Araratrás
Redação DM
Publicado em 18 de novembro de 2015 às 21:41 | Atualizado há 11 anosDurante muito tempo as pessoas todas de Araratrás viviam como viviam as de qualquer outro lugar na face da terra, uma mentirinha aqui, outra mentirinha acolá, e assim iam levando a vida na boa, imensamente felizes.
Até que um dia, nem a gente sabe mais quando foi não, sem mais aquela, as pessoas de lá resolveram ser exageradamente sinceras ou verdadeiras umas com as outras.
Foi um horror! Um verdadeiro caos!
Se duas amigas se encontravam, num banquete de confraternização, em vez de se dizerem, como acontecia antes: “Ah, querida, você parece tão bem!”, como manda aquela mentira social que se chama etiqueta, ou se chama boas maneiras, embora a elogiada devia parecer muito mal na realidade, passavam a se dizer agora:
– Mas o que foi que aconteceu contigo, querida? Vocé está um bofe! Que coisa mais deprimente! Eu heimmm!!!
E a ofendida, amarrando a cara, agastada com aquela verdade nua e crua, pensava:
“Isso lá se faz, falar com uma amiga nesse tom!”
Mas reconhecia depois que o que a sua interlocutora queria mesmo era ser franca, como mandava a a nova regra de então. Como estabelecia aquela norma ferina.
Se o neto comia, na casa da vovó, uma iguaria que ele detesta, em vez de enaltecer, pra agradar? ah, que delícia, vovó? ? dizia à queima-roupa:
– Ah, que m… de comida é esta, vovó! Nunca mais como aqui não! Nunca mais mesmo! Aliás, o molho estava péssimo!
E a avó, pronfundamente desapontada, refletia assim:
“Que menino mais mal-educado, nunca mais o convido pra vir almoçar aqui!”
Mas a avó reconhecia depois, tal qual fizera a ofendida, que o neto queria mesmo era ser franco com ela, como mandava a nova regra. Como estabelecia aquela norma ferina.
Ou se uma menina recebia no Natal um presente que odeia da tia amorosa, dizia, em vez de agradecer alegremente:
– Quê! Isso lá é presente de Natal que se dê a uma sobrinha como eu sou! Grande porcaria! Não quero isso aí não, tia! Nem morta! Pode dar ele aos outros, que não gostei nem um pouco.
E a tia pensava:
“Que menina mais sem modos, isso lá é jeito de retribuir um mimo de Natal da tia!”
Mas a tia também reconhecia depois que a sobrinha queria mesmo era ser franca com ela, como mandava a nova regra social. Como estabelecia aquela norma ferina.
Tal estado de espírito não foi muito longe não. As coisas entraram a se complicar mesmo quando os políticos de Araratrás precisaram ser sinceros com as pessoas.
Aí o cachimbo entortou. Sucede que os políticos sinceros dalí podiam parecer com outra coisa menos com políticos; com políticos autênticos. Ocorre que certos políticos de lá são mentirosos profissionais. Eles mentem com muita sagacidade e, na maioria dos casos, creem na própria mentira que pregam.
Daí os políticos de Araratrás votaram uma lei, que aquela mudança na atitude das pessoas, tendente à franqueza exagerada, era nociva ou comprometia a boa paz social e que ela podia atrair futuras contrariedades.
E a gente de Araratrás voltou às suas velhas e gastas usanças, uma mentirinha aqui, outra mentirinha acolá, e assim continuam até agora, na paz de Deus.
(Pedro Nolasco de Araujo, mestre pela PUC-Goiás em Gestão do Patrimônio Cultural, advogado, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI)