Brasil

Coisas do acaso

Redação DM

Publicado em 12 de novembro de 2015 às 21:39 | Atualizado há 11 anos

O aviador português Antônio Ribeiro Simões aterrisava de surpresa no Aeroporto Santos Dumont, trazendo na bagagem não só camisas, ceroulas e outros teréns indispensáveis, mas ainda imensas saudades de uma tia, ora já lá iam 20 anos que não via a velha não, residente na então capital do país, Rio de Janeiro.

– Por favor, conduza-me a São Cristóvão!?, exclamou Simões, ao entrar no primeiro carro de praça que encontrara livre.

Durante a corrida, o passageiro ia contemplando, através da janela aberta do taxi, que era um Mercury 1953, a Cidade Maravilhosa, a se desdobrar ante as vistas ávidas dele. E a memória dele foi igualmente se desdobrando também. Eis que, conversa vai, conversa vem, chofer de praça e aviador descobrem ser conterrâneos. Eram ambos conterrâneos, sim senhor! Foi uma comoção tão verdadeiramente intensa e fraterna quanto aquela que sentiu Virgílio ao se deparar ele com um seu compatriota, Sordello da Goito, naquele sítio do Purgatório, Canto VI, da Commedia de Dante.

Mais comoção ainda com a prosa que se estabelecera entre eles:

– Afinal, de onde é que o patrício é lá na terra?

– Da Vila do Belmonte.

– Vila do Belmonte?

– Exatamente!

– Pois foi onde eu nasci!

– Não me diga!

E o recém-chegado acrescentou:

– Pois cá estou eu a fazer uma surpresa a uma tia velha, residente em São Cristóvão.

– Moro também lá, em São Cristóvão. Porque lá é que residem cá boa parte dos nossos patrícios, torcedores do Clube de Regatas Vasco da Gama. Não sabia?

– Sabia sim, disse Simões.

Neste ponto do diálogo, o adventício notou que nem o motorista havia se lembrado de perguntar nem ele de informar o nome da rua a que deviam se destinar.

– Ah, caro amigo, já ia me esquecendo de dizer que preciso ir à rua São Luiz Gonzaga

– Rua São Luiz Gonzaga? Em São Cristóvão?

– Precisamente.

– Pois é a minha rua!

– Quê! Na mesma rua!

– A propósito, qual é a graça dessa vossa tia, a quem tu vens rever?

– Maria Ribeiro Linhares.

– Não me digas que é uma senhora gorda, casada com um tal Gaspar Linhares? Um Gaspar que tem um bigodão assim deste tamanho e uma pinta preta assim do lado direito da boca? O chauffeur fez um gesto, delineando, na sua cara, o bigode e a pinta preta.

– Acredito que ela é casada de fato, pelo que se enxerga nas fotografias, com um tipo com essas características aí, que se chama precisamente Gaspar Linhares, o qual tem um bigodão e uma pinta preta parece que desse jeito aí mesmo, conforme tu descreves. Tu a conheces?

O motorista de praça não respondeu não, mas parou bruscamente o Mercury, para surpresa do outro, saiu dele, abriu a porta, que ficava ao lado do passageiro, estampou um sorriso na cara e ficou alí olhando o Simões fixamente, por instantes:

– O que foi? – quis saber o piloto luso, admirado com o gesto estranho daquele homem olhando pra ele.

– Dá cá um abraço no filho da Maria Ribeiro Linhares, teu primo, ó homem de Deus!?, exclamou o do taxi, estendendo os braços festivamente.

Nem foi possível cobrar a corrida.

 

(Pedro Nolasco de Araujo, mestre, pela PUC-Goiás em Gestão do Patrimônio Cultural, advogado, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI)

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