Relatório indica que só 33% das declarações ditas por políticos são verdadeiras
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 27 de julho de 2026 às 10:24 | Atualizado há 30 minutos
Relatório da Agência Lupa mostra a evolução da desinformação eleitoral e das estratégias de manipulação de informações no Brasil | Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo
Somente um terço (34%) das declarações feitas por políticos nos últimos cinco ciclos eleitorais e que foram checadas eram totalmente verdadeiras. As demais continham algum tipo de exagero, omissão ou falsidade. A constatação faz parte do relatório “Anatomia da Desinformação Eleitoral – Como a Mentira e os Boatos Políticos Evoluíram no Brasil entre 2016 e 2026”, divulgado pela Agência Lupa nesta segunda-feira (27).
O dado reflete, segundo o estudo, uma sofisticação nas estratégias de desinformação em campanhas: em vez de recorrer à mentira explícita, cresce a manipulação de fatos e conteúdos verdadeiros, a chamada má informação.
“São cada vez mais frequentes omissões intencionais, exageros, recortes seletivos, comparações inadequadas e disputas de contexto”, diz o relatório. “Em vez de inventar fatos, o discurso político passou a manipular informações verdadeiras ou a costurá-las de forma distorcida para produzir interpretações enganosas.”
Pesquisa analisou mais de 3 mil declarações
O fenômeno não se restringe a um espectro político, garantem os pesquisadores, que analisaram 3.080 declarações de 237 atores políticos de 37 diferentes partidos a partir de 2016. Há uma maioria de candidatos à Presidência, aos governos estaduais e prefeituras entre os analisados, e seus discursos foram coletados de redes sociais, debates televisivos, propagandas eleitorais, sites, entre outras fontes.
A amostra não retrata todo o ecossistema de desinformação eleitoral no Brasil, apenas os conteúdos publicados na seção de “Eleições” do site da Lupa nos últimos cincos ciclos eleitorais (2016 a 2024). As frases selecionadas “estão condicionadas às escolhas editoriais, aos critérios de relevância jornalística e aos fluxos de recebimento e monitoramento da agência”, diz o estudo.
Ranking reúne políticos com mais falas falsas
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tem a maior proporção de falas falsas checadas pela Lupa (43,2%), em um ranking que considera apenas os políticos que tiveram, no mínimo, 30 frases analisadas pela agência. Logo abaixo está o ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel (38,9%) e o ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella (36,2%).
Entre os nomes de esquerda e centro-esquerda, a ex-deputada federal Manuela d´Ávila (PSOL) aparece em 6º, com 29%, e o presidente Lula (PT) em 7º, com 1 em cada 4 declarações falsas (26%) -o que “derruba a hipótese comumente ventilada no Brasil de que só a direita desinforma”, diz o levantamento.
Quando distorcem informações em público, o presidente Lula e o ex-presidente Jair Bolsonaro têm estilos diferentes, cada um com a sua própria linguagem e temas preferidos.
Enquanto Lula parece gostar de atribuir a si mesmo a autoria ou o pioneirismo de políticas públicas e marcos institucionais que nem sempre tiveram origem em seus governos, Bolsonaro costumava declarar falsidades, principalmente, quando usava números e estatísticas ou fazia afirmações categóricas sobre sua gestão e a de adversários.
Entre os exemplos citados está uma declaração feita no debate da TV Globo em 2022, quando Bolsonaro afirmou que “nenhum país do mundo comprou vacina em 2020”. Segundo a Lupa, ao menos 50 países já haviam iniciado a vacinação contra a Covid naquele ano.
De Lula, o levantamento dá como exemplo fala em um debate de 2022 no qual ele afirma que o menor índice de desmatamento ocorreu em seu governo, marca registrada na verdade pelo governo Dilma em 2012.
Boatos passaram a atacar o sistema eleitoral
Em relação aos boatos virais, histórias que se espalham sem autores conhecidos, a mentira evidente continua sendo predominante, de acordo com a pesquisa. O que mudou nesse universo, porém, foi o alvo.
Os conteúdos enganosos deixaram de focar candidatos, partidos e propostas e passaram a atacar o sistema eleitoral brasileiro. Dos 286 conteúdos virais verificados desde 2016, 209 (73%) procuravam desacreditar urnas eletrônicas, votação, apuração, resultados eleitorais ou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os Tribunais Regionais Eleitorais (TRE).
“Essas duas dinâmicas se complementam”, afirma o estudo. “De um lado, atores políticos de grande visibilidade difundem distorções cada vez mais elaboradas e difíceis de desmontar. De outro, redes anônimas ou descentralizadas alimentam narrativas que buscam enfraquecer a confiança nas instituições eleitorais.”
WhatsApp substitui Facebook na difusão de desinformação
O levantamento aponta ainda que o Facebook deixou de ser a principal plataforma de difusão de boatos eleitorais anônimos. Em 2018, a rede da Meta respondia por 76,5% das verificações realizadas pela agência. Em 2022, o aplicativo de mensagens WhatsApp já estava presente em 92,4% dos casos e, em 2024, representava 100%. Ou seja, toda verificação daquele ano tinha o mensageiro como um dos canais de circulação identificados.
O cenário preocupa os pesquisadores pois indica que a desinformação migrou de redes abertas como o Facebook para ambientes mais fechados, menos transparentes e mais difíceis de monitorar, como o WhatsApp.
IA preocupa especialistas para as próximas eleições
A agência alerta ainda para o impacto do avanço da inteligência artificial nas próximas eleições. Os conteúdos sintéticos gerados com a tecnologia aparecem de forma discreta no relatório até 2024, mas os pesquisadores afirmam que as ferramentas deverão ampliar significativamente o alcance e a sofisticação das campanhas de desinformação eleitoral a partir do pleito de 2026.
Em resposta a esse cenário, o TSE passou a exigir a identificação de conteúdos produzidos com IA, proibiu que sistemas do tipo recomendem ou priorizem candidatos e restringiu a publicação de material sintético nas 72 horas anteriores e 24 horas posteriores à votação. A agência declara que é cedo para saber se essas medidas serão suficientes.
A Lupa é uma agência de checagem de fatos que produz verificações de declarações públicas e pesquisas sobre desinformação desde 2015. Integra a International Fact-Checking Network (IFCN), rede que reúne organizações de verificação de diversos países. (Andrei Ribeiro/FOLHAPRESS)