Brega ou chique?
Redação DM
Publicado em 9 de novembro de 2015 às 21:12 | Atualizado há 11 anos– Aquela sandália não combina nem com as unhas. Ninguém mais está usando essas fitas trançadas até em cima. Ela devia voltar para Roma.
Engraçado que ele nem notara a sandália, quanto mais as unhas… de certo que as belas panturrilhas, fortes, alongadas e delineadas, ele vira. E bem lá no fundo de suas memórias, uma música tocava: “Agora chegou a vez vou cantar, mulher brasileira em primeiro lugar.”
– Nossa senhora, a saia está tão curta que ela não pode nem levantar os braços que aparece os fundilhos. Se for se abaixar, a calcinha fica à mostra. Saia plissada? De onde ela pensa que vem ou que vai, para a aula do colegial?
Não havia como deixar de notar as pernas maravilhosas, coxas na medida certa, não parecia um jogador de futebol e sim uma corredora de maratona. Pernas não precisam envelhecer em mulher alguma. E o refrão repetia: “Tudo está no seu lugar, graças a Deus. Não devemos esquecer de dizer. Graças a Deus, graças a Deus.”
– Ainda bem que com essa sainha da década de cinquenta pelo menos não dá pra ver a marca da calcinha. Mas eu tenho certeza que está enterrada no meio do bumbum dessa piriguete.
Ah, o derrière! As leis da gravidade todas desafiadas em pequenos e belos centímetros de curvaturas geniais. Bem sabia ele que a grande inspiração de Niemeyer eram as curvas de uma mulher. Quanto ela girou, tão suave, tão digna e senhora de si, não houve como não pensar: “Eh! Meu amigo Charlie. Eh! Meu amigo Charlie Brown, Charlie Brown. Se você quiser, vou lhe mostrar”.
– E o cintinho de meio centímetro? Pra que isso? Vai segurar o quê? Não combina nada. Que coisa!
A cintura era na medida exata. Daquelas que não se esquece. Nem de frente quanto mais de costas. Mãos pousariam ali com todo gosto, força e pressão. Não foi possível deixar de lembrar daquela antiga namorada, que havia lhe dado o maior fora do século, e que mesmo assim um sorriso sempre vinha nos lábios quando a via ou ouvia falar dela. “E ela jurou desfilar pra mim. Mas chegou o carnaval. E ela não desfilou. Eu chorei na avenida, eu chorei.”
– Barriga de fora, que exibicionismo. Ainda bem que não tem aquele piercing horroroso no umbigo. Se ficar grávida tem que tirar.
O torso era escultural. Derramaria meia taça de vinho – branco, Gewuztraminer – e sorveria tudo lentamente. Tanto para cima como para baixo. Lenta e delicadamente. Tudo começaria outra vez. Nova esperança, novo romance, renovando em cada palavra e gesto. “Nem tudo pode ser perfeito. Nem tudo pode ser bacana. Quero ver um cara sentar numa praça. Assobiar e chupar cana.”
– As costas de fora são uma agressão. Aquele lacinho mais brega. E precisa a blusa ser vermelha? Ela malha demais, deve passar quatro horas na academia, todos os dias da semana. Exibida.
Aquela conversa já estava irritando. Se no começo ele notou a presença de tão bela senhora, agora não conseguia tirar os olhos dela. Quanto mais comentários deletérios ouvia, mais isso o atraia e um turbilhão de desejos e lembranças o consumia. Pensava no passado e também no futuro. Por pouco não se aproximaria dela. “Agora eu entrego os meus pontos e vou dizer porque. Você é mulher e é bonita e eu não posso esquecer.
Você vai ficar na saudade minha senhora. Ah, eu vou-me embora.”
– Vamos sair daqui. Essa mulher já está me irritando. Sem sutiã! Aposto que tem prótese ali.
E infelizmente o inevitável aconteceu. Os olhares se cruzaram, e instantaneamente ele fez a conferência visual que todo homem faz e que não se pode disfarçar. Ele até que tentou ir embora, sair dali. Mas o peito cheio de convicção e poder vinha em direção a eles. Passo a passo, pés à frente um do outro. Tranquila. Serena. Levemente rebolativa. E o que é pior, com um sorriso lindo no rosto. “E eu levo essa vida do jeito que ela me levar. É do jeito que a vida quer.”
– Se você abrir a boca eu bato em você e nela também – e já deu um beliscão nele – e eu aposto mil reais que ela usa lentes de contato. Que verde mais brega!
A cada passo, uma batida mais forte no coração. Respirou fundo, tentou pensar em coisas diferentes, em outro lugar, outra situação. Mas aqueles olhos de esmeralda num rosto aberto em sorriso e prazer eram impossíveis de encarar. Não imaginava o que ela diria, nem como isso terminaria. Preparado para tudo, inclusive o melhor, um beijo. “O amor que eu tenho guardado no peito. Me faz ser alegre, sofrido e carente. Ah! Como eu amei.”
– Buonasera, ragazzo. Sa dire lei che ora sono?
– Sono le due.
– Noi?
– Vero…
Um abraço, um beijo, mãos dadas. Eles se conheciam. Sua irmã jamais imaginaria isso. Benito de Paula tem razão: “Tudo está no seu lugar. Graças a Deus, graças a Deus. Não devemos esquecer de dizer. Graças a Deus, graças a Deus.”
JB Alencastro é médico e escritor)