“Desastre em Mariana, atentados em Paris e o viralatismo brasileiro”
Redação DM
Publicado em 18 de novembro de 2015 às 21:48 | Atualizado há 11 anosO viralatismo do brasileiro é algo impressionante! Além de recorrente está cada vez mais forte. O Oaís tem uma população com uma autoestima tão baixa que ninguém pode ser bom em nada, e se o for, não pode reconhecer isso. Aqui só faz sucesso quem é “humilde”. O cara precisa ter uma história de sofrimento. Até empresas criam histórias dizendo que começaram no fundo de um quintal e com muito esforço conseguiram chegar onde chegaram. Se o cara for rico, começar um negócio de sucesso, e prosperar, ele não terá mérito pois aqui só é bom quem começou na dureza. O mais triste é que este sentimento medíocre está presente até em momentos de crises e catástrofes.
O mundo se compadeceu com a França na noite de sexta-feira, dia 13 de novembro, depois de uma série de atentados terroristas que resultaram na morte de 129 pessoas, até agora, e um saldo de mais de 300 feridos. O Facebook, no sábado, criou uma ferramenta que colocava a bandeira da França como marca d’água no perfil. Foi uma forma de mostrar apoio às vítimas e deixar claro para os terroristas que eles não conseguiriam deixar o mundo com medo.
Até aí, tudo bem. Era uma ferramenta que sequer oferecia uma resolução para a tragédia. Era algo de caráter simbólico. Aí, entrou em ação a hipocrisia brasileira. Um monte de vira-latas começou a se achar no direito de definir as regras da internet. Eles não suportaram o fato de um país de primeiro mundo ter tido uma catástrofe maior que a nossa. Temos que ser os piores, até em tragédias. Ninguém pode sofrer mais que a gente! Só nós temos o direito de sermos os mais miseráveis da Terra.
Passaram então a ressuscitar as maiores tragédias brasileiras, alegando que os franceses nunca se preocuparam com a gente. Houve quem tentou usar a Boate Kiss na guerra entre tragédias, inclusive falando que este triste incidente também havia sido um ato terrorista. Pra que coerência? O importante é mostrar que sofremos mais. Já que a boate não colou, lembraram-se então que havia acontecido uma catástrofe recente em Minas Gerais, e passaram a se importar com eles.
Começou uma verdadeira competição entre tragédias. Uma inquisição moderna foi instalada, e pessoas que colocaram a bandeira da França em sua foto de perfil passaram a ser perseguidas. O Maniqueísmo brasileiro não permite que alguém dê atenção a duas situações diferentes. Não existem meio-termo. Ou você está de um lado ou do outro. Afinal, ninguém pode se compadecer com duas tragédias, já que para estas pessoas, ao se importar com as vítimas do atentado na França você estava automaticamente ignorando as vítimas da tragédia em Mariana. Você está mais preocupado com “gringos” do que com o seu próprio País.
Desde que essa guerra começou, alguns mais sensatos defenderam que não se deve fazer um comparativo entre tragédias. Não deve haver uma competição. Porém, é bom explicar o que está por trás de cada uma delas. De um lado tivemos um ato terrorista. Assassinatos gratuitos, sem uma motivação lógica. Já em Em Mariana, pequena cidade de Minas Gerais, no dia 5 de novembro tivemos o rompimento de duas barragens da empresa Samarco, cuja Vale S.A. detém 50% da empresa. Ela beneficia minério na região, e o exporta depois, com um valor maior. As barragens serviam de depósito de rejeitos do processo de beneficiamento do minério, composto em sua maioria de sílica (areia) e óxido de ferro. A empresa alega não ter substâncias tóxicas nos detritos que atingiram o Rio Doce, porém uma análise independente de uma das empresas de água no leito do rio apresentou grande quantidade de mercúrio, que é altamente tóxico. Foram confirmadas sete mortes, há 18 desaparecidos e centenas de desabrigados.
A empresa disse que a barragem estava ok, inclusive foi fiscalizada, e chegou a culpar pequenos tremores que aconteceram na região para justificar o “acidente”. Um laudo descoberto por alguns jornalistas mostrou que havia necessidade de reparos na barragem, e a Fundação Estadual do Meio Ambiente de MG, também recomendou a realização de reparos em uma das estruturas. Para o Ministério Público já está evidente que houve “negligência” por parte da empresa. O Rio Doce está praticamente morto. Diversas cidades estão sendo atingidas diretas ou indiretamente em razão desta catástrofe.
Oito dias separam os dois acontecimentos. E até então, apesar de uns poucos gatos pingados comentarem sobre o ocorrido, a grande maioria não deu atenção para o “acidente”. Mas a possibilidade de uma catástrofe que ofuscasse a nossa desgraça despertou no brasileiro o sentimento chauvinista mais autêntico possível. Começou-se uma verdadeira onda de patriotismo até então adormecida, criticando qualquer um que demonstrasse ser humano o bastante para se compadecer pela dor das diversas vítimas de um atentado covarde, que fere não só a população francesa, mas o “Mundo Livre” em sua totalidade. Um atentado que representa o ataque do totalitarismo contra a democracia. Do medo contra a segurança.
Por ser um ataque, cujas vítimas não apresentavam nenhum tipo de característica que motivasse ou justificasse suas mortes, era óbvio que o ataque geraria uma comoção mundial. Não estamos falando de um “acidente”, cuja empresa responsável fez doações polpudas para diversos políticos que estão hoje no poder, inclusive os deputados que fazem parte da comissão que vai investigar o ocorrido. Não devemos comparar as situações. Dor da perda e da morte não pode ser medida. 129 mortes na Europa são tão dolorosas para seus familiares, quanto as sete mortes daqui. Não existem vencedores nesta disputa.
Cabe ressaltar, porém, que é possível ver características gritantes entre o povo francês e o brasileiro. Na mesma noite em que aconteceram os ataques, diversos pontos de Paris foram fechados e centenas de pessoas não conseguiram voltar pra casa. Então, uma quantidade enorme de franceses usou redes sociais para abrir suas casas, e abrigar os seus compatriotas. Não havia cobrança. Era apenas compaixão. Nos dias seguintes diversos taxistas passaram a transportar vítimas e seus familiares gratuitamente pela cidade. Exemplos simples de cidadania e caridade.
Já no Brasil, as redes sociais estão cheias de relatos de moradores das cidades atingidas dizendo que os taxistas aumentaram as tarifas e estão cobrando valores que chegam a ser ofensivos. Existem relatos de cidades em que comerciantes estão vendendo água por um preço até 20 vezes maior do que o de costume, aproveitando o sofrimento da população para lucrar em cima. Enquanto em Paris a população se mobilizou para ajudar seus compatriotas. Aqui verdadeiros bandidos estão tirando proveito e lucro em cima de pessoas que já estão sofrendo. Quanto patriotismo! Que orgulho de ser brasileiro!
A guerra ideológica começou, então, a colocar brasileiros contra brasileiros. De um lado um monte de hipócritas que estavam se lixando para o que aconteceu em Minas Gerais, passaram a se preocupar com a situação, e criticar os que estavam do outro lado, apenas colocando a bandeira da França em sua foto de perfil no Facebook. Apesar disso, as doações não aumentaram. Não foi visto nenhuma movimentação nas estradas de voluntários indo para Mariana ajudar os desabrigados. Não foi visto nenhum comboio de doações arrecadadas por esses patriotas de internet, em direção à Minas Gerais.
A única movimentação dos hipócritas foi em redes sociais. Os ativistas de sofá passaram orar pelas vítimas de Mariana. E, pronto! Fizeram sua parte. E daí que na Bíblia fala que a fé sem obras é morta! O importante é que nossos cristãos exemplares, além de criticarem todos os que de alguma forma ficaram comovidos com a situação em Paris, fizeram o que se espera de pessoas de bem: rezaram! O povo de Minas que se vire para sobreviver. A grande maioria acreditou que já estava com a missão cumprida, afinal, compartilharam uma imagem falando que estão rezando pelas vítimas. Doar que é bom, nada! Deus vai cuidar deles, já que os irmãos em Cristo, não podem fazer nada além de orar pelos desabrigados. Doar implica em agir, e isso vai contra a hipocrisia do Viralata. Só criticamos. Ajudar que é bom, jamais! Afinal estaremos deixando de ensinar a pescar e dando o peixe, e de comunistas no Brasil, basta os petralhas, não é verdade?
(Bruno Rodrigues Ferreira, psicólogo, jornalista, palestrante e gerente de Atendimento – Twitter: @ferreirabrod)