A opção econômica dos grotões
Redação DM
Publicado em 10 de dezembro de 2015 às 23:51 | Atualizado há 11 anosExiste uma forma predominante de compreender a economia que é parte das culturas administrativa e pública deste país. A base dessa lógica se assenta no produtivismo puro e simples, onde a partir da ideologia do desenvolvimentismo se justifica inclusive, o colapso ambiental e social em que, não por acaso, estamos enfurnados.
Efetivamente o setor público da economia é determinante nessa lógica porque se não o sabem, é a economia pública quem financia a economia nacional por meio do financiamento puro e simples, mas também pela via de isenções de impostos, da anistia e da concessão de benefícios outros para que o empreendimento, e seja ele qual for, se estabeleça.
De outra maneira, a história dos investimentos no Brasil é a história dos investimentos públicos. Não é o setor privado que alavanca obras, serviços e empreitadas outras país afora, mas é o setor público por meio da Presidência da República, dos governos estaduais ou prefeituras utilizando-se evidentemente de recursos sociais advindos do trabalho, da produção e de seus excedentes.
Finalmente, nosso capitalismo é estatal, não público, não republicano e é claro, antissocial e é hora de rever tudo isso!
Ocorre que é necessário questionar a ortodoxia do desenvolvimento clássico que o Brasil adotou, e de resto, províncias e localidades.
Tendemos a copiar e administrações conservadoras reforçam essa lógica. Depois dos anos de 1980/1990 com a assunção do neoliberalismo como forma e cultura estatal predominante na América Latina os índices de “repetecos desenvolvimentistas” subiram às cumeeiras.
Qual o modelo? Sinteticamente é o que manda prospectar negócios Brasil ou mundo afora onde aos lugares, às localidades cabe oferecer; além de farta mão de obra remunerada a partir do legal e injusto mínimo brasileiro; toda sorte de isenção e; de resto, a abundância de ativos ambientais que são partes essenciais em qualquer processo de produção no mundo.
Essa perspectiva, intensamente predatório, sobretudo aos lugares, rincões e grotões gera uma pletora de problemas “modernosos” às comunidades que, de fato, mais desagrega, fragmenta, fratura do que dá sentido de grupo, comunidade, cidade ou vida comum.
Identificar essa saraivada de problemas não é coisa difícil! A título de exemplo, um grande empreendimento gera especulação porque atraí pessoas, negócios e expectativas, quase sempre não-realizadas. Nesse movimento, indivíduos, ciosos por elevar suas taxas de ganância, de lucros, avaliam que podem ganhar mais e daí elevam aleatoriamente, por exemplo, o quarto que aluga ou a casa que possui para o inquilinato.
Mas, vejamos… Essa percepção não cabe apenas ao dono do imóvel. Ela também apetece no comerciante, na faxineira, no eletricista e no padeiro. O negócio além de ser físico, também tem uma dimensão imaterial que opera no simbólico, na representação, na sensibilidade e é aí que eu ou você entramos na baila do “crescimento” econômico.
Finalmente, estamos tratando de uma dura lei de mercado! As empresas precisam reduzir seus custos de operação, precisam descobrir em suas cadeias de produção onde cortes podem ser feitos para que possam enfim, ser mais competitivas. A regra econômica é bastante clara: ou a empresa reduz seus custos de produção ou não se mantem em um mercado violentamente competitivo como o que estamos testemunhando.
E como ficam as miúdas empresas dos profundos do Brasil? E os pequenos e rústicos negócios familiares dos sertões goianos? Nas selvas amazônicas ou na caatinga nordestina? E as doceiras do interior mineiro? As artesãs de Caruaru? As rendeiras do interior cearense? As costureiras dos arrabaldes de Goiânia?
Quero dizer que estes autores/atores econômicos são absolutamente importantes,sobretudo, aos “distantes” do Brasil. Analisando o perfil do microempreendedor (ME) brasileiro a partir de levantamento realizado pelo Fórum de Cidadania Financeira (FCF), onde participam entidades como Sebrae, Receita Federal e Banco Central do Brasil e em estudo apresentado pelo economista Rafael de Farias Costa Moreira entre os dias 04 e 05 de novembro de 2015, em Brasília, perceberemos que o microempreendedor brasileiro está amplamente distribuído em cerca de quinhentas atividades.
A partir de dados da Receita Federal do Brasil, em 2010, apresentava 0,8 milhão de microempreendedores cadastros; para, 2015, este valor haver saltado para 5,3 milhões de ME’s. E a projeção é que até 2022, este valor salte para 8,5 milhões de microempreendedores.
A pesquisa mostra ainda que os “micros” estão assim distribuídos: Serviços: 37%; Comércio: 38%; Construção Civil: 10%; Indústria: 15%.
A pesquisa, disponível na internet, mostra a importância dos pequenos negócios, revela seu peso e centralidade. No entanto, faltam mais estudos, pesquisas e investimentos para aperfeiçoar tais negócios tornando-os mais amplos, melhores e qualitativos.
De outro modo, o delírio megalomaníaco de certos “gestores” públicos por entregarem a vida social aos rompantes empresariais do Brasil e além-mar e que visam, sob quaisquer aspectos, tão somente, a reprodução ampliada de capital pode ser facilmente negado a partir da pujança de micros ou pequenos negócios locais.
Aliás, faltam políticas públicas sérias para este importante segmento e que ainda tem muito o que crescer, desenvolver. Nosso horizonte comum deve ser a feitura de outro padrão ou modelo de desenvolvimento com foco na promoção dos pequenos locais, visando sua integração e unidade e não na erradicação dos “pequenos”, aliás, estes mesmos “pequenos” são fundamentos econômicos, sobretudo, em tempos de crise.
(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando em Geografia Humana (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)