Chaul, o imortal bipolar
Redação DM
Publicado em 14 de setembro de 2016 às 02:38 | Atualizado há 10 anosFormado em direito e história, doutor pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisador, escritor e letrista de mão cheia, além de gestor cultural de ouvido, Nars Chaul é o mais novo imortal da Academia Goiana de Letras.
Sua posse, em evento palaciano ocorrido semana passada, para todos nós é motivo de orgulho, pois Chaul, agora mais do que ninguém lá dentro desta respeitosa instituição, representa a cultura não de forma específica e referente aos afazeres literário ou poético, mas a representa de forma mais ampla possível, posto que sua trajetória pessoal se confunde com a carreira pública de gestor cultural de sucesso. Seu nome ser aclamado por unanimidade entre os imortais de Colemar Natal e Silva resgata a boa imagem daquela Casa que havia se perdido quando nela foi negado assento a Paulo Bertran, enquanto que tantos ali acomodados sequer se ombreiam a ele, literária e culturalmente falando.
Mas a gente sabe que a Academia Goiana de Letras, na verdade, não tem como critério encontrar pares que ressoem uma representação límpida e densa da cultura desenvolvida no seu âmbito geográfico -Chaul é uma das honrosas exceções. Como diz o seu regulamento, basta publicar um livro para adentrar seus portais. Deve ser por este motivo que Batista Custódio, sempre educamente, já recusou vários convites que lhe foram feitos em comitiva e, pasmem, Pedro Ludovico, mesmo recusando insistentemente a honraria, foi assim mesmo aclamado na cadeira nº 1. O que não o intimidou e, sincera e comedidamente como era de seu feitio, quando o assunto voltava à baila ele sempre fazia questão de dizer que nunca pusera os pés lá.
A Academia, não só a goiana, é verdade, tem por tradição ser aonde se pendura a boa e velha vaidade, sendo que muitos só tem a ela. Daí o seu maior problema. O paletó de imortal, conhecido como fardão, tem broca e traça. O que importa é você não falar do meu que eu não falo do seu. E assim ninguém grita que o rei está nú.
Mas nem tudo é desilusão. Ponto para a presidente Lêda Selma com a nomeação do Chaul. E ponto para o governador Marconi Perillo, que na verdade foi, em grande parte, quem lá colocou Chaul, o aclamado.
Aliás, a posse ter sido no Palácio das Esmeraldas diz muito mais que o acolhimento em um local bacana e dos mais simbólicos da civilização goiana. Ao escolher o Esmeralda Chaul fez jus a seu principal fiador. E a escolha do Chaul, por parte da Academia, foi também o reconhecimento pleno e digno de que é imortal a gestão cultural empreendida por Marconi Perillo em seus muitos dias de governo. Mesmo que esta gestão, que sempre contou com o agora imortal assessor, sofra de um certo conservadorismo que, talvez por excesso de cautela ou apatia, deixa de aproveitar todo potencial de um mandante ousado sempre às boas com a cultura e pronto a realizar o que lhe for demandado.
Não obstante, é imortal o Centro Cultural Oscar Niemeyer, arquitetado por uma das principais personalidades mundiais do Século 20. É imortal o Festival Internacional de Cinema Ambiental, o FICA. É imortal a reconstrução da Matriz de Pirenópolis em tempo recorde no Brasil para um patrimônio histórico vitimado de completa destruição. É imortal a Cidade de Goiás alçada a patrimônio mundial da cultura, prova definitiva de que pisamos em casa o solo global oficialmente reconhecido pela Unesco e por todos os estrangeiros que já lhe pôs os pés, especialmente, nestas duas últimas décadas, durante as sucessivas edições do seu festival internacional.
Mas Chaul, em seu movimento pendular na cultura goiana, entre as polaridades do oficioso e público e do boêmio e poético, também tem seus méritos próprios que não apenas o de sempre dirigente de um governador de inéditos quatro mandatos, realizador e inclinado pelo sim cultural.
Chaul é um pesquisador sério e consequente que trouxe novas luzes à historiografia política goiana. Seus livros abrem sendas. É também um letrista que soube dar (e dará) cor e sentimento a melodias que andam soltas por aí, cravando-lhes um azimute certeiro e direto aos corações. Aliás, neste doce mister Chaul não deixa muito a dever para os nossos melhores letristas do Brasil, que, por outro lado, não têm entre eles a bagagem de um acadêmico tão esmerado.
E eis que o grande Brasil, novo de seu pouco mais que meio milênio, aqui em Goiás, o novo dentro do novo, por essas e outras se faz mais rico e diverso. Salve o imortal Chaul de tempos bons à nossa cultura. Salve o governador de muitos feitos imortais. E, na pessoa de sua altiva presidente Lêda Selma, salve a Academia Goiana de Letras, que vez ou outra demostra ainda ter salvação.
(Px Silveira. Instituto ArteCidadania)