Brasil

Aristóteles, caixas de bombons e Raul Seixas

Redação DM

Publicado em 25 de agosto de 2015 às 22:45 | Atualizado há 11 anos

Quem nunca ouviu a expressão: “8 ou 80”? Muito popular no século passado, o ditado era – e ainda é – usado para figurar indivíduos com personalidade forte, e refere-se à clareza e firmeza de opinião sem admissão de meios termos. Essa máxima, que se mostra positiva e eficaz em certas ocasiões, em outras pode se tornar bastante problemática. Será mesmo que temos sempre que escolher entre 8 e 80? Qual é o problema de ficar em outro lugar qualquer entre os extremos, ou até mesmo optar pela neutralidade? Para Aristóteles, o mais adequado é desviar-se dos extremismos e buscar equilíbrio entre o que o filósofo chama de “vícios do excesso e do defeito”.

Hoje, ao expressarmos socialmente uma opinião acerca de assuntos quaisquer, principalmente políticos, é comum sermos sinalizados com o enorme outdoor, que indica a qual lado “pertencemos”. É como se estivéssemos constantemente diante de bifurcações ideológicas e sendo obrigados a decidir entre aceitar tudo e ser contra tudo. Se rejeito uma das ideias da Esquerda, já me oferecem o portfólio completo com todas as ideias da Direita, e vice-versa. Além disto, pregam a impossibilidade de mudanças de visão; uma vez adepto, sempre adepto. Isso me parece muito extremo, e nada inteligente. Por que defender uma ideia me torna automatica e eternamente opositor da outra?

Recentemente um vídeo na internet, intitulado “A Metáfora da Caixa de Bombom”, me chamou muita atenção, e ele explica de uma forma bem didática, o pensamento que estou abordando. Neste vídeo o apresentador usa duas caixas de bombons de marcas concorrentes representando duas ideologias opostas. A ideia do autor é que, ao invés de optarmos por uma das embalagens com todo o seu conteúdo, e consequentemente rejeitarmos a outra, analisemos individualmente cada um dos bombons, ou seja, cada uma das ideias de ambas as caixas, e montemos o nosso próprio ideário composto pelos bombons que apoiamos, sem nos atermos a nenhuma marca. Uma analogia para dizer que somos completamente livres para apoiar determinada ideia – ou parte dela –, e também para reprová-la assim que outra noção nos parecer mais coerente. À vista disso, a tal “firmeza de opinião” parece bastante questionável.

Se para vários estudos da Psicologia e da Pedagogia, o ser humano constrói seu arcabouço intelectual por meio das interações sociais e da aquisição de conhecimento, mudar de opinião não é, portanto, sinônimo de ignorância, mas, resultado do raciocínio. “Eu tenho a minha opinião até eu mudar de ideia”, disse Sócrates; e o poeta concordaria em preferir “ser essa metamorfose ambulante” a ter uma opinião demasiadamente rígida que nunca se dissolve. A reavaliação é fruto do pensamento inteligente. Se mudamos de opinião sobre algum assunto, é porque (re)pensamos e reconsideramos.

Nessa perspectiva então, a expressão na verdade descreve – ou deveria descrever – indivíduos incipientes e intolerantes. Há possibilidades tanto entre os polos (8 e 80) quanto para além deles (2, 4, 20, 40, 300, 1000…). Limitar toda a gama de possibilidades do pensamento humano a meras convenções sociais é uma enorme tolice – ou um grande golpe. Logo, os dísticos políticos não servem para nada, senão para esfacelar a sociedade por meio do “patenteamento” de ideais, cujos quais todos deveriam lutar, afinal não são bandeiras da Esquerda ou da Direita, mas causas, valores e interesses, sobretudo, humanos.

 

(Raphael Thomas, estudante do 6° período de Letras pela UFG, aspirante a articulista)

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