Brasil

Crianças com mais de 50 anos não podem assistir futebol

Redação DM

Publicado em 11 de outubro de 2015 às 21:43 | Atualizado há 11 anos

JB Alencastro

Juro que em minha sã inocência eu queria ver a seleção brasileira golear o Chile. Após um dia de trabalho árduo, cirurgia complicada e parto difícil, só restava me refestelar no sofá e comer pipoca com a TV ligada no futebol. Fiz tudo isso, cheguei atrasado e o segundo tempo começou. Como estava zero a zero, sei que não perdi nada. As duas bolas na nossa trave que en passant ouvi o narrador comentar, não eram perigo. Já que se não entrou, não foi gol.

Lembrei-me de tantas outras seleções e tantos craques. Homens que só o bigode já o tornavam temidos, como o Rivelino. Nossa seleção não parece ter homens viris. Nossa seleção não é mais temida. O Chile atacou sem medo de ser feliz, deixou a sua defesa aberta como os braços de garoto que acaba de fazer gol. Deixou uma avenida de samba para o Brasil faturar. E o que fizemos? Saímos em desabalada carreira contra o adversário e nem chutar contra o arqueiro, conseguimos.

Essa inépcia, essa má vontade, essa fraqueza de caráter, dá-me arrepios de medo. Fui menino magrinho, pequeno e que corria muito. Moral sempre existiu, podia me faltar força, técnica, mas aquela resolutividade de pegar a bola no fundo das redes e partir para o centro do campo e tentar a virada, sempre tive. Eu e todos que conheço do outro e também do meu time. Quem é o nosso time? Nosso esquadrão? Quem nos representa?

Não irei fazer comparações políticas e muito menos econômicas com a nossa seleção. Pois esses dois assuntos estão muito piores. Entretanto futebol para mim é diversão, entretenimento. O nosso técnico interpreta os jogadores como “guerreiros”. Mas isso não é luta, é arte. Onde estão os dribles divinos? Os chapeuzinhos? As canetas? As encobertinhas? Onde estão os chutes de trivela, os passes de curva?

Os dirigentes seculares de feudos futebolísticos estão encarcerados no exterior ou isolados na ilha de mediocridade que se chama Brasil. Não há liderança. Um guri tem que ter um capitão, um diretor da escola, um chefe. Não temos. Alguém para admirar.

Nosso melhor atleta parece estar envolvido com o fisco, um mau pagador. Alguém que se acha acima das leis, que – ouvi dizer – nem o obstetra do seu filho ele acertou a conta. Espero que seja tudo mentira. Como eu disse no título da crônica, sou criança e acredito até prova em contrário.

O gol final, em tabelinha que me remete a Pelé e Coutinho – aí eu fui longe, reconheço – colocou o Brasil na roda. Senta e chora. Só pude pensar em algo assim. Eles mostraram como se faz um contra-ataque de maneira artística e contundente. Meninos, eu vi.

Sei que muita gente vai até estranhar essa crônica infantilizada e quem me conhece sabe que nadei a vida inteira, sou nadador de formação e jogador de pólo-aquático por paixão. Por que escrevo sobre futebol? Digo-lhe então que ele está entranhado em mim, porque tenho mais de cinquenta anos e homens dessa idade são pueris no que tange à pelota. Jogava antes de começar a aula, no recreio, depois da aula, depois das tarefas e ao entardecer. Todos os dias.

Sonhei com o campinho de terra, o joelho ralado – repararam que ninguém se esfola hoje em dia? – a chuva no horizonte ameaçando e ao mesmo tempo nos ungindo ao final da pelada magistral. Quantas boas lembranças tenho de “carrinhos”, bola rolada parando na poça d’água e morrinho artilheiro. Gols sofridos de ver o arqueiro se esticando todo e esborrachando na lama ao tentar defender o indefensável.

Hoje, diante da TV, vejo uma torcida alheia soletrando o nome do seu país com louvor, alegre e radiante. Queria um dia poder ter vontade de rever o nosso grito: Bra-sil, Bra-sil! Por recomendação médica – minha esposa o é – estou proibido de assistir jogos do Brasil e nem ler comentários a respeito, sob pena de receber castigo e a pior das sanções: ausência de amor.

Amor! Talvez seja essa a maior falta da seleção. Amor à camisa, ao país, às suas responsabilidades. Ou talvez falte mesmo é vergonha na cara, como diria o meu velho pai, que detestava futebol, mas amava o Garrincha. Vai entender…

JB Alencastro  é médico e escritor)

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