Brasil

As doenças negligenciadas

Redação DM

Publicado em 9 de novembro de 2015 às 21:23 | Atualizado há 11 anos

A desigualdade entre as pessoas parece ser a tônica e o enredo do século XXI. Quanto mais conectados e sabedores do que se passa ao nosso redor, numa ambiência cada vez mais ampla, mais vemos como há um distanciamento entre o que é a realidade de ricos e pobres, de países livres e países aprisionados por guerras.

O Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 2015 é um alento para a população pobre do planeta. Foram agraciados três cientistas. Dois deles, o irlandês William Campbell, e o japonês Satoshi Omura, receberam a honraria por ter descoberto a Avermectina, que deu origem à Ivermectina. A droga é largamente utilizada para o tratamento de diversas doenças parasitárias mundo afora, entre elas a Oncocercose, que é a responsável pela doença chamada “Cegueira dos Rios”, que vitimiza milhares de pessoas vulneráveis no continente africano e; a Filariose, que é responsável pela Elefantíase, conhecida de todos nós.

A terceira cientista a receber o prêmio a chinesa Youyou Tu, que descobriu a Artemisinina, droga de suma importância para o tratamento da Malária, que causa 450.000 óbitos, por ano, em todo o mundo. No Brasil, a Malária é endêmica na região Norte, mas faz vitimas em outras regiões. No ano passado, tivemos casos de Malária em Goiânia, em pessoas que não tinham histórico de viagem.

O que existe em comum entre estas descobertas? Elas estão voltadas para as parcelas mais pobres da população. Esses cientistas trabalharam com afinco e desenvolveram medicamentos para o tratamento de Doenças Negligenciadas.

Pela definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), Doenças Negligenciadas são patologias transmissíveis prevalentes em regiões tropicais e subtropicais em 149 países, afetando mais de um bilhão de pessoas. Elas estão relacionadas, principalmente, à pobreza, à falta de saneamento básico e ao contato com vetores. Outra característica importante são os parcos investimentos em pesquisas para obter novos tratamentos para estas doenças, com drogas mais eficazes e com menores efeitos colaterais. O destaque dado às drogas, que em dose única e a um custo muito baixo estão conseguindo melhorar a vida de milhões de pessoas em países pobres, reforça a importância desse Prêmio Nobel.

A Malária não se encaixa totalmente no perfil das Doenças Negligenciadas, posto que há muitos investimentos para o desenvolvimento de estratégias para sua erradicação. Entretanto, há dificuldades devido a resistência às drogas usadas nos tratamentos, e resistência do vetor aos inseticidas. Mas o fato de ser uma doença de pessoas e de países pobres é bastante relevante, e nos faz pensar que pode estar acontecendo uma mudança de paradigma.

Entre as Doenças Negligenciadas há várias de grande importância para o Brasil, como a Doença de Chagas, a Dengue e a Chikungunya, a Hanseníase, as Leishmanioses, a Filariose e a Esquistossomose. Aqui, como no restante do mundo, as populações mais atingidas são as mais vulneráveis: pessoas que vivem na extrema pobreza, especialmente as crianças que, ao conviver com estas doenças, têm o futuro comprometido.

O deslocamento humano é a principal maneira de introdução de novos patógenos, seja por motivos festivos – como foi na Copa do Mundo em 2014, e será nas Olímpiadas em 2016 no Brasil -, seja devido às guerras, à fome, ou à falta de oportunidade em países muito pobres.

Mas há doenças nesses países de onde as pessoas estão se deslocando que serão desconhecidas para nós, e podem encontrar no Brasil condições de se disseminarem, caso não sejam feitos os devidos alertas. Além disso, esse vai e vem de gente pode fazer com que doenças que hoje são esquecidas, porque já foram erradicadas no nosso país, voltem a ocupar um espaço cada vez maior nas agendas de Saúde Pública.

A tecnologia tem o papel de diminuir o distanciamento entre os indivíduos. Esse merecido holofote lançado sobre Doenças Negligenciadas, que comprometem o futuro de povos e nações, é significativo e emblemático. Para nós, que estamos maravilhados com o avanço da ciência, este é um ponto de reflexão, que deve, sim, preponderantemente, diminuir as desigualdades entre as pessoas e não acirrá-las.

Letícia Aires é diretora técnica do Hospital de Doenças Tropicais dr. Anuar Auad (HDT), médica graduada pela UFG, especialista em Infectologia e Pediatria e mestre em Ciências da Saúde pela UFG)

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