Coronéis e charlatões semeiam no inverno as velhas misérias
Redação DM
Publicado em 22 de junho de 2016 às 03:33 | Atualizado há 10 anos“Existimos com o ser, e o que usamos, é o vazio do ser.” (Lao-Tzu–IV a.C)
A carência de reflexão reafirma a banalização dos dias, desde já, o futuro, se é que ainda há tempo, é lacuna na bola de cristal ou planeta. A sociedade (des)organizada veste-se na nudez acobertada por meias verdades – névoa de corrupção endêmica e corruptível, conjuntural. Pobre, o momento retrata (i) responsabilidade para com nossos contemporâneos, netos e tataranetos. Difícil uma resposta decente, a referência político-histórica será capaz de traduzir o rumo sem rumo do timão e cerne ontológico de uma coletividade relativizada? Relegado à latrina ideológica do poder/não poder de outono todo um País que não prevê nem se organiza para enfrentar o inverno. Em tempos de crise nada alcança maior significado que a metáfora, e, segundo Coelho: “Na linguagem do mundo tudo faz sentido, até mesmo o voo de gaviões.” (O Alquimista, 2000)
Em épocas de seca política a (des) razão recomenda mergulhar na história antes de abandonar o barco, singrar o trieiro em poeira da história vilipendiada. O tempo atual ergue-se na crise, determina a luta de classes (des)igual por “opção da maioria” – senso comum e consequência da negação de direitos ligada à questão da (des) educação. A guerra posta determina o eu animal incapaz de se sobrepor ao eu (a) político. A multidão esfacelada e “civilizada”, teleguiada, revolta-se e aciona o canhão moderno dos teclados. Longe das ruas, movimentos sociais fundam grupos numa busca sedenta e diária do divino virtual. A consciência coletiva é (in)capaz de sonhar o real palpável, capaz de julgar e mudar, pelo voto, as diferentes matilhas instaladas. A loucura do sonho não alcança o inimaginável. Se os canibais do podre poder, comprável e instalado, resolvessem jantar os congressistas, a dúvida seria se o fato – antropofágico – seria julgado por corrupção ativa ou passiva.
Conta-nos a história moderna que a Revolução Francesa reviu e reduziu direitos dos jacobinos aviltados no alforje cristão e conservadorismo burguês. Estas duas forças, articuladas historicamente, ainda nos dias atuais, incansavelmente propõem a redução de conquistas que acendam quaisquer possibilidades de inclusão ou fagulha de emancipação humana. Tornadas fetiche capitalista as necessidades (des)humanas de uma sociedade presa ao consumo, pecadora, que almeja, busca e paga pela salvação dos templos. Os trabalhadores seguem vigiados e vendidos, comprados e explorados por instituições seculares promotoras da conveniência e conivência de Mandrakes e Coringas com poder de padre e coronel capazes de reduzir uma semana da indigestão concreta a três dias de cidadania – “falácia burguesa” – delegada na caridade, presente da fé ou favor deliberado do Estado neoliberal. No corredor do inferno o mundo pós-moderno, banalizado, urge pelo sábio que viaja e caminha na estreita lâmina efêmera da ética impressa a falácias e fetiches, sem se afogar levar nas ondas midiáticas, bebe de todas elas, mantém-se de pé, esbanja consciência, contrapõe o sistema pelo viés da sapiência. Ele é a maior das fontes do conhecimento.
A vulnerabilidade social revela ao trabalhador “a linguagem do deserto e traduz a realidade do corpo que morre de sede mesmo quando, aos olhos, as tamareiras já aparecem no horizonte” (COELHO, 2006). O planeta loteado pelo capital, mundializado, insiste em vestir-se de azul, e expõe corpos que resumem o extrato de sujeitos perecíveis subjugados à luta desigual alimentada a parcos salários e conta-gotas de mínimos sociais. Banal e midiatizada, a fé o força a saques da moral que lhe dilaceram a alma enquanto espera na fila para quitar o débito com o diabo. A cidade, insegura e violenta, é o picadeiro de um circo em crise e o dono dela, o povo, vem cumprindo o papel de palhaço. A tinta cor de sangue, que delimita a promessa burguesa da ciclovia, risca asfalto em bairros nobres sem alcançar o chão batido da periferia excluída.
A insegurança, produto capitalista instalado, atrela o trabalhador vulnerável ao empregado explorado pelo Estado, com poder de polícia mal remunerada, inconstante e coercitiva: “Dizem que ela existe pra ajudar, dizem que ela existe pra proteger, eu sei que ela pode te parar, eu sei que ela pode te prender – polícia para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia!” (Titãs). O crime é mercadoria explorada pela mídia cujo lucro é embolsado pelo Estado (que a tudo e a todos vende), desmentido pelo sim do não, rico, que jura o não no sim do pobre, vento que sopra forte contra a possibilidade da dignidade humana, prende o sujeito preto, pobre e jovem. Seres sociais a serem “reinseridos ou ressocializados” traduzem a miséria da razão, positivista, que negocia e salva almas perdidas, segundo Beaumont e Tocqueville: “Jogado na solidão o condenado reflete. Colocado a sós em presença de seu crime, ele aprende a odiá-lo, e se sua alma ainda não estiver empedernida pelo mal é no isolamento que o remorso virá assaltá-lo” (in Foucault, 1987).
Se a paz moderna não se compra nas ruas, instala-se na tela do iPhone, em templos de charlatões, organiza-se em partidos, mascara a paz camuflada na algema atrelada ao cifrão, escorre por entre as prateleiras da biblioteca que contrapõe os bares em seu vazio traduzido no tic-tac do relógio sem pressa sequer apetite ou fome por ingerir alguma instrução. Dirigentes leigos não decifram o espelho nem acordam para o fato de que se o mago ganha a vida adivinhando o futuro, o chef de cozinha sobrevive aos caprichos do rei quando advinha seu paladar. A sabedoria, milenar, ensina ao ser social que, apesar dos calos nas mãos e marcas que lhe aprofundam a alma, sábio é aquele que afirma: “Nem todo bem que conquistei, nem todo mal que eu causei me dão direito de poder lhe ensinar” (Raul Seixas).
Enquanto a (des) humanidade atrasa atiçada por compromissos capitalistas, diários, vai-se tornando escrava da condição pós-moderna, ignora a água, terceira lâmina da terceira guerra. No quintal do Cerrado, seco, urge a reflexão e discussão das ideias filosóficas, segundo Nietzsche (2003): “Filosofia, assim como a entendi e vivenciei até agora, é a vida espontânea no gelo e nas montanhas mais altas – a procura de tudo que é estranho e duvidoso na existência, de tudo aquilo que até agora foi excomungado pela moral.” Se falta comida nos palácios “de uma Alvorada”, superfaturada em Brasília, a realidade, nas choças pelo interior do País, denuncia a violência, abre clareira para inúmeras expressões sociais como a de incontáveis órfãos do êxodo rural relegados à miserabilidade herdada das plantas multinacionais da cana. Raiz da mazela da droga, no ambiente rural, questão de saúde e ferramenta do enriquecimento ilícito do Estado paralelo que reduz, a conta-gotas de políticas públicas, imediatistas, a força de produção dos sobrantes do sistema capitalista à capacidade humilhante e latente da esperança que espera por mais um favor (direito) na fila “sem fim lucrativo” nem final a ser encaminhada à miséria da razão sem direito ao desmaio.
E o pulso, ainda pulsa!
(Antônio Lopes, filósofo, assistente social, mestre em Serviço Social/PUC-Goiás e aluno-ouvinte em Direitos Humanos/UFG)