Brasil

Emburrecimento da educação pública na sociedade

Redação DM

Publicado em 3 de agosto de 2015 às 22:06 | Atualizado há 11 anos

Questionar a ordem convencional das coisas não é exercício dos mais confortáveis, visto que quando assim procedemos atraímos para nós um olhar de censura, como se refletir sobre a realidade social fosse proibido, pois em tempos de cegueira intelectual e de uma emburrecimento da educação pública, ser crítico é ir à contramão do que é proposto pela estrutura da escola pública, logo você perde espaço no diálogo e sequer é ouvido. A escola pública, na sua esfera de ensino básico passa por uma crise de valores éticos e consequente fracasso da razão.

O comportamento individual ou coletivo dos professores está endossando o fracasso de uma geração de estudantes, que fazendo mal uso das tecnologias não conseguem mais sequer ler um livro ou assistir uma aula sem uso do fone de ouvido. No Mato Grosso, mesmo havendo uma lei que proíbe o uso do aparelho celular em sala de aula, é extremamente complicado fazer valer a regra. O grande desafio contemporâneo da educação pública é fazer o estudante pensar e aceitar o papel transformador do conhecimento.

Sou professor do Ensino Médio na rede pública e praticamente todas as vezes que adentro em uma sala de aula e tento aprofundar em alguma reflexão sociológica, sou tomado por uma profunda fadiga filosófica que se transforma em uma angústia existencialista, visto que sou levado à única conclusão possível: a escola pública fracassou e não consegue preparar seu aluno para enfrentar os desafios que se avolumarão após a saída dele do Ensino Médio. E a culpa é de quem? Ouso a dizer que a culpa é de uma formação sociocultural que valoriza a esperteza em vez do trabalho sério, que prega a malandragem em vez da honestidade; a culpa é dos excessos, da ausência de regras, da falta de amor pela leitura, da preguiça institucionalizada, etc.

O fato é que a realidade da educação pública no Brasil é irônica, perversa e melancólica. Obviamente que existe exceções, que há bons alunos, inclusive os bons são vitimados, violentados, taxados de anormais, justamente porque buscam elevar-se a condição intelectual das pessoas inteligentes, logo esse comportamento atraem para eles a fúria dos ignorantes, daqueles que tem raiva da razão e do conhecimento. O bom aluno é achincalhado e taxado de aberração pelo mau aluno.

O cenário é constrangedor e com tendências a piorar. Isso tudo é culpa do afrouxamento das regras, da perda de autonomia do professor, do excesso de direitos que esse aluno possui, sem ter que oferecer nenhuma contrapartida. A permissividade exacerbada destruiu a relação de respeito que outrora existiu entre aluno e educador. Antes o professor na rede pública era uma referência que o aluno admirava e queria seguir, hoje o professor é o motivo da piada, do escárnio e de deboche.

 

(Joel Mesquita, sociólogo)

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