Brasil

Açoites na mente

Redação DM

Publicado em 28 de novembro de 2015 às 23:26 | Atualizado há 11 anos

O andarilho acorda em meio ao nada, carros e caminhões passando em alta velocidade, ele sente cheiro de café, pensa que esta sonhando, ouve um latido, resolve dar uma volta pelo posto de gasolina abandonado em que ele passou a noite, e logo à frente no local que servia para troca de óleo outro viajante das estradas com suas latinhas ao fogo fazendo um pouco de café, o andarilho se aproxima e o maltrapilho o chama.

Venha homem se achegue o café está quase pronto.

Não tinha como dizer não, pois o andarilho já andava ha cerca de quinze dias por aquela rodovia, se alimentando de migalhas e sem ver ninguém, e a oferta de um gole de café era presente de deus, e não tinha como dispensar.

O andarilho se aproxima e senta sobre os escombros de ferro enferrujado que outrora serviu para levantar automóveis para a troca do óleo vencido.

O maltrapilho fala ao andarilho que já esta por ali faz três dias, pois alem de abrigo, o antigo posto também tem água nas torneiras, ele descobriu que a água vem de uma mina a uns dois mil metros a frente, e aponta para uma moita de bambu, depois da curva.

O andarilho diz ao homem. Isso e um hotel de luxo nessa estrada sem fim.

O maltrapilho também fala ao andarilho que tem um mandiocal pouco depois dos limites do posto.

Rindo os dois comemoram a estadia em ambiente tão requintado.

O maltrapilho está abatido e com ar de cansado, e diz ao andarilho que parou por ali porque não dava mais conta de seguir viajem por aquela estrada sem fim.

O andarilho também confessa se cansado.

O maltrapilho o convida a permanecer por ali até se recuperar da longa jornada.

O andarilho diz sem pensar, acho que vou ficar por aqui uns dois dias para me recuperar. Pois além de água tem comida, o que e raro nesse lugar deserto.

Após o café e um resto de mandioca cosida os dois saem pelo mato até o mandiocal, e enquanto retiram as mandiocas do chão aparece um homem, bem vestido como Caubói.

O homem pergunta o que fazem ali, e quem responde e o andarilho.

Moço, estamos de passagem por estas bandas, e descansamos no posto abandonado, pois La nos da água e abrigo de noites frias, e essas mandiocas são o alimento do dia e também da noite.

O homem se sente comovido pelos dois desconhecidos, pois sabe muito bem o que eles passam, e os convidam a ir até a sede da fazenda.

De inicio o andarilho fica desconfiado, mas sente que deve ir.

O maltrapilho também fica pensativo, mas já que o andarilho vai por que não ir, os dois juntos são mais fortes.

Andam mais um pouco e chegam ate o veiculo do caubói, ambos ficam encantados com a caminhonete importada do homem, parece coisa de filme, e pela estrada poeirenta seguem os três, parecem já se conhecer, e riem do nada.

Alguns minutos depois chegam à sede da fazenda. E quando estão descendo do veiculo alguns funcionários aproximam se, e o patrão diz a eles que achou aqueles andarilhos roubando mandioca.

Todos riem, e o caubói diz a um dos funcionários, deem lhe roupas e providencie um banho, e depois que eles estiverem prontos tragam para a sede da fazenda para esperarmos pelo almoço.

O andarilho começa a rir e diz ao funcionário, mexa se homem não ouviu o patrão.

E o funcionário rindo fala ao andarilho. Sim senhores, venham comigo.

Não demora muito e todos se reúnem, era domingo, e aos finais de semana o almoço era churrasco, e todos os funcionários se reuniam para falarem da semana.

Todos por ali pareciam muito felizes, o patrão já chega brincando com todos.

O andarilho também sorrindo fala. O caubói chegou. E por ali todos reunidos à conversa vai fluindo, e o caubói fala para os dois peregrinos.

Eu também vivi como vocês vivem.

O andarilho olha com olhar de desconfiado.

Mas todo mundo por ali conhece a historia do patrão, e confirma para o andarilho as palavras do chefe.

O andarilho vira se para o homem, e diz então nos conte, pois estou curioso para saber dessa virada que você deu em sua vida.

A história e conhecida em toda região, mas como vocês não são daqui conto eu mesmo.

O andarilho se acomoda, e com ar de brincadeira fala ao caubói, comece homem estou pronto para te ouvir.

O caubói retira o chapéu, e com ar de humildade começa a contar a história de sua vida.

Meus caros andarilhos. Minha vida não foi sempre assim.

Todos que estão por ali conhecem de fato a historia daquele humilde homem, mas não se cansam de ouvir, pois serve de inspiração.

E calmamente o locutor delicia seus ouvintes com sua voz calma e tranquila.

Eu morava em uma currutela, e a única coisa que tinha por ali eram plantações de tomate, e desde os seis anos de idade, comecei a trabalhar, a vida era difícil, mas a vontade de continuar vivo nos mantinha as esperanças de dias melhores.

Os anos se passaram muito rápidos, pois eu não tive infância,  a rotina se fez minha vida, era de domingo a domingo, quando acordei para vida já estava completando dezessete anos, fui despertado pelo amor.

Os presentes parecem nem respirar.

O caubói continua, reduzindo o tom da voz, e os ouvintes se aproximando cada vez mais do locutor.

Era final de ano, dia 24 de dezembro, eu nunca tive natal. Na minha casa era um dia qualquer, nesse dia aproximou se de mim uma antiga companheira de jornada, e me chamou para passar o natal na casa dela, começamos a trabalhar juntos, eu colhia ela lavava e separava os tomates.

Findo o dia fui para a casa dela, todos estavam felizes. Foi o melhor dia da minha vida ate então, e depois daquele dia começamos a ficar cada vez mais próximos. E assim se seguiu ate o dia do nosso casamento.

Após o casamento construí uma casa de adobro e folha de coqueiro, e começamos nossa vida juntos.

Os anos se passaram vieram os filhos e acabei indo morar na cidade para que as crianças estudassem.

Foram anos difíceis, mas com Fé venci e formei todos os filhos.

Eu era novo, mas parecia um velho, as doenças foram surgindo, os anos na colheita do tomate me destruíram, os pesticidas corriam em minhas veias, minha mente ficou confusa, o discernimento mental acabou eu já não falava mais coisa com coisa, e assim foi ate chegarem às crises convulsivas.

Eu rolava no chão me debatendo, as pessoas passaram a me olhar de forma diferente, deixei de ser bem vindo até dentro da minha casa.

Comecei há passar os dias e as noites pelas calçadas, sujo com fome, largado a sorte do meu próprio destino, até chegar ao ponto de total abandono familiar.

Conseguia entender as coisas só não conseguia me comunicar ou me fazer ser ouvido. Ate que um dia vi minha antiga esposa passar de mãos dadas com um antigo amigo.

Foi o fim para mim, jurei a mim mesmo que não iria envergonhar mais minha família. As pessoas pareciam não me conhecerem mais, eu mesmo me sentia um estranho.

Foi ai que sai andando pelas rodovias, levado pela sorte e pela providencia divina, meus pensamentos me traziam mais terror do que o medo que as pessoas sentiam de mim, quando se aproximava de alguma cidade eu desviava.

Não suportava o olhar de medo, e de dó das pessoas, meus pensamentos passaram a vagar no silencio da solidão.

A estrada que andamos na vida já nos vem pronta, construída em nossos próprios pensamentos. Caminhando sempre ao lado de anônimos. A maior ambição da minha vida era sempre a próxima refeição.

Que sempre veio pela graça de deus, sempre alguém me parava e me oferecia água e restos de alimentos, que eram bem vindos e bem utilizados, sempre deixava alguma coisa para a incerteza do dia seguinte.

Aos que vagam pelo mundo sempre um pensamento, pois o corpo cumpre sua missão de carregar a alma.

O maltrapilho interrompe o locutor.

Não entendi essa colocação meu amigo, explique se melhor.

O caubói continua com a mesma calma.

Olha amigo. Somos almas que vagam em corpos sem face, somos o joio em meio às plantações de trigo, não temos nada a oferecer, somos a semente que teima em não germinar. Pois não contribuímos em nada ao desenvolvimento dos que nos cercam.

O maltrapilho pergunta ao novo amigo, então não somos nada?

O caubói sorrindo responde. E quase isso.

E continua sua historia.

Um dia enquanto andava as margens de uma rodovia passei sobre uma cascavel, ela nem se moveu, não quis dividir seu veneno comigo, para aliviar meu sofrimento, não me senti digno nem da própria morte.

Os dias começavam sem rumo, o melhor amigo que tinha era um cão.

Ai quem interpelou o locutor foi o andarilho, um cão?

Sim um cão, este cão eu encontrei enquanto caminhava.

O dia mal tinha amanhecido e eu comecei minha jornada, e enquanto andava ouvi um cachorro latindo, procurei no meio do mato e vi uma caixa de papelão, e dentro dela vários cães mortos, mas quando olhei com mais atenção percebi que tinha um vivo.

Coloquei a Mão dentro da caixa e o retirei, coloquei-o nos braços e seguimos juntos, o que ganhava para comer passei a dividir com ele, e assim ele passou a fazer parte da minha vida.

O caubói silencia toma uma xícara de café e em seguida continua.

O Silêncio das noites embalava meus sonhos, meu sono era uma nova vida, eu sonhava todas as noites, e ao mesmo tempo os sonhos eram açoites em minha alma, pois os dias eram de extremo sofrimento, e as noites eu vivia uma vida utópica enquanto dormia.

Aqueles sonhos do ontem são a realidade do hoje.

Eu pedia a deus que escurecesse logo, para que eu pudesse dormir, e começar a sonhar.

O tempo passou, minha mente voltou a funcionar melhor que antes.

Até que um dia enquanto eu vagava me deparei com uma caminhoneta velha a gás parada as margens da rodovia, cheia de panelas penduradas, e redes para todo lado, ofereci minha ajuda, eram pessoas iguais a mim.

Eram um bando de rejeitados viajantes, velhos e jovens, todos cheios de sonhos.

E com meus conhecimentos de anos de sofrimento nas roças foi fácil resolver o problema, após o concerto me chamaram para seguir com eles, começaram a me tratar como mecânico, eu já cansado da solidão e com a mente recuperada aceitei.

A conversa era só garimpo, viajamos por mais alguns dias ate chegar ao garimpo, e por Lá fiquei cerca de oito anos, economizei cada centavo. Eu fiz uma pequena capanga ode depositava o fruto do meu suor, não tinha hora para começar e para parar.

Parecia lutar contra o tempo, pois não sabia como seria o amanhã, ate que em uma tarde de domingo enquanto eu garimpava praticamente sozinho tirei a sorte grande, a pepita que tirei da terra era maior que a minha capanga.

O andarilho pergunta ao locutor o que ele sentiu no momento que tirou o pedaço de pedra do chão.

O caubói respondeu.

Medo, pois se alguém soubesse da pedra com certeza seria morto.

O andarilho pergunta, o que você fez.

Eu não dei alarde, sai calado e fui ate a nossa cabana e a escondi, cavei um buraco e enterrei.

E no próximo final de semana resolvi ir à cidade, causei espanto em todos, pois não era comum eu ir ate a cidade, peguei setenta cruzeiros com um amigo e fomos todos em clima de festa. A cidade representava para todos, bebida e mulher.

Chegamos à cidade fui ao bar como todos, e por ali fiquei ate escurecer, e quando percebi que todos estavam bêbados sai sorrateiramente e fui ate a pequena rodoviária, peguei o primeiro ônibus que saia com a quantia que tinha no bolso.

E ao amanhecer já estava longe do garimpo. Ao descer na cidade procurei um banco, ninguém me deu atenção, fui ate o gerente e ele todo apressado me perguntou o que eu queria.

Nesse momento eu lhe mostrei o que tinha, ele então me levou para um lugar reservado e mandou chamar o seu perito em ouro. Após algumas horas tudo analisado e pesado veio o veredicto. O senhor e um homem rico e muito rico.

O gerente me perguntou.

O que quer fazer agora?

Eu respondi a ele que não sabia, e o que ele me aconselhava.

Ele me disse para agir com calma, para organizar minha documentação abrir uma conta e seguir minha vida.

E assim o fiz me isolei em sua chácara, e ele providenciou tudo. Depois da conta pronta, providenciei a segunda via da minha habilitação.

Com tudo pronto comprei as roupas que eu me via vestido em sonho, fui a uma concessionária e comprei a caminhonete que sempre sonhei, e segui ate a cidade de onde minha vida tinha parado.

Ao chegar, de óculos escuros e vestido como um caubói,todos me trataram bem, ninguém me reconheceu. Meu carro apagava minha imagem, todos viam apenas a caminhonete.

Eu segui os conselhos do gerente do banco, comprei terras e gado.

A primeira fazenda era de trezentos alqueires, enchi de gado, tudo nelore. O pasto parecia o céu límpido, todo branquinho.

O gerente que escolhi era um antigo companheiro de jornada, ele me reconheceu assim que me viu. Eu lhe pedi segredo, e com o passar dos dias comprei outra fazenda.

Assim fiquei sendo conhecido como o maior pecuarista da região.

Ate que chegou o dia em que pedi ao meu gerente que buscasse meus filhos sobre algum pretexto, e assim ele o fez.

Quando meus filhos chegaram ele contou toda a minha historia, eles de inicio não acreditaram, mas quando me viram me reconheceram como o homem que andava na cidade na caminhonete de luxo, me aproximei os abracei e todos choramos.

Passamos a tarde juntos, eles me pedindo para repetir a historia da minha vida, e desde este dia todos estão comigo.

O maltrapilho pergunta sobre a antiga esposa, o caubói ri e diz.

Ora a culpa da minha loucura não partiu dela, eu a trouxe para morar na fazenda com seu marido e seus novos filhos, isto também fazia parte dos meus sonhos, agora vivemos todos juntos, me casei de novo e sigo minha vida.

Todos estavam extasiados.

O andarilho ficou por mais alguns dias por ali, depois de restabelecido resolveu seguir viagem.

O amigo maltrapilho resolveu ficar e reconstruir sua vida com a ajuda daquele que passou por tudo que ele estava passando.

No dia da partida o andarilho pegou carona ate a próxima cidade. O maltrapilho agora era um novo homem, seguiram os três conversando e rindo parecia uma família que se reunia, e assim o andarilho segue sua jornada, cada vez aprendendo mais, e com a certeza que o mundo só tende a melhorar.

 

(Paulo César de Castro Gomes, formado em Direito pela Universidade Salgado de Oliveira Goiânia, pós-graduado em docência universitária pela Universidade Salgado de Oliveira Goiânia, pós graduando em Criminologia e Segurança Publica UFG)

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