho político estilo Alckmin.
5) Amoêdo, por seu lado, tem um discurso “anti-Estatizante” que não agrada grande parte dessa classe média aí acima. Ela é moralistaconservadora em termos éticos, mas em termos de Estado, ainda gosta das benesses do Estado, ainda gosta dos salários e empregos públicos dados pelo nosso Grande Estado. Por outro lado, pelo lado de sua vertente “moralistadisciplinadoraautoritária”, prefere pessoas “sinceras, autênticas, não-raciocinadas, não-politicamente-corretas, intempestivas”, como o Bolsonaro. Até por uma questão emocional, as pessoas não querem mais políticos picolés-de-chuchu, e o Amoêdo passa uma ideia meio “xoxa”, “pacífica demais”. Tem, então, duas coisas que a classe média não quer agora : “fim-do-Estado” e “temperamento-não-belicoso”. A Classe Média já tem uma vaga – ou mesmo nem tão vaga – noção de que “o Estado é a causa do problema”, mas não quer ficar sem o vício no momento atual. Como Santo Agostinho, a Classe Média diz : “Senhor, daí-me a castidade; mas não agora….”. Também quer projetar sua raiva dos políticos em alguém com quem se identifique : “o Bolsonaro irá colocá-los para correr”. Toda esta ira não pode ser canalizada por um ser fleumático, pouco sanguíneo, calmo, racional. A classe média quer identificar-se projetivamente com um “cara que arrebente com esta corja”, com um “cara forte que re-instaure a autoridade perdida”. Amôedo, até por temperamento, infelizmente não é esta pessoa. Digo “infelizmente” porque, ao meu ver, tem um melhor conteúdo programático do que Bolsonaro : “ o enfraquecimento, tanto quanto for possível, do Estado”. Bolsonaro, infelizmente, ao meu ver, pelo menos no grosso que se depreende, vai em sentido contrário : “fortalecimento do Estado”… “Fortalecimento, ao menos, de carreiras fortes” dentro do Estado, p.ex., militares, policias, delegados, etc. Tudo bem que a classe média, neste momento, precisa mesmo de uma “segurança mais repressivaautoritária”, até para livrar-se dos “zumbis do crack e da bandidagem” que o “esquerdismo-dos-coitadistas-e-dos-à-toa” produziu…. Mas todos nós sabemos o risco disso descambar num autoritarismo militar estrito… Basta ler Maquiavel para constatar que o general que protegeu o reino logo logo irá querer ser o Rei…
Esta classe média, é, ao mesmo tempo, moralista e estatal (só que não são moralistas a ponto de repensar o estrago que o Estado produz na população para bancar as benessessaláriosemprego que Ele lhes dá). Mas seu lado “moralista”, seu “lado cansado de robalheira-dos-políticos-tradicionais”, quer um “Justiceiro”, um “homem sincero”, forte, de princípios morais, autêntico. A “autenticidade tipo TrumpBolsonaro” chega a ser até caricatural e cômica, o pessoal gosta de assistir as “brigas deles”, mesmo os que são contra eles. Trump, ao mesmo tempo, horroriza, causa asco, e fascina, não sai dos noticiários. Bolsonaro, neste quesito, até tem mais cancha que Trump, pois consegue ser um “agressivo que, com algumas exceções, quando usa de sua agressividade, não ofende “mortalmente” seu atacante” . Tem um temperamento de “garotão alegre”, daquele tipo “é contra homossexualismo mas ama homossexuais”. A mesma energia agressiva que tem para responder a questõescomportamentos provocativos, dissipa-se muito rápido, e ele tende a retornar a sua linha de base, que pode ser, nestes casos, um misto de bonachão e cínico. Há pessoas cujo temperamento permite isso : reagem forte a agressõesprovocações, mas isso “passa logo”, esquecem logo, e aí, na volta à normalidade do convívio, podem conseguir tratar o passado agressor até com uma certa cordialialidade amistosa. Explodem rápido, com força, mas esquecem rápido, perdoam rápido, podem voltar rápido a uma “linha de amizade”, ou ao menos de cordialidade. Ao não “ser um ser raivoso, como o Ciro, como Lula”, ganha eleitores, pois estes tendem a não julgar o raivoso como “carismático”.
(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra (psychological.medici[email protected]))