Ensaios sobre psicologia social e psicanálise
Redação DM
Publicado em 13 de agosto de 2015 às 22:24 | Atualizado há 11 anosÉ impossível compreender o pensamento de Adorno (1903-1969) e sua perspectiva materialista sem levar em conta o diálogo de sua obra com a psicanálise, em especial com a descoberta de Freud acerca da gênese do Eu e da estrutura pulsional da vida em sociedade. Daí a importância seminal deste volume, composto de sete ensaios que caracterizam a crítica social psicanaliticamente orientada do filósofo.
Traduzidos pela primeira vez no Brasil, os textos revelam um modelo de crítica da razão como análise de patologias sociais que possibilita uma compreensão mais precisa de fenômenos como o fascismo, a personalidade autoritária e os impactos psíquicos do capitalismo.
Adorno jamais foi um oponente da psicanálise, esclarece, na apresentação do livro, Christian Ingo Lenz Dunker. A crítica do filósofo ao tratamento psicanalítico, afirma ele, volta-se, majoritariamente, contra as consequências de sua culturalização especialmente no que diz respeito aos objetivos da cura.
O interesse do pensador pela psicanálise, porém, pontua Dunker, é anterior ao fenômeno da culturalização, que data do pós-Segunda Guerra Mundial. Começa com a emergência da psicanálise entre as vanguardas científicas e culturais da Viena de meados dos anos 1920, quando Adorno já havia estudado psicologia, além de filosofia e sociologia, na Universidade Johan Wolfgang Goethe. Na época, portanto, ele conhecia bem tanto os argumentos kantianos contra a psicologia racional quanto sua renovação, empreendida por Husserl, que remontam ao conflito entre a filosofia e a psicologia surgido na Alemanha do começo do século passado.
Entre 1937 e 1949 Adorno acompanha a tendência que ficaria conhecida como culturalista, neofreudiana ou, mais especificamente, revisionista, que desdobra a psicanálise em inúmeras abordagens clínicas congêneres, às quais o filósofo volta sua crítica. Desenvolvido nos Estados Unidos, o culturalismo resulta de um contexto em que psicanalistas emigrados do velho continente incorporam teorias locais prestigiadas enquanto tentam, a duras penas, legitimar suas próprias concepções por meio de critérios científicos distintos dos vigentes na Europa.
“O antagonismo social reproduz-se no objetivo da análise, que não mais sabe, nem pode saber, para onde quer conduzir o paciente, se para a felicidade da liberdade ou para a felicidade na não liberdade”, escreve Adorno em “Sobre a relação entre sociologia e psicologia”, referindo-se ao culturalismo.
Além desse ensaio, o livro traz “A psicanálise revisada”, “Antissemitismo e propaganda fascista”, “Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista”, “Observações sobre política e neurose”, “Tabus sexuais e direito hoje” e “Teses sobre a necessidade”.
Trecho
“[…] Não é acidental que todos os agitadores fascistas insistam na iminência de catástrofes de alguma espécie. Enquanto advertem de perigos iminentes, eles e seus seguidores se excitam com a ideia da ruína inevitável, sem sequer diferenciar claramente entre a destruição de seus inimigos e de si mesmos. Este comportamento mental, aliás, pôde ser claramente observado durante os primeiros anos do hitlerianismo na Alemanha, e possui uma base arcaica profunda. Um dos demagogos da Costa Oeste disse certa vez: “Eu quero dizer para vocês, homens e mulheres, que vocês e eu estamos vivendo na mais terrível era da história mundial. Estamos vivendo, portanto, na era mais agraciada e maravilhosa”. Este é o sonho do agitador: uma união do horrível e do maravilhoso, um delírio de aniquilação mascarado como salvação. A esperança mais forte de efetivamente contrariar todo este tipo de propaganda reside em ressaltar suas implicações autodestrutivas. O desejo psicológico inconsciente de autoaniquilação reproduz fielmente a estrutura de um movimento político que, em última instância, transforma seus seguidores em vítimas.” (“Antissemitismo e propaganda fascista”, 1946, pág. 152).