Conjectura sobre política e corrupção
Redação DM
Publicado em 20 de maio de 2016 às 02:16 | Atualizado há 10 anos
Estará o gene da política esperta e da corrupção impregnado na natureza humana? Parece-nos pergunta intrigante.
Em curto período em que minha advocacia enfrentou temas relacionados a populações indígenas, conheci assuntos que merecem ser socializados.
Um cacique de renome e boas relações com a Funai praticou um homicídio. Era bem adaptado à civilização branca, aculturado e dotado de consciência do ilícito, o que lhe renderia processo e punição.
Os caros amigos da Funai o transferiram para um local distante da jurisdição. Por razões outras, a Polícia não mais se preocupou com o caso.
A Rede Globo de Televisão iniciou uma novela envolvente da vida dos índios no local de sua nova morada. Carismático, foi convidado para ser um ator coadjuvante, proposta imediatamente aceita. Uma área de terras foi arrendada pela emissora de um proprietário nipônico e devidamente preenchida de um cenário de antigas civilizações silvícolas. Nosso cacique desempenhou um bom papel.
Terminada a série, a Globo deixou o local e o japonês foi retomar a posse sobre o imóvel, porém o personagem de quem tratamos negou que ali tivesse sido montado um cenário; era uma aldeia secular, tanto que ostentava todas as respectivas características. E objeto de usucapião já ajuizado em seu favor. Por força do que Borges chamou de “astrologia judiciária”, o cacique foi vencedor da demanda; o cenário fez-se real e a propriedade nipônica foi parar na cucuia.
Soube, em outra, que nenhum cacique é destronado de um golpe. O processo de sua destituição segue uma série de regras intuitivas, que lembram um impeachment. O tempo é medido em mais ou menos seis meses. Nesse espaço, a aldeia inteira dá início a um processo de desgaste do chefe. Intrigas tomam os dias plenos de tédio. Todos os valores antigos e celebrados viram desvalores. Mentiras são acumuladas em grande número.
O diabo é pintado lentamente na tela posta no meio da selva. Enquanto seu virtual adversário se robustece, ele definha. Não há erro. Ao final de seis meses, a aldeia está insuportável, o antigo chefe renuncia e, assim, se dá a renovação da governança. Democracia sem urnas e medrada em método nada ético.
A última, que caiu sob minha análise jurídica. O órgão estatal encarregado de dar assistência às populações indígenas, em atendimento a um pleito, iniciou a construção de sanitários em determinada aldeia. Fez-se a licitação, sagrou-se vencedora a empresa que deu o menor preço e, depois de algum tempo, sugeriu um aditamento contratual para receber algo mais, a fim de atualizar custos. Uma novidade jamais vista na história deste país…
Depois, outro aditamento. Desta feita, porque o cacique dera ordens para que um dos prédios dos sanitários fosse uma suíte. Para seu uso pessoal. Afinal, nenhum chefe, com tantas preocupações, é de ferro. Cândida ou malandramente, a construtora ergueu o cômodo. E, simplesmente, emitiu mais uma nota de serviços, a ser honrada pelo órgão público. Como consultor, vetei ambos os aditamentos. A empresa partiu para demolir a suíte e o cacique, devidamente ornamentado para a guerra, visitou-nos, com idêntico propósito. Não tinha eu a ideia do tamanho real de um arco e flecha. De todo modo, as “despesas aditadas” não foram pagas. E saímos sãos e salvos do episódio selvático, porém minha consciência de que poderia advogar em outros sítios sufocou o inconsciente temerário.
Engana-se, portanto, quem acha que os conchavos e os estratagemas políticos só ocorrem no salão verde do Congresso Nacional. Como disse, há muito deixei de advogar interesses próximos dos silvícolas. Porém, 45 anos de advocacia e, vendo o que todos os brasileiros têm visto nos últimos meses, autorizam-me a formular a conjetura. Nem os índios dão golpe, inconveniente, por pressupor surpresa, instantaneidade e reação à altura.
(Amadeu Garrido, advogado e poeta. Autor do livro Universo Invisível, membro da Academia Latino-Americana de Ciências Humanas. Esse texto está livre para publicação. Se precisar de mais informações ou quiser agendar uma entrevista com Amadeu Garrido de Paula entre em contato na De León Comunicações, nos telefones (11) 5017-4090//7604// 99655-2340 ou e-mail bruna@deleon.com.br ou danielle@deleon.com.br.)