Brasil

Cê pode me dar um cigarro?

Redação DM

Publicado em 29 de outubro de 2015 às 21:26 | Atualizado há 11 anos

Ele puxou um cigarro do seu maço de Marlboro. Ela arrastou a cadeira, e sentou-se. Ele bebia longos tragos de sua birita – um Passaport com Antarctica. Ela fitava-o, tentando entender o que se passava pela mente dele. Ele buscava o paradoxo. Ela o pragmatismo. Ele queria apenas um bar para afogar as lágrimas, quando os versos não saírem , e o mundo não entender-lhe, e as horas passassem rapidamente pelos ponteiros do relógio. Ela queria um refúgio nas horas de solidão. Ele queria beber mais uma dose, nas horas de solidão.

– Quando você vai procurar fazer algo decente? – disse ela.

– Não existe nada decente pra ser feito.

– E isso é o melhor que tem.

– Sei lá.

– E o quê você sabe?

– De nada.

– De nada?

– Só sei que nada sei – disse ele.

Ela não gostou da resposta que saiu da boca dele. Ele pegou a garrafa de cerveja que estava em sua frente, e encheu seu copo. Ela retornou. Ele seguiu em seu ritual.

– Cê bebe tentando expressar algo.

– Mas não é nada.

Ele levantou da cadeira. Foi até o caixa, pagou a cerveja e retornou à mesa.

– O que foi fazer? – perguntou ela.

– Pagar a conta.

– Mas já?

– Não há nada pra se fazer aqui.

– Como?

– Não há nada pra se fazer aqui – repetiu ele.

As sobrancelhas dela subiram e desceram. Ela abriu um olhar contestatório. E ele seguia caminhando na frente dela, pelas calçadas. E ela resmungava algo.

– Porra – bradou ela –, a gente não fode, a gente não bebe, a gente não faz nada.

– Eu gosto de nossa vida.

– Cê é parado demais… cê é vibrado demais na tua poesia.

Os dois entraram no carro. Ele ligou Black Sabbath. Ela desligou o rádio.

– Agora até a minha música cê deu de controlar?

– Quem disse que isso é música?

– Ah, esqueci que música pra você é somente aqueles chatos do século XIX.

Ela deu um suspiro profundo, e disse:

– Música é música. Merda é merda.

– E Black Sabbath é merda?

Tommy Iommi solava.

Os dois cessaram a discussão. Ele puxou outro Marlboro do maço.

– Posso te pedir um favor?

– Sim – respondeu ele.

– Cê pode me dar um cigarro?

 

(Marcus Vinícius Beck, estudante de Jornalismo e escritor)

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